153 mil milhões de euros. Banco de Portugal nunca tinha detido tantos ativos

Nos últimos quatro anos, o programa de compra de dívida pública ganhou destaque para o banco central português, em detrimento do financiamento a bancos.

O stock de ativos detidos pelo Banco de Portugal (BdP) aumentou para o valor mais elevado de sempre em 2017. Ao longo do ano passado, a folha de balanço do banco central português engordou 11% para 153 mil milhões de euros. Em grande parte, o recorde deveu-se ao programa de compras de títulos da zona euro do Banco Central Europeu (BCE), que é executado pelos bancos centrais nacionais.

“As medidas implementadas pelo BCE ao longo dos últimos anos alteraram profundamente a dimensão e a composição do balanço do Eurosistema e do Banco de Portugal”, refere o Relatório da Implementação da Política Monetário, apresentado esta quinta-feira.

“No final de 2017, os balanços do Eurosistema e do Banco de Portugal aumentaram para máximos históricos de cerca de 4.500 mil milhões de euros e de cerca de 153 mil milhões de euros, respetivamente”, explica.

Nos últimos anos, as medidas não convencionais de política monetária do BCE em resposta às crise tiveram impacto na estrutura da folha de balanço do banco central português. Entre 2014 e 2017, o peso dos programas de compra de ativos no total do ativo passou de 5% para 27%. Em sentido contrário, o financiamento às instituições de crédito caiu de 36% para 16%.

BdP tem 41 mil milhões de euros em dívida portuguesa

Ao longo do ano passado, tal como no anterior, o BCE adquiriu títulos no mercado no âmbito do programa alargado de compra de ativos, que foi lançado para estimular a economia após a crise. No primeiro trimestre de 2017, o BCE adquiriu 80 mil milhões de euros em ativos de toda a zona euro por mês e 60 mil milhões de euros entre abril e dezembro.

Desde janeiro e até setembro, as aquisições continuam a um ritmo mensal de 30 mil milhões de euros, sendo que o programa irá decorrer no último trimestre com a compra de 15 mil milhões de euros e terminar no fim de 2018. Após o fim do programa, o BCE irá continuar a reinvestir o montante dos ativos que atingem as maturidades.

O valor dos ativos adquiridos desde o início do programa de compras representava, no final do ano passado, 47 mil milhões de euros na folha de balanço do BdP, sendo que 41 mil milhões de euros eram relativos ao programa de compra de ativos do setor público.

No conjunto da área do euro, o montante chegou a 2.386 mil milhões de euros no final de 2017, dos quais 1.931 mil milhões de euros são referentes a dívida pública.

Excesso de liquidez na banca portuguesa aumenta

As medidas de política monetária não convencionais do BCE injetaram liquidez na economia, que tem impacto no sistema financeiro do bloco. O BdP explica que “também o excesso de liquidez tem vindo gradualmente a aumentar para máximos históricos”.

Em Portugal, a média do excesso de liquidez ascendeu, no final de 2017, a cerca de 10 mil milhões de euros. “Contudo, o peso do excesso de liquidez em Portugal no conjunto da área do euro manteve-se em cerca de 0,5%”, explica o BdP.

Devido à política de taxas de juro em mínimos históricos, as reservas mínimas dos bancos são remuneradas a 0%, enquanto as excedentárias pagam uma taxa de 0,40%. Em Portugal, as reservas mínimas registaram poucas alterações e atingiram os 2 mil milhões de euros, no final do ano passado.

O banco central refere que as condições de liquidez das instituições financeiras portuguesas mantém-se “confortáveis”. O recurso a financiamento permaneceu estável em cerca de 22 mil milhões de euros, “quase exclusivamente em operações de financiamento de prazo alargado”, sendo o BdP sublinha que a política monetária irá manter o curso acomodatício (graças ao reinvestimento), ou seja, que se irá manter como grande detentor de dívida pública.