Brexit: saída sem acordo é praticamente inevitável

Saída de Theresa May da chefia do governo britânico e da frente de negociações do Brexit mudará alguma coisa? Aparentemente não, até porque o seu sucessor só pode ser da linha dura dos conservadores. E Bruxelas já não quer saber do assunto para nada.

Toby Melville/Reuters

Independentemente do nome que vier a ser eleito como o próximo líder do Partido Conservador britânico e, por ‘osmose’, da chefia do governo de Sua Majestade, esse alguém terá um ‘caderno de encargos’ muito claro e, tudo indica, uma morte política súbita no final da legislatura, em 2022 – caso se dê o caso de os britânicos encontrarem forma de manter o atual quadro de caos político até ao limite dos cinco anos previstos, a contar desde o desastre eleitoral de Theresa May em junho de 2017.

Esse caderno de encargos, como disse ao Jornal Económico o embaixador e analista político Francisco Seixas da Costa, praticamente só tem um item: “Os candidatos vão ter que apresentar uma espécie de programa muito claro e sem ambiguidades sobre o Brexit.” E essa clareza tem de ser exequível – ou seja, tem de tomar em consideração as linhas vermelhas que a União Europeia traçou entre os dois lados das negociações. E ‘linhas vermelhas’ é tudo o que foi acordado com Theresa May, que é o mesmo que dizer que, do lado da União Europeia, não há qualquer abertura para mais negociações.

Como disse Seixas da Costa, não há margem para que qualquer um dos muitos candidatos “diga coisas do género de que vai abrir novas negociações com Bruxelas”. Estará a mentir, pelo simples facto de que do lado de Bruxelas não haverá ninguém disposto a discutir o que quer que seja.

“Isso vai limitar a margem de manobra para qualquer negociação futura com a União Europeia”, disse Seixas da Costa, recordando que a opção Theresa May era, de algum modo, a que melhor servia os interesses britânicos. O novo primeiro-ministro terá, nesse quadro, trabalho a dobrar: será uma espécie de ‘desconhecido’ em Bruxelas, que demonstrará não ter qualquer interesse em vir a conhecê-lo.

Dito de outra forma: o Brexit sem acordo é, neste momento, praticamente inevitável. “A capacidade de entendimento do Reino Unido com a União não foi minimamente aumentada com a saída Senhora May. Pelo contrário. Vamos assistir a um tempo de dificuldade por parte do Reino Unido ainda maior que o que acontecia com Theresa May. O Brexit é, mais do que nunca, irreversível”.

Para Seixas da Costa “não há quaisquer condições para a realização de um segundo referendo sobre o Brexit” – a haver um referendo, seria quanto muito sobre um qualquer plano de saída e nunca um segundo referendo sobre o Brexit. A confusão entre um e outro tem alimentado, aliás, infundadas esperanças do lado continental do Canal da Mancha, com muitos europeus a acharem que um segundo referendo recolocaria a pergunta ‘sim’ ou ‘não’ à Europa, quando isso nunca esteve em cima da mesa.

Por outro lado, tudo leva a crer que o próximo líder dos conservadores, seja ele (ou ela) quem for, será um ‘Brexiteer’ de linha dura – exatamente da linha que insistiu até conseguir em ‘atirar borda fora’ Theresa May. O que quer dizer que, como a maioria do partido, estará contra a persistência de qualquer vestígio de alinhamento entre o Reino Unido e a União Europeia. Isto é, a união aduaneira – que em determinada altura o líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, conseguiu promover a uma espécie de última esperança e acrescentar à agenda de Theresa May – é neste momento um ‘pecado’ que o próximo líder conservador não cometerá.

Juntando tudo isto – a recusa de Bruxelas em abrir negociações, a inevitabilidade do Brexit e o horror a futuros alinhamentos entre blocos – a soma das partes só pode ser uma: um Brexit sem acordo.

O senhor ou a senhora que se segue

Boris Johnson, Dominic Raab, Jeremy Hunt, Rory Stewart, Esther McVey, Matt Hancock, Andrea Leadsom, Michael Gove, Sajid Javid, Kit Malthouse, James Cleverly, Penny Mordaunt e Graham Brady. Até ao fecho desta edição, era esta a lista dos que já afirmaram publicamente serem candidatos à sucessão de Theresa May – na verdade, Mordaunt e Brady ainda não o fizeram, mas a imprensa britânica já os trata como candidatos.

Seixas da Costa confessa que não faz “a mais pequena ideia de quem poderá ganhar a corrida”, mas isso, do lado da União Europeia, é absolutamente irrelevante. Mesmo que alguns dos candidatos, como Sajid David e Jeremy Hunt, tenham algures no tempo sido a favor da permanência britânica.

A questão continua a mesma. “A União não abrirá de forma nenhuma uma nova ronda de negociações com o Reino Unido”, por isso é-lhe igual quem sairá vencedor, sendo certo que ninguém o conseguirá defendendo que o Reino Unido deve permanecer no seio dos 28. O embaixador não atribui qualquer destaque a Boris Johnson, por muito que o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de May tenha sido um dos que mais veementemente se manifestaram contra o caminho que a futura ex-primeira-ministra empreendeu nos meses mais recentes. Mesmo assim, parece ser um forte candidato.

Tal como sucede com Dominic Raab – uma das vozes mais determinadas em favor de um Brexit sem qualquer acordo. Mas também Graham Brady, líder do Comité 1922 (o grupo parlamentar dos conservadores na Câmara dos Comuns), onde manteve sempre uma postura de equilíbrio e sobriedade – caraterísticas assinaláveis, dado o ambiente que por ali se tem vivido nos últimos seis meses.

De qualquer modo, para Seixas da Costa, seja lá quem for que ganhe “não vai marcar eleições antecipadas, face ao desastre eleitoral dos conservadores”, tanto nas eleições europeias, como nas municipais (parcelares) de há pouco menos de um mês. Mesmo assim, se a legislatura conseguir chegar ao fim (2022), tudo indica que os conservadores vão ser ‘defenestrados’ do poder.

Para que lado? Aí, Seixas da Costa não tem dúvidas: para a alternativa do constume, os trabalhistas. É que “o modelo britânico das eleições é muito particular, não é pelo sistema proporcional, e por isso a capacidade de afirmação resultante da máquina montada em todo o país por conservadores e trabalhistas é imbatível. É um sistema injusto, em que não há correspondência entre a percentagem nacional e número de lugares realmente obtidos”.

E Seixas da Costa não se esquece de salientar que, pelo menos até agora, ainda não foi apresentada qualquer proposta credível para as duas partes resolverem o problema criado pela fronteira que há de vir a separar as duas Irlandas – sendo esse, ao que parece, um problema sem solução. Para o embaixador, “o Brexit é verdadeiramente um desastre” a que os europeus assistem com uma sensação de impotência que aumenta na exata proporção da grandeza dos problemas – alguns deles nunca antecipados – que surgem a todo o momento por causa da debandada do Reino Unido.

 

Artigo originalmente publicado na edição do Jornal Económico nº 1991 de 31 de maio de 2019

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