Ásia e sustentabilidade: as lentes dos investidores em 2030, segundo a Allianz Global Investors

O “Investment Fórum 2019” da gestora de investimentos do grupo alemão Allianz, que se realizou em Frankfurt, concluiu ainda que a probabilidade de a guerra comercial continuar é significativa.

O “Investment Fórum 2019” da Allianz Global Investors (GI), que se realizou em Frankfurt, pôs em cima da mesa alguns tópicos que estão a influenciar os investimentos: alterações climáticas, perspetivas para a Europa, outlook macro e expectativas de retorno a longo prazo.

Ao longo de três horas, os responsáveis da gestora de ativos procuraram responder à seguinte questão: à medida que se caminha para uma nova fase da economia, o que devem fazer os investidores?

Há sobretudo quatro conclusões a retirar das diferentes intervenções: a Ásia irá contribuir com mais de 50% para o crescimento económico global até 2030 – ao ponto de que China, Índia e Indonésia tornar-se-ão a primeira, segunda e quartas maiores economias do mundo, respetivamente

Os fatores ambientais, sociais e de governance (ESG, na sigla inglesa) estarão ainda mais integrados nas estratégias de investimento das empresas, a probabilidade de a guerra comercial continuar é elevada e existem motivos para olhar para a Europa de forma mais otimista, sem os fantasmas do Brexit e dos populismos.

“A agenda deste fórum reflete um mundo incerto e em mudança, cheio de riscos para navegar – das convulsões políticas às mudanças climáticas. Enquanto investidor ativo, continuaremos a trabalhar de forma árdua para tornar a nossa proposta emocionalmente atraente para os clientes finais, concentrando-nos em tópicos que sabemos que são realmente significativos para eles, tais como o investimento temático e o sustentável”, referiu o CEO, Andreas Utermann.

O diretor executivo da Allianz GI frisou que uma ativa gestão de ativos está correlacionada com a maneira como se ligam aos stakeholders, pelo que tornou-se importante haver maior foco no conteúdo da comunicação, tornar o técnico inteligível e haver uma discussão de preços e taxas base clara.

Os especialistas dizem que o risco de recessão tem aumentado, e se a deterioração continuar as condições económicas vão assemelhar-se àquilo que foi visto em recessões passadas. Além disso, as taxas de juro não serão tão baixas muito durante mais tempo e a volatilidade está a tornar os retornos mais difíceis, por isso torna-se necessário que empresas e investidores particulares desenhem um novo roadmap.

Ambiente macroeconómico (global e regional) – maio 2019

Fonte: Allianz GI, Bloomberg, UBS, Consensus Economics

 

Sobre a guerra comercial entre os Estados Unidos da América (EUA) e a China, a generalidade das fontes ouvidas pela Allianz GI acredita que “vai continuar connosco por mais um tempo”. Ou seja, ou há acordo nos próximos tempos entre Pequim e Washington – o que poderá acontecer no final deste mês, à margem da cimeira do G20 – ou o conflito mantém-se.

Para a Allianz GI, existem três cenários possíveis: um “bull-case” (com 15% de probabilidade) em que as negociações são bem-sucedidas e o aumento das taxas aduaneiras é cancelado, um “base-case” (45%) em que há um acordo parcial mas as tarifas continuam como uma arma guardada e um “bear-case” (40%), no qual as duas potências não chegam a um consenso e as tarifas impactam negativamente ambas economias.

No entanto, Jeffrey Parker, Chief Investment Officer (CIO) nos EUA, não acha que a guerra comercial vá perdurar, como perspetivam os demais. “Donald Trump preocupa-se demasiado com as sondagens e com a sua reeleição. Vai desistir quando sentir que está a ter um impacto na economia que possa por em causa a sua reeleição”, argumentou.

Este foi um dos motes para uma «conversa de café» entre um trio de CIO da Allianz GI: da Europa (Joerg de Vries-Hippen), dos Estados Unidos (Jeffrey Parker) e da China (Raymond Chan). Os três porta-vozes das regiões defenderam-nas com unhas e dentes.

A Europa enfrenta quatro problemas principais: relações geopolíticas (particularmente com a Rússia, Turquia e Síria); questões económicas e financeiras relativas ao estado de bem-estar social e laboral e à zona euro; desafio da diversidade, migração e refugiados e identidade e valores europeus.

Contudo, na opinião de Joerg de Vries-Hippen, “a Europa é algo pelo qual temos de lutar”. “A Europa não são só números. É um sentimento, que precisa de ser mais positivo. Podem dizer que a Europa é lenta, mas algo no qual os Estados Unidos e China não podem competir: ESG”, diz.

Jeffrey Parker, em nome dos EUA, lembrou que o país tem a maior percentagem de millennials na população ativa, e tem sabido tirar partido dela. Ainda assim, Raymond Chan contrapôs, representando a Ásia, e garantindo que este é o continente “para estar daqui a 30 anos”. “Aconselho-vos a olhar para mercados emergentes, sobretudo asiáticos. A China vai tornar-se numa classe única de ativos. Vai ser a classe de ativos chave”, disse.

Comparação de bond yields (%) *nas respetivas moedas locais

Fonte: Allianz GI, JP Morgan, Bloomberg

 

O futuro do investimento sustentável

A Allianz GI, com base nas opiniões e dados científicos recolhidos, defende ainda que os fatores ‘ESG’ vão-se tornar “o novo normal”, mas aconselha os investidores a estarem cientes das suas complexidades e do chamado “greenwashing” (utilizar a ecologia e o ambientalismo para propósitos comerciais, exclusivamente de marca). O truque é olhar para as oportunidades e para os riscos da sustentabilidade em todas as indústrias, não apenas na mineira ou utilites, por exemplo.

“Descarbonizar o portefólio é fácil, mas isso não ajuda a atingir a descarbonização do mundo real”, alertaram. “O investimento em ESG juntará uma camada de complexidade aos investidores, o que tornará a pesquisa holística mais importante”, defendeu Ali Masarwah, da Mornigstar. “Sempre que um cliente quiser comprar um fundo o advisor vai perguntar quais são as preferências de ESG”, sublinhou.

Segundo Christoph Berger, responsável pela equipa de Equity da Allianz GI na Alemanha, mesmo antes de 2030, os ESG serão totalmente integrados nas principais estratégias de investimento das empresas essencialmente por causa da regulamentação, aumento da procura e “motivação intrínseca” dos profissionais de investimento.

O Jornal Económico viajou para Frankfurt a convite da Allianz GlobaI Investors

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