A nostalgia antiturística

A nostalgia é uma das emoções humanas mais perigosas, sobretudo se estiver associada a um passado mítico, que nunca existiu.

Foi a nostalgia volkisch, de uma sociedade germânica idealizada, que esteve na génese da monstruosidade do nazismo. E uma forma maligna de nostalgia tem alimentado os populismos na Europa e nos EUA.

Mas a nostalgia por um passado que nunca existiu faz-se sentir também em questões mais comezinhas, como a do turismo nas cidades. Esta semana, foi noticiado que existirá um turista para cada dois residentes em Alfama e no Bairro Alto, com o autor do estudo a defender, no Parlamento, que estas zonas de Lisboa estão perto da “saturação turística”.

Além das dúvidas que o estudo levanta – como notou a economista Vera Gouveia Barros, o autor usa dados de residentes de 2011 para falar do alojamento local em 2016, define a saturação de forma arbitrária e confunde “camas” com “turistas” -, é caso para questionar:  qual é o mal de ter turistas? Não são pessoas como as outras, para mais se cumprirem as leis, estimularem a economia local e ajudarem a manter a cidade viva?

Na verdade, o que está em causa é uma objeção ideológica ao facto de a lei da oferta e da procura funcionar também no mercado imobiliário. E que, para seduzir as pessoas comuns, surge revestida da nostalgia de uma Lisboa do “Páteo das Cantigas”, supostamente pura e genuína, onde as vizinhas passavam o dia à janela, as varinas apregoavam o seu peixe e as crianças jogavam à bola nas ruelas estreitas. Essa Lisboa, dizem os nostálgicos, foi destruída pela “gentrificação” (tema para outra crónica) e pelo turismo, com os seus alojamentos locais, hostels e pastéis de bacalhau com “Sierra Cheese”. Mas não só essa Lisboa à António Ferro nunca existiu verdadeiramente, como também o turismo não foi o principal responsável pelo êxodo dos moradores das zonas históricas.

Essa debandada começou bem mais cedo, nos anos 80, quando as pessoas começaram a poder optar por viver em casas maiores e mais recentes, longe do centro. O êxodo dos bairros históricos deveu-se, em primeiro lugar, à melhoria generalizada das condições de vida. Ainda há poucos anos, em 2010, o problema em Lisboa não era a gentrificação nem o excesso de turismo, mas sim a desertificação do centro histórico, a ponto de a autarquia ter alterado o Plano Diretor Municipal para tentar combater o problema, atraindo “jovens e classe média” (ou seja, gentrificar essa parte da cidade?).

Cada um à sua maneira, o turista e o migrante vieram ocupar o espaço deixado vago por esses moradores que, por sua vez, descendiam de pessoas que substituíram outros residentes e por aí fora, até ao tempo da Olisipo romana. Sempre foi assim. As cidades, os países e todas as organizações humanas são realidades dinâmicas e não presépios vivos, por muito que isto irrite os nostálgicos de serviço, sempre ávidos de nos dizer como (e onde) devemos viver.

Há, claro, o argumento de que o turismo contribuiu para o êxodo, levando à subida das rendas, sobretudo desde a entrada em vigor da nova lei do arrendamento. Mas esse efeito faz-se sentir em toda a cidade. Para uma pessoa com poucos recursos, é hoje tão difícil arrendar casa em Alfama como nas Avenidas Novas ou em Alcântara. Porquê falar apenas das zonas históricas? E era preferível que tivessem rendas baixas mas permanecessem degradadas e ao abandono?

Outro argumento é o da descaraterização dos bairros pelos turistas. Mas isto faz tanto sentido como apontar o dedo aos imigrantes da Mouraria: nenhum. A descaraterização combate-se com planificação urbanística e preservação do património, não com uma pretensa seleção das pessoas que, de forma permanente ou temporária, vivem na cidade. Mesmo sorteando casas, ninguém trava a mudança.

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