A Altice quer ter uma oferta de conteúdos exclusiva para os subscritores dos seus serviços de telecomunicações, porque considera ser essa a chave para a conquista e fidelização de clientes. Mas mantém a distribuição de canais de televisão generalistas e noticiosos também fora das suas plataformas, para alargar o mercado e fazer crescer o negócio.
Estas ideias são concretizadas em França, onde a divisão de media da operadora de telecomunicações Altice tem estações de televisão, estações de rádio e imprensa, empregando cerca de 1.200 pessoas. E serão postas em prática em Portugal, se se concretizara a aquisição da Media Capital.
Num encontro com jornalistas portugueses, em Paris, o presidente executivo da Altice Media, Alain Weill, defendeu a ideia da empresa de convergência entre media e telecomunicações, com o valor que os conteúdos de media vêm acrescentar ao negócio das telecomunicações.
“A convergência é boa para dar estabilidade à base de subscritores das telecomunicações, reduzindo o churn [taxa de clientes que trocam um fornecedor de serviços por outro]”, defendeu.
“A convergência é boa para aumentar o ARPU [receita média por cliente]” e é “uma boa forma de acrescentar margem ao negócios das telecomunicações, porque se junta a esta a margem do media”, acrescentou.
Ao contrário, o apoio da empresa de telecomunicações permite um maior investimento no desenvolvimento do negócio de media.
Em 2015, o grupo NextRadioTV, fundado por Alain Weill, foi adquirido pela Altice, num negócio de cerca de 600 milhões de euros. Integrava o canal líder do mercado de informação (BFM), um canal de informação económica (BFM Business) e duas estações de rádio (sendo uma a reconhecida Radio Monte Carlo), entre outros ativos de menor expressão.
Desde esta altura, foram lançados 7 novos canais de televisão: cinco canais de desporto, no quadro da operadora de telecomunicações SFR, detida pela Altice, e na lógica de oferecer conteúdos diferenciadores aos subscritores; o canal BFM Decouverte, criado na linha do canal norte-americano Discovery, mas que já investe 72% da receita em conteúdos próprios; e o BFM Paris, a primeira operação de televisão regional do grupo.
Estes novos projectos tiveram um impacto de 20 milhões de euros nas contas do grupo, mas Alain Weill ressalva que os resultados estão a subir: “Em três anos, até 2019, os resultados aumentam 100%”, diz. “Foram criados 200 novos postos de trabalho”, afiança.
Em Portugal, Weill diz que querem fazer o mesmo, porque a operação francesa serve de exemplo. “França é um laboratório. O que fizemos aqui acontecerá em Portugal”, afirma.
Novos canais para Portugal
A Altice controla a operadora de telecomunicações PT Portugal (Meo), que anunciou, a 14 de julho, um acordo com a espanhola Prisa para a compra da Media Capital, numa operação avaliada em 440 milhões de euros.
A operação motivou críticas dos concorrentes do sector das telecomunicações, Nos e Vodafone, mas também do sector da comunicação social, a Impresa.
O negócio está a ser analisado pela Autoridade da Concorrência (AdC), mas já foi objeto de um parecer negativo da Anacom – Autoridade Nacional de Comunicações e de um polémico parecer inconclusivo e não vinculativo da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo sido noticiado uma posição negativa dos serviços quanto á operação, mas que não foi comungada pelos três membros da entidade, que não conseguiram chegar a consenso.
Alain Weill diz acreditar que a operação será positiva para todos e que o objetivo é acelerar o desenvolvimento da empresa portuguesa de media.
“Queremos ter a possibilidade de desenvolvermos novos canais com a Media Capital”, diz.
O Jornal Económico noticiou já a intenção que a Altice tem de criar canais regionais em Lisboa e no Porto. Em Paris, Hervé Béroud, responsável pelos canais de televisão BFM e BFM Paris, afirmou que o próximo passo do grupo será a criação de canais regionais, nas principais cidades francesas. Inicialmente, serão 5; o projeto em discussão aponta se chegar a 10, em cidades como Lyon, Marselha, Lille, Bordéus, Nice, Montpellier ou Estrasburgo. Serão contratadas 150 pessoas.
Será um projeto “muito disruptivo, inovador, um mix entre digital e TV linear e não linear”, explicou Alain Weill.
Falando, ainda, sobre Portugal sobre Portugal, o líder da Altice Media voltou a dizer que a plataforma da Meo estará aberta a conteúdos de outros e que a TVI nunca será um conteúdo exclusivo de uma operadora, pelo contrário, sublinhou, de novo, a ideia de fazer migrar o canal de notícias TVI24 para a plataforma da televisão digital terrestre (TDT), transformando-o num canal em sinal aberto.

