Apelo de Paris: ”As empresas tecnológicas não estão preparadas”

Presidente Macron lançou o manifesto ”Apelo de Paris para Confiança e Segurança no Espaço Cibernético’ no sentido de prevenir e proteger o ciberespaço de potenciais ameaças. Em conversa com o JE, a Focus2Comply declara que ”isto trata-se de uma diplomacia que abrirá portas para outras iniciativas. Agora, cabe agora aos ‘stakeholders’ que subscreveram a este documento fazer um trabalho paralelo e complementar, seja a nível local e a nível internacional”.

O Presidente Macron lançou o manifesto ”Apelo de Paris para Confiança e Segurança no Espaço Cibernético” (‘Paris Call for Trust and Security in Cyberspace’, em inglês) para a confiança e a segurança no ciberespaço por ocasião da reunião da UNESCO do Fórum sobre Governança da Internet (FGI), a 12 de Novembro.

Esta declaração de alto nível em prol da elaboração de princípios comuns para a protecção do ciberespaço já recebeu o apoio de numerosos Estados, mas também de empresas privadas e de organizações da sociedade civil.

Ao lançar a iniciativa um dia depois de um fim de semana de comemorações do 100º aniversário da Primeira Guerra Mundial, Macron espera promover as suas políticas por uma cooperação global mais forte face ao nacionalismo crescente. Com isto, o Chefe de estado francês antecipa obter uma melhor qualidade na proteção de dados depois da última ronda de negociações das Nações Unidas de 2017.

Numa entrevista ao Jornal Económico, a Focus2Comply, uma empresa nascida em 2015 e cujo objetivo é um de manter um posicionamento na área de consultoria, governação e gestão de segurança tecnológica, subscreve e vinca a importância deste acordo, não só para Portugal como também a nível global.

Quando questionado sobre que benefícios este acordo trará para Portugal, Luís Lobo e Silva, Managing Partner desta empresa, salienta que perante acordos semelhantes, não se deve olhar para os ”interesses geopolíticos de cada país e o interveniente político e privado”.

”Acima de tudo – e falando um pouco na questão da internacionalização [do programa Portugal2020], e também dado a posição de Portugal nos dias que correm – não podemos olhar para este acordo a pensar quais serão os benefícios para Portugal. Portugal é importante, mas não está sozinho”, explica. ”O Apelo de Paris é mais um passo diplomático porque foca-se muito na questão da segurança no ciberespaço. A mensagem está na preservação e no respeito da vida humana no mundo digital, e isso afeta todas as nações. Já passamos por guerras do passado, e agora vivemos uma guerra digital e a soberania de qualquer país pode ser afetada, daí as necessidades de normas internacionais como esta”, conclui.

O managing parter da empresa sublinha o papel das normas europeias e internacionais e como estas podem preservar e prevenir o modelo das infrastuturas críticas em cada país, ”a banca, a administração pública, os governos, as empresas de commodity, as empresas de electricidade e gás- todas essas empresas são alvo do ponto de vista digital, e através da internet acabam por pôr em causa a soberania de um estado”.

Os signatários do Apelo de Paris, Portugal inclusive, comprometem-se a trabalhar conjuntamente para aumentar a prevenção e a resiliência face às actividades maliciosas online, reforçar as normas internacionais pertinentes e cooperar para impedir as interferências nos processos eleitorais. Ao todo são nove pontos neste plano de ação.

Os EUA, o Brasil e a Venezuela, três nações que já foram alvos de ataques cibernéticos ( incluíndo a divulgação de fake news) durante as eleições, opuseram-se a subscrever ao tratado. Aliando-se ao grupo da oposição, junta-se a Rússia, o Irão, Israel e China.

No entanto, algumas gigantes tecnológicas norte-americanas apoiam a causa. A Microsoft revelou ter trabalhado em estreita colaboração com o governo francês para criar o Apelo de Paris, um sinal de como as empresas de tecnologia estão a desempenhar um papel mais ativo em governar a internet do que o próprio governo norte-americano.

Para as empresas tecnológicas portuguesas e da cibersegurança, este acordo é visto como um desafio aos olhos do fundador da Focus2Comply, apesar de acreditar que Portugal ”já tem alguns meios de prevenção de cibersegurança, até na área militar estamos bastante envolvidos. Entre entidades militares e entidades públicas e privadas há uma forte colaboração”, explica.

Contudo, ”as empresas tecnológicas não estão preparadas. A Focus2Comply, e as empresas do setor, acreditam que devemos regular as tecnologias existentes porque existem muitas lacunas, quer em Portugal, quer a nível Europeu. Há um espaço de evolução muito grande do ponto de vista da legislação e da regulação”, conclui.

”No fundo, isto trata-se de uma diplomacia que abrirá portas para outras iniciativas. Cabe agora aos stakeholders que subscreveram a este documento e aos que ainda vão subscrever, fazer um trabalho paralelo e complementar, seja a nível local de cada um dos países, seja a nível internacional”.

Luís Lobo e Silva acredita que este documento só trará bons resultados, sendo que criará novas oportunidades e modelos de negócio em Portugal. ”O ‘Paris Call’ trás uma redundância necessária do ponto de vista internacional. Para nós, é importante termos um enquadramento europeu e cada vez mais internacional, onde negociamos e temos relações privilegiadas com países fora da Europa. Depois de auxiliar na componente diplomática, é necessário criar iniciativas privadas, mas com participação pública. Participação numa ótica de observadores e de conselheiros no sentido de fazer algo mais concreto. O Estados ainda não conseguem fazer isso. Os Estados devem regular, legislar, acompanhar, monitorizar, mas não devem operar. Cabe ao setor privado criar essas condições”, remata.

Num universo onde as redes sociais e as fake news nos perseguem, o tratado seria como uma vacina de prevenção para um futuro para um espaço digital mais seguro. Aos olhos do dirigente da empresa, serviria como um método de filtrar informações e evitar influências negativas sobre o público geral, ”vivemos muito nas redes sociais e na internet, e estamos situados no grande mapa das fake news. Agora começa a ser regulado porque acaba por afetar direta e indirectamente a realidade de situações pois ‘desvirtualiza’ a realidade. O ”Paris Call” vem controlar isso, as falsas influências. Antigamente não havia um ciberespaço, havia uma ditadura e havia a censura. Atualmente, não nos podemos dar ao luxo de fazer censura, mas sim, de controlar as más influências sobre as pessoas e a ideia formada que elas têm”.

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