Brexit: próxima batalha passa pelos ‘traidores’

Tanto os Conservadores como os Trabalhistas estão a fazer tudo para angariar parlamentares do partido contrário que possam estar interessados em alinhar com o partido a que não pertencem. No Reino Unido, chamam-se ‘rebeldes’.

Os próximos passos do Brexit passam por aquilo a que na gíria política poderia chamar-se traidores: de um lado, o primeiro-ministro Boris Johnson está a tentar alargar o grupo de Trabalhistas rebeldes (é este o termo que a imprensa britânica usa, em vez de ‘traidores’) que já arregimentou oito deputados às hostes dos Conservadores; do outro lado está Jeremy Corbyn, líder dos Trabalhistas, que tenta aliciar os unionistas irlandeses (DUP, que até há uns meses apoiavam os Conservadores sem reservas) e o maior número possível de Conservadores (já assegurou os votos de três) a manterem-se com os Trabalhistas.

Esta verdadeira contagem de espingardas tem em vista o próximo debate na Câmara dos Comuns, que tem a ver com a votação das leis que devem acompanhar o Brexit – matéria que levou a que, no passado (super) sábado o Parlamento não tenha sequer chegado a votar o acordo quer Jonhson trouxera de Bruxelas umas horas antes.

Segundo tenta explicar a imprensa britânica, o que Corbyn pretende é conseguir uma maioria suficiente para ‘dinamitar’ o acordo de Boris Johnson, o que poderia ser conseguido por duas formas: conseguir, nesta fase de ‘construção’ da legislação para o Brexit, que o Parlamento impusesse ao governo a negociação de um acordo aduaneiro de largo espectro com a União Europeia (no fundo, seria manter a União Aduaneira); ou, pior ainda (na ótica do executivo de Johnson), conseguir o condicionamento do Brexit a um novo referendo.

Jeremy Corbyn já disse publicamente que está em fase de ‘aliciamento’ dos possíveis rebeldes conservadores – numa altura em que ninguém consegue de facto dizer para que lado de poderia virar o DUP em matéria de novas votações no Parlamento.

A hipótese de Corbyn vir a conseguir atingir os seus intentos cresceu ontem, quando o primeiro-ministro não conseguiu impor uma votação sobre o acordo – o que não foi votado no sábado – depois de se defrontar com a oposição do ‘speaker’ da Câmara, John Bercow.

Entretanto, do lado de cá do Canal da Mancha, A Comissão Europeia assiste estarrecida a mais uma luta de procedimentos, emendas, adendas e outros procedimentos parlamentares na Câmara dos Comuns – que na prática resulta na incapacidade de o Reino Unido clarificar de que forma vai solucionar um problema que o país criou e para o qual, visivelmente, não estava preparado.

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