Afinal não havia células do Daesh na Chamusca

A hipótese levantada há um ano atrás é no mínimo descabida e inverosímil. Quem a promoveu sempre soube disso, mas mesmo assim não se inibiu em a propalar. Porquê?

O tema das notícias falsas está na ordem do dia. O tema tem tido eco na comunicação social portuguesa. Sítios na internet que publicam intencional e deliberadamente notícias falsas atraem multidões de seguidores. Apresentam-se como órgãos da comunicação social sérios e responsáveis, mas o seu objetivo deliberado é o de enganar e manipular.

A desinformação tornou-se um negócio lucrativo, assim como uma arma política perigosa. A dimensão da audiência e os estragos que produzem não são despiciendos. Especialistas treinados podem aperceber-se das falácias, o que não acontece com a maioria dos leitores.

Sempre houve exercícios de manipulação da opinião pública recorrendo à tecnologia existente no momento. Há 20 anos utilizavam-se faxes, aos quais se associavam bases de dados com nomes criteriosamente escolhidos, que funcionavam como possíveis multiplicadores das mensagens recebidas. Os decisores políticos eram frequentemente alvos destas práticas. Não havia a preocupação de verificar a qualidade da informação, em termos das fontes e da sua verosimilhança. O importante era fazê-la circular rapidamente e atingir com oportunidade os alvos pretendidos.

A internet veio “apenas” ampliar o efeito daquilo que sempre se fez, fazendo-o melhor e mais rapidamente. Na prática falamos de algo que se assemelha muito a operações psicológicas, dependendo da forma mais ou menos intencional e competente como são feitas. Em qualquer dos casos são atos deploráveis que têm convivido com as democracias liberais, e que se tornam mais difíceis de combater com as novas tecnologias da informação.

O furto do equipamento militar dos paióis de Tancos é um estudo de caso interessante de manipulação bem sucedida da opinião pública. Influenciar atitudes, comportamentos e perceções da audiência para credibilizar uma hipótese. Através de mensagens cuidadosamente veiculadas, a hipótese transformou-se, desde o primeiro instante, numa tese… irrefutável. A duas cores – preto e branco – como convém, para não ter de se pensar muito.

Ficou evidente desde o início aquilo que em linguagem especializada se denomina por “moldar atitudes e comportamentos”, mas desta feita não executada através de sítios na internet desconhecidos ou empresas de Relações Públicas, mas sim por órgãos de comunicação social (OCS) de elevada reputação. Dada a confiança que as pessoas neles colocam, aumentam a credibilidade e o efeito das mensagens.

Indo a factos. Foi amplamente escrito que os assaltantes seriam mercenários portugueses que atuavam ao serviço de “senhores da guerra” no norte de África, no Médio Oriente e em vários pontos do globo; que estariam em contacto com milícias do norte de África, com grupos separatistas da Córsega, em França, e também com máfias europeias ligadas ao assalto de bancos e carrinhas de transporte de valores; e que estariam envolvidos em esquemas de tráfico de armas. O despacho da PGR apontava para suspeitas de tráfico de armas internacional e terrorismo internacional.

Os assaltantes teriam sido contactados por uma organização do crime internacional que lhes encomendou o material furtado. Foi ainda manifestado ser esta uma das principais suspeitas seguidas na investigação ao furto do armamento militar (insiste-se, não ingenuamente tratar-se de armamento, o qual não se armazena em paióis, mas nos quartéis). Outro OCS igualmente proeminente publicou um alegado relatório de informações produzido por uma das secretas. Demonstrou-se, posteriormente, tratar-se de um documento forjado.

Apesar de ser hoje claro que os assaltantes não passavam de um grupo paroquial, sem ligações ao crime organizado internacional, continua a prevalecer a ideia/hipótese original (falaciosa). O mesmo se pode dizer relativamente às putativas ligações do grupo com o terrorismo transnacional. Ninguém encomendou aos assaltantes fosse o que fosse. Quando se aperceberam onde se tinham metido pensaram imediatamente em desfazer-se do material.

A hipótese levantada há um ano atrás é no mínimo descabida e inverosímil. Quem a promoveu sempre soube disso, mas mesmo assim não se inibiu em a propalar. Porquê? Porque fazia parte do plano “amaciar” e “moldar” as perceções, visando preparar a opinião pública para a bernarda antecipadamente preparada. Até o Presidente da República teve de vir a terreiro. Onde é que isto vai acabar? Ainda não sabemos. Uma coisa é certa, a premissa fundamental em que se baseava a trama não tem pés nem cabeça, e já caiu estrondosamente por terra.

Esperamos com muita expectativa pelas evidências da ligação do grupo ao tráfico de armas internacional e terrorismo internacional. Caso não se consiga demonstrar essa ligação alguém terá de vir a terreiro explicar porque a fez. Está mais do que na hora. Esperamos por um ato de contrição, se for caso disso.

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