A cidade proibida

Convinha ponderar bem o que é a actual perspectiva de El Dorado que o turismo pode dar a Lisboa, que sempre foi cosmopolita e aberta e que deverá ser sempre inclusiva, mas nunca poderá ser exclusiva.

Aparentemente, o compromisso de reduzir as emissões poluentes motivou em Lisboa a proposta de instituição da Zona de Emissões Reduzidas que inclui a Avenida da Liberdade, Baixa e Chiado, Avenida Almirante Reis, Alfama, Castelo, Bica e Bairro Alto. Uma das implicações são os 10 “convites” para automóveis que serão disponibilizados aos moradores destas zonas.

Sempre tive grande simpatia pelas questões ambientais e há que reconhecer que muito se tem feito em Portugal neste domínio. Não raras vezes tem havido algum populismo ou demagogia nestas matérias, assistindo-se por exemplo a uma banalização dos relatórios de responsabilidade ambiental de empresas, ou ainda a tristes anúncios apocalípticos do fim do mundo devido aos impactes ambientais (e.g. Auto-estrada do Algarve, Ponte Vasco da Gama, Barragem de Alqueva).

É há muito bem conhecido, proposto e aceite, que todas as boas políticas de sustentabilidade devem ser baseadas no equilíbrio, ponderado e razoável, entre os aspectos ambientais, sociais e económicos. A aposta desmesurada num só destes factores tem consequências nefastas, no curto ou no médio prazo, nos outros dois.

Nunca tive muita simpatia por “propostas” como esta, independentemente do seu mérito ou valor, que não foram apresentadas ao eleitorado em devido tempo, ou seja, nas campanhas eleitorais. Trata-se de “propostas” que têm um tal impacto na cidade que não podem deixar de ser sufragadas, dentro de respeito que se deve ter pelas pessoas a quem se pede o voto nas eleições.

Foi apresentado em 2006 o Projecto de Revitalização da Baixa-Chiado. Convinha revisitar este projecto, que veio a ser aprovado e elogiado pelas actuais forças políticas que dirigem os destinos da cidade. Da revitalização então sonhada, temos hoje uma zona central da cidade onde se vê uma animação turística que convive alegremente com uma oferta comercial e de tuk-tuk que se podem encontrar nos mais exóticos recantos do mundo.

Quem opta por viver fora de Lisboa são cada vez mais os lisboetas, em particular os jovens, que se vêem forçados a isso por causa dos preços da habitação. Quem sabe, amanhã inventar-se-á um subsídio para o regresso dos jovens à cidade. Mas há também casos de pessoas que quiseram ir viver para a Baixa-Chiado e que hoje desesperam por sair de lá, seja devido ao estacionamento, ao insuportável ruído (que não é dos transportes) ou à pequena criminalidade ambulante.

A associação de moradores da Baixa considerava em 2008 que o plano de revitalização “tinha pernas para andar” mas defendia que o aumento dos residentes proposto fosse feito com “qualidade”. Passados estes anos parece-me claro que nem o esperado aumento populacional, e se calhar nem a desejada qualidade, aconteceram.

Teremos agora uma nova forma de “guetos”, contra os quais sempre me bati em termos de política urbanística, sob a forma de guetos ambientais. Não se vai poder entrar livremente no coração da cidade. Hoje, o executivo municipal autoriza, de forma magnânima, 10 visitas por mês. Amanhã, não se sabe. Já consigo antecipar a próxima campanha autárquica com promessas do tipo “quem dá menos…” ou “quem dá mais…”.

A Junta de Freguesia de Santa Maria Maior já mostrou a sua preocupação quanto ao acesso dos cuidadores informais às casas da população mais vulnerável. “As pessoas têm direito à gestão da sua vida familiar”, admite o Presidente de Junta. “E de preferência, sem a interferência da Câmara de Lisboa”.

A Associação de Valorização do Chiado assume-se otimista com a nova Baixa de Lisboa porque “pior do que está não pode ficar” e “se é verdade que há muitos turistas a percorrer as ruas daquela zona histórica, já os lisboetas optam cada vez mais pelo El Corte Inglês ou o Centro Comercial Colombo”. Em compensação, existe um grande centro comercial espalhado em toda esta zona onde se pode encontrar droga, e réplicas baratas de droga, a toda a hora.

O Terreiro do Paço, esse termo amaldiçoado por tantos autarcas que sentem o excessivo poder da Capital, vai ficar ainda mais distante. Mas continuará a ser, cada vez mais, um palco para frequentes mini-maratonas (não seria boa ideia levar os atletas para o parque de Monsanto onde o ambiente é mais saudável?), para espectáculos musicais ou para manifestações descoloridas.

A revitalização turística da cidade promete (ameaça) continuar. O actual presidente reafirma que o turismo é uma autêntica mina de ouro que não podemos desprezar. Não importa que se corra com os alfacinhas, com os jovens, com a classe média para as periferias. E as “periferias” não são só as geográficas, como bem lembrava o Papa Francisco. São também as periferias humanitárias, culturais, intelectuais, sociais, económicas, e agora as ambientais.

Há quem receie que a Baixa se transforme num “parque temático de recreio” para turistas e estrangeiros residentes, estilo “Lisbon Resort Center”, tal como parece ser o desígnio e o empenho da actual maioria política, através de medidas como esta. Convinha ponderar bem o que é a actual perspectiva de El Dorado que o turismo pode dar a Lisboa, que sempre foi cosmopolita e aberta e que deverá ser sempre inclusiva, mas nunca poderá ser exclusiva.

Pelo caminho que se anuncia, receio bem que aquilo a que se chamou durante muitos anos Baixa Pombalina passará a ser conhecido pela Cidade Proibida.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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