A vergonha vista de longe

Uma sociedade que não aplica a Justiça, sobretudo não a aplica aos grandes roubos, é uma sociedade enferma, anestesiada pelos poderes ocultos, por partidos degradados.

Pelo meio dos seus tweets quase sempre profissionais, académicos, normalmente em língua inglesa, repletos de mapas, estatísticas, falando de reformas, orçamentos, crescimento, comércio e outros assuntos que é suposto interessarem ao até há pouco tempo economista-chefe da OCDE (agora responsável pelos estudos por país do departamento de economia da mesma organização), Álvaro Santos Pereira publicou esta semana um singelo desabafo de indignação na sua língua natal. Transcrevo: “Já passaram quatro anos desde que se desvendou a maior fraude financeira da nossa História. Quem foi preso? Quem foi responsabilizado? Também já passaram mais de sete anos após o País (e grande parte dos nossos bancos) ter ido à bancarrota. Quem foi preso? Quem foi responsabilizado?”

Tenho apreço por este ex-ministro da Economia. Vi como foi combatido, sem pudor, pelo lóbi da energia. Como, na sua condição de independente do governo de Passos Coelho, foi alvo de um boicote sistemático da estrutura do PSD.  Como foi objeto de pacóvia chacota por ter dado uma lição simples de economia global para todos a partir do pastel de nata. E reforcei esse apreço por já o ter encontrado em locais populares, como o Estádio de Alvalade, de cachecol, e nos Campos Elísios, em Paris, no dia do jogo em que Portugal ganhou o campeonato da Europa de futebol, então com outro cachecol de cor diferente e, de novo, com os filhos. Álvaro Santos Pereira sempre me pareceu o protótipo do cidadão completo e sem complexos, movendo-se com igual à vontade em todas as áreas da vida.

E, ainda assim, eu não esperava um tweet destes, tão simples, tão banal, tão desinteressado e tão corajoso.

Se tantos portugueses com responsabilidades, da política ao jornalismo, passam ao lado das coisas verdadeiramente importantes do seu País, não se parecendo importar com elas, assobiando para o lado, porque haveria um “estrangeirado”, que faz a vida lá por fora há tantos anos, do Canadá à Europa, viajando sempre pelo mundo, de partilhar uma reflexão deste calibre, que nos remete para a realidade do regime que temos?

Este é o ponto que Álvaro Santos Pereira nos propõe: refletirmos sobre a sociedade em que vivemos. Sobre o regime a que nos habituámos. Sobre a política que o faz. Sobre a Justiça que o deveria proteger. Sobre o jornalismo que deveria escrutiná-lo. Sobre a exigência que deveríamos saber ter. Sobre uma realidade que falha todos os dias diante dos nossos olhos, tão intensamente repetida que deixou de nos chocar; quanto mais envergonhar, como deveria.

É elucidativo que tenha de vir de longe o alerta para olharmos de forma crítica para situações simples: uma sociedade que não aplica a Justiça, sobretudo não a aplica aos grandes roubos, é uma sociedade enferma, anestesiada pelos poderes ocultos, pela irmandade dos interesses, por partidos degradados.

É aqui que entra o papel do jornalismo, no qual as suas franjas mais comprometidas julgam interessante promover debates tão angustiantes como saber qual a melhor plataforma para a divulgação do trabalho que produzem e não se inquietam por terem desertado da missão original: dar notícias, lembrar factos, investigar, escrutinar o poder. Neste caso concreto, do BPN ao BES, passando por mais uma das várias falências do Estado português amparada pela ajuda internacional, colocar a Justiça, e os partidos que há décadas a marginam, perante as suas responsabilidades no apuramento dos culpados. Não é normal, não pode ser, demorar tanto tempo a fazê-lo.

O jornalismo das coisas trend, colaboracionista, que se refugia em militâncias sociais várias para protestar alguma utilidade, é cúmplice deste regime em que vivemos e que se vê tão bem ao longe e, sobretudo, de longe. Obrigado, Álvaro.

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