Ações, moeda e ouro: como os mercados estão a reagir à demissão de May

Mercados reagem positivamente ao anúncio de demissão da primeira-ministra britânica, Theresa May. Tom moderado do discurso e perspetivas que uma nova liderança termine com a incerteza em torno do Brexit animam investidores, explicam analistas.

Christopher Furlong/REUTERS

O anúncio de demissão da primeira-ministra britânica não foi uma surpresa e a esperança de uma maior definição em torno do Brexit parece ter animado os investidores, que já centram atenções sobre quem irá suceder Theresa May na liderança dos destinos britânicos.

A maioria das praças europeias recuperaram depois de terem registado ligeiras perdas. O FTSE 100 valoriza 0,57% para 7.272,16 pontos, o DAX ganha 0,41% para 12.001,24 pontos, o CAC 40 ganha 0,56% para 5.310,71 pontos, o AEX sobe 0,59% para 546,94 pontos, o IBEX 35 ganha 0,71% para 9.178,35 pontos. Já o principal índice lisboeta valoriza 0,74% para 5.095,09 pontos.

“A Europa vai continuar à espera que o Reino Unido resolva os problemas internos que têm levado a atrasos sucessivos da sua saída da União Europeia e, até haver clareza na posição deste último, as praças europeias irão continuar a ignorar os desenvolvimentos da política interna do Reino Unido”, diz Mário Martins, analista da corretora ActivTrades.

No entanto, Carla Maia Santos, sales team da corretora XTB, considera que o mercado está a mostrar estar “contente com esta decisão e na esperança que a questão do Brexit se possa decidir agora mais rapidamente”. Para a analista “independentemente de o desfecho ser “saída” ou “não saída” da UE, pelo menos, que decidam e que o sucessor possa acelerar uma conclusão”.

Na corrida para 10 Downing Street, para já Pedro Amorim, analista da corretora britânica Infinox, destaca que “o mediático Boris Johnson é o favorito porque o seu papel no referendo Brexit de 2016 foi decisivo e ele é popular entre os ativistas”.

“Johnson não é adorado na Europa, onde é famoso por moldar o cinismo britânico em relação à UE durante os anos 90, e a eleição dele significaria uma quebra na confiança do investidor”, defende. “A primeira-ministra Theresa May conseguiu alienar todas as fações da política britânica com o objetivo de conseguir um Brexit com acordo. Recentemente, foi amplamente criticada no seu partido e pelos investidores, levando à queda do valor da libra para valores abaixo dos 1,2700 contra o dólar. Contribuiu para esta queda acentuada o receio dos investidores de um novo líder ainda mais extremista como o Boris Johnson”.

Libra beneficia com anúncio

A incerteza política no Reino Unido tem vindo a penalizar a moeda britânica nos últimos meses, mas a libra reagiu em alta ao anúncio de Theresa May. “Este desfeito já se esperava pelos analistas, mas o discurso moderado de Theresa May desta manhã levaram a que as bolsas reagissem em alta e a libra da mesma forma. Se ela tivesse dito que não de demitia a libra continuaria a cair porque já se conseguiu perceber que o plano dela não iria vingar”, explica Pedro Amorim.

Para Carla Maia Santos os investidores estão otimistas com a possibilidade que o sucessor de May concretize o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia mais rapidamente. “A demissão de May, apesar de ser um factor de indefinição política, poderá trazer um sucessor que defina mais rapidamente a questão do Brexit, podendo assim esta reagir em alta em formato de correção altista, mas a tendência principal continua baixista”, refere.

No entanto, Pedro Amorim alerta que a possibilidade de “discursos mais agressivos de Boris Johnson” no âmbito da campanha se irá refletir num aumento da volatilidade do mercado.

A libra esterlina valoriza 0,33% face ao dólar, para 1,296.

Ouro perde terreno como ativo refúgio

“Neste momento, o ouro está a negociar numa zona de resistência de curto prazo. Mesmo perante um pequeno aumento do risco de uma saída desordenada do Reino Unido da União Europeia, a ligeira pressão compradora que se sente não é suficiente para quebrar esta barreira”, refere Mário Martins, analista da ActivTrades.

Apesar de ser tradicionalmente negociado como ativo refúgio nos mercados financeiros, “não se tem notado esse efeito de forma evidente” nos últimos anos, realça Pedro Amorim. O analista da Infinox realça que “devido ao volume de transações ser cada vez menor e também devido à força do dólar em relação às outras moedas do mundo”.

“Neste momento os investidores estão a refugiar-se em outros ativos como o dólar e iéne, usando as obrigações do tesouro norte-americanas e os títulos de divida do Japão e pela ótica dos analistas podem ainda ter um impulso ainda maior”, antecipa. “O franco suíço também pode ser um ativo de refúgio e provavelmente terá um bom desempenho em relação ao euro e aos ativos com mais risco. No entanto, o franco suiço pode não se sair tão bem contra os seus pares anti-risco”.

No entanto, Carla Maia Santos, sales team leader da XTB, considera que cruzar eventos como o Brexit e a guerra comercial entre a China e os EUA poderá refletir-se na avaliação do ouro. “A nível técnico, o ouro reagiu ontem em alta na zona de suporte dos 1271, podendo esta tendência continuar para a próxima semana”, explica.

O ouro perde 0,14% para 1.283,55.

[Cotações retiradas às 15h45]

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