Acidentes de trabalho e doenças matam 2,8 milhões no mundo

A Ásia, convertida na fábrica do mundo, lidera este panorama negro, mas nos países desenvolvidos, o stresse e o cancro fazem disparar alarmes.

O mundo do trabalho mudou. Homens e mulheres usam hoje mais tecnologias, mas também trabalham mais horas. Muitas das práticas modernas de trabalho, sobretudo nos países mais desenvolvidos, são sedentárias e carregadas de stresse, o que está a fazer disparar as chamadas doenças do progresso, uma parte do flagelo da mortandade relacionada com o trabalho.

Dados agregados revelados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam um aumento geral das mortes relacionadas com o trabalho, incluindo acidentes de trabalho fatais e doenças profissionais, o que fez disparar vários ‘alertas’. O número de vítimas mortais passou de 2,33 milhões em 2014 para 2,78 milhões em 2017. A maioria dos óbitos registada nesse ano, 2,4 milhões, ou seja 86,3% do total, foi por doença profissional. Desagregando um pouco mais, estima-se que, a nível mundial, morram 6.500 pessoas todos os dias em consequência disso.

A este panorama negro acrescem 374 milhões de trabalhadores vítimas de acidentes de trabalho não fatais. Os dados constam do relatório “A Segurança e Saúde no Trabalho no Centro do Futuro do Trabalho”, lançado pela OIT no Dia Mundial da Saúde e Segurança no Trabalho, que se assinala a 28 de abril em homenagem às vítimas e no âmbito da promoção de uma cultura de segurança e saúde como forma de ajudar a evitar a tragédia.

Aos riscos de segurança e saúde diretamente relacionados com o local de trabalho, que abundam sobretudo nos países menos desenvolvidos, e em muitos casos atentatórios da dignidade humana, juntam-se as doenças do progresso como o stresse relacionado com o trabalho e as doenças não transmissíveis. As doenças cardiovasculares lideram os óbitos com 31%, seguidas dos cancros relacionados com o trabalho (26%) e das doenças respiratórias, em terceiro lugar, com 17%. Em conjunto, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), citados no documento, estas três tipologias representam quase três quartos de todas as mortes relacionadas.

A mortalidade profissional não se distribui uniformemente pela geografia. O continente asiático, onde se localizam alguns dos países que são hoje a grande fábrica que alimenta o consumo mundial, domina com cerca de dois terços (65%) do total dos óbitos. O restante é repartido pela África (11,8%), Europa (11,7%), América (10,9% ) e Oceânia (0,6%).

De igual modo, há diferenças entre as regiões nas causas relativas da mortalidade profissional. Segundo o documento, os países desenvolvidos “aparentam ter uma maior proporção de mortalidade profissional devido a cancros”. Mais de 50%. Em contrapartida, é quase marginal o número de acidentes de trabalho e doenças infeciosas (menos de 5%). África apresenta o maior número de doenças profissionais transmissíveis (um terço) e de acidentes de trabalho (mais de 20%), registando a menor percentagem de cancros.

O documento “A Segurança e Saúde no Trabalho no Centro do Futuro do Trabalho” foca-se nos quatro principais fatores que operam transformações no mundo do trabalho: a tecnologia, a demografia, o desenvolvimento sustentável, incluindo as alterações climáticas, e as mudanças na organização do trabalho, contabilizando em 4% as perdas da economia global dela decorrentes.

“O mundo do trabalho mudou, estamos trabalhando de forma diferente, estamos trabalhando mais horas, estamos usando mais tecnologias. O relatório mostra que 36% dos trabalhadores estão em jornadas excessivamente longas de trabalho, de mais de 48 horas por semana”, explica Manal Azzi, especialista da OIT em segurança ocupacional, citada pelo site da ONU. As alterações nas relações laborais que moldam o nosso quotidiano no século XXI, obrigam a pensar novas soluções em matéria de prevenção para continuar a salvar vidas e tornam urgente a criação de ambientes de trabalho mais saudáveis. “É imperativo dar resposta a este problema global através do desenvolvimento de estratégias de prevenção eficazes”, afirma a OIT.

Apesar dos avanços de um século, novos tempos requerem novas soluções.

Artigo publicado na edição nº 1987 de 3 de maio, do Jornal Económico

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