A liderança do PS não deve ser entregue a uma adjunta

Defendo a extinção da função de secretário-geral adjunto, porque entendo que a liderança do partido deve ser exercida por quem foi efectivamente eleito para tal e não por uma qualquer solução de recurso.

Toda a gente sabe que apesar de ser António Costa a surgir nos boletins de voto nas eleições directas para a liderança do PS que se realizam hoje e amanhã, não será ele a exercer as funções de secretário-geral. A razão é simples: é-lhe humanamente impossível. Como ficou claramente demonstrado ao longo dos últimos dois anos, as funções de primeiro-ministro absorvem-no quase totalmente. A actual solução de governo é muito exigente. O PS não depende apenas de si próprio, depende de uma maioria parlamentar que não controla e que obriga a uma negociação permanente.

António Costa tem uma grande capacidade de trabalho, mas não tem o dom da ubiquidade. No último mandato faltou a actos importantes da vida do partido. Senão vejamos. Não esteve presente na reunião da Comissão Política Nacional que aprovou a instauração de processos disciplinares a mais de três centenas de militantes. Não esteve presente no Congresso do PS da Madeira. Não esteve presente no Congresso da Tendência Sindical Socialista. A presença nestes actos é uma obrigação do secretário-geral, que não foi cumprida. E mais, nem sequer esteve presente na entrega da sua própria candidatura a secretário-geral.

Os militantes do PS sabem que no dia seguinte ao Congresso quem exercerá efectivamente as funções de secretário-geral não será António Costa, mas sim Ana Catarina Mendes. Em nome da verdade e da transparência democrática devia ser ela a ir a votos nestas eleições internas. Na prática estas eleições estão a ser disputadas entre mim e Ana Catarina Mendes, embora seja o nome e a fotografia de António Costa a aparecer no boletim de voto. Os militantes do PS devem estar conscientes que ao votarem em António Costa estarão na verdade a votar em Ana Catarina Mendes.

Defendo mais ética e mais transparência na política. Por isso me bato pela consagração estatutária de Primárias Abertas para a escolha de todos os candidatos a titulares de cargos políticos. Tal como se comprometeu a realizar, a partir do próximo Congresso Nacional, António Costa.

Defendo a separação entre o Partido e o Estado. Entendo que quem exerce o cargo de deputado não possa ser simultaneamente presidente de Juntas de Freguesia. Defendo a não acumulação de funções de direcção executiva no partido com cargos governamentais. Entendo que membros do Governo não devem ser, por exemplo, presidentes de federações do partido. Tal como defendo que deve existir uma separação entre as funções de primeiro-ministro e de secretário-geral do partido.

Temos um primeiro-ministro 100% dedicado ao País e exigimos ter um secretário-geral 100% dedicado ao partido. Por isso, defendo a extinção da função de secretário-geral adjunto, porque entendo que a liderança do partido deve ser exercida por quem foi efectivamente eleito para tal e não por uma qualquer solução de recurso, encontrada a posteriori e sem verdadeira legitimidade democrática, como acontece actualmente.

Estou certo que com a implementação deste pacote de medidas de transparência e de reforma do sistema político teríamos um país mais avançado e desenvolvido.

É na defesa de um partido com paredes de vidro que me apresento humildemente aos militantes do Partido Socialista nestas eleições.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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