Abdelaziz Bouteflika, o ex-presidente argelino que renunciou ao cargo em abril passado depois de uma onda de protestos por estar a pensar, aos 81 anos, recandidatar-se a um sexto mandato, é de algum modo a imagem de um país que ficou enquistado no tempo e que não fez tudo para desenvolver a sociedade e a economia.
Mas nem todos os desenvolvimentos são bem aceites. A polémica mais recente tem a ver com a possibilidade de a Argélia decidir substituir, nas escolas, o ensino do francês pelo do inglês. Recordando-se que o país fez parte das possessões ultramarinas de França até à dramática guerra da independência, que culminou com a vitória argelina em 1962, o assunto está a motivar forte debate, com os dois lados a esgrimirem apaixonados argumentos.
Tudo começou quando, já este mês, o ministro de Educação Superior e Investigação, Bouzid Tayeb, anunciou que estava a trabalhar “para colocar em prática os mecanismos necessários para consolidar o uso do inglês na universidade e na investigação” – algo que poderia ser considerado razoavelmente pacífico, uma vez que o inglês é de facto a língua universal da investigação, se não tivesse acrescentado que “o francês não leva a lugar nenhum”.
“Na Argélia, a escola é em árabe, mas o francês continua a ser a linguagem do ensino superior em disciplinas científicas e técnicas”, e isso parece não fazer sentido para o atual detentor da pasta da educação superior.
Dias mais tarde, Bouzid Tayeb ordenou que as faculdades argelinas usassem apenas o árabe e o inglês nos cabeçalhos da correspondência e dos documentos oficiais, um gesto apresentado como o primeiro passo da substituição do francês pelo inglês na educação.
“A agitação em torno desta questão está ligada a uma situação política tensa, mas também a uma posição pessoal do atual ministro. Pertence a esse grupo de académicos que defendem o inglês como língua estrangeira dominante no sistema educacional argelino”, disse a professora universitária Khaoula Taleb Ibrahimi, citado pelo jornal ‘Le Monde’.
Diretora do gabinete de Linguística, Sociolinguística e Didática das Línguas da Universidade de Argel II, a docente lembrou que, desde a independência, há uma verdadeira guerra de posições entre os que querem que o país se exprima unicamente em árabe, e os que consideram que o francês deve ser uma espécie de segunda língua, quase tão oficial como o árabe.
Desde a década de 1970, recorda Khaoula Taleb Ibrahimi, as campanhas de ‘arabização’ da educação moldaram as políticas educacionais, mas a partir de 2000 os primeiros mandatos de Abdelaziz Bouteflika foram marcados por uma reconsiliação com a língua francesa, que passou a sr ensinada a partir do terceiro ano do ensino primário.
“A comunidade universitária não foi consultada. Além disso, a ilegitimidade do atual governo lança suspeitas sobre a decisão”, diz a investigadora. Mas pelo menos uma coisa parece certa: se o inglês vencer o francês na Argélia, a polémica entre o francês e o árabe terá a sua morte natural!
