Bastonário dos Médicos avisa que “medicina de catástrofe já está a ser feita”

“Este é o testemunho dos médicos e de outros profissionais de saúde sobre o que está a acontecer no terreno”, disse Miguel Guimarães aos partidos.

Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, sublinhou na audição no Parlamento que “existem hospitais do país em que a medicina de catástrofe já está a ser feita”. “Este é o testemunho dos médicos e de outros profissionais de saúde sobre o que está a acontecer no terreno”, disse Miguel Guimarães aos partidos.

“Ambulâncias à porta com doentes graves que não têm espaço para entrar, falta de profissionais de saúde para ver mais doentes ao mesmo tempo porque é impossível um médico estar a ver três e quatro doentes ao mesmo tempo, têm de se tomar decisões sobre internamentos, tomar decisões sobre cuidados intensivos, visto existirem mais de 700 doentes Covid nestas alas, porque cuidados intensivos não são só para doentes Covid, e há decisões a serem feitas relativamente a tratamentos alternativos aos ventiladores”, realçou o bastonário da Ordem dos Médicos.

Segundo Miguel Guimarães, a ministra da Saúde “devia falar mais com os profissionais de saúde que estão no terreno”, uma vez que são eles os primeiros na linha da frente, em vez de falar apenas com os presidentes dos Conselhos de Administração dos hospitais.

Questionado sobre os hospitais de campanha, o bastonário defendeu que estes não são iguais aos hospitais instalados. “Hospital de campanha pode servir para tratar alguns doentes com doenças menos graves, pode servir para ter doentes que não podem estar em casa e serem seguidos em termos de acompanhamentos”, explicou, acrescentando que estes hospitais “não têm capacidade para cuidados intensivos”.

Miguel Guimarães adiantou ainda na audição que os recursos em cuidados intensivos são “escassos” e que é “difícil deslocar médicos de onde eles são precisos”, nomeadamente os de medicina intensiva. “Os hospitais já estão a internar apenas os doentes mais graves”, defendeu, notando uma diferença entre as pessoas que foram infetados no início do ano passado e agora.

Face ao aumento de casos, o bastonário dos Médicos disse que “não é momento de tentar encontrar responsáveis” porque “não avaliámos bem a situação”. “Tivemos um confinamento muito alargado e pouco restritivo. Na prática, tínhamos tudo aberta e a infeção foi continuando a crescer, portanto não foi só a questão do Natal”, explicou, adiantando que “o Natal teve um impacto importante” e que “podiam ter sido tomadas mais medidas”.

O bastonário da Ordem dos Médicos acrescentou que a forma como se comunica a situação com as pessoas “é uma matéria absolutamente essencial”. “Se transmitirmos às pessoas que está tudo bem, que não falta capital humano, damos a sensação de que está tudo controlado. Não podemos gerar o medo nas pessoas mas temos de dizer a verdade, a verdade influencia os portugueses a cumprirem”.

“Na primeira fase da pandemia, os cidadãos portugueses viram o que estava a acontecerem em Espanha e Itália, e deram uma resposta brilhante e fizeram, na altura, de Portugal um exemplo para a Europa e não devemos ter um discurso que não diga a verdade. Combate não depende só do Governo e dos profissionais de saúde, mas depende de todos os cidadãos”, sustentou.

Face ao encerramento das escolas decretado esta quinta-feira, Miguel Guimarães apoia e diz que “é uma boa medida e já devia ter acontecido há mais tempo”. “A cada dia que passa, com as escolas abertas, maior é a transmissibilidade na infeção” e que existem vários estudos que comportam isto.

“O nível de jovens infetados, entre os 12 e os 24 anos, é hoje muito elevado e isso significa que eles se podem infetar na escola mas depois levam a infeção para casa, infetam pais e avós, é um ciclo que nunca mais termina e depois há um descontrolo da situação”, disse Miguel Guimarães.

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