‘Caso Khashoggi’ ofusca fórum de investimentos da Arábia Saudita

As suspeitas que envolvem o príncipe Mohamed Bin Salman, herdeiro do trono e um dos impulsionadores do evento, afastaram alguns políticos e empresários, que cancelaram a presença no evento. Mesmo assim, já foram fechados acordos de mais de 40 mil milhões de euros.

O fórum de investimento Future Investment Initiative (FII), que abriu com grande pompa em Riad, capital da Arábia Saudita, esta terça-feira, está a ser ensombrado pelo chamado ‘caso Khashoggi’ – o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi na representação saudita na Turquia.

O príncipe Mohamed Bin Salman, herdeiro e governante de facto da Arábia Saudita e um dos impulsionadores do evento, fez apenas uma breve visita ao fórum, onde várias cadeiras permaneceram vazias depois das suspeitas que sobre ele caíram pela possível responsabilidade no caso – o que fez com que já se tenha ventilado a hipótese de Bin Salman ser retirado da cadeia sucessória, como aliás já sucedeu a outros candidatos. De qualquer modo, os cancelamentos de líderes empresariais e políticos em cima do acontecimento não impediram a assinatura de contratos no valor de 43.500 milhões de euros.

O caso do assassinato, e ao contrário do que sucedeu noutras ocasiões, não foi mantido na penumbra: vários altos responsáveis sauditas referiram-no nas suas intervenções, sempre na ótica de que Riad não tem nada a ver diretamente com o que aconteceu na Turquia.

“Ninguém no reino pode justificar ou explicar” o que aconteceu, disse o ministro da Energia saudita Khalid al Falih, citado por vários jornais. Al Falih reconheceu que o seu país está a passar por uma espécie de crise, mas está convencido de que seguirá em frente.

Mas as coisas podem não ser assim tão simples: o caso pode fazer esmorecer os entendimentos entre a Arábia Saudita e o Ocidente – e não pode ser por acaso que os investidores estrangeiros se desfizeram de ações no valor de 4,621 milhões de riais (1.070 milhões de euros) nas últimas duas semanas, segundo dados da Bolsa de Riad citados pela agência Reuters.

Em várias capitais europeias, por outro lado, discute-se neste momento se se deve avançar com uma espécie de retaliação, impedindo a venda de armas ao governo saudita. A chanceler Angela Merkel avançou com uma proposta nesse sentido e o Parlamento espanhol, chamado a pronunciar-se sobre o assunto acabou por votar desfavoravelmente a interrupção dos fornecimentos. Mas só o facto de haver um debate em torno da questão já é um sinal político que Riad não pode deixar de considerar.

O ‘fiel da balança’ será como sempre os Estados Unidos, mas Donald Trump, o presidente, não parece acreditar, ou pelo menos é o que diz, que o governo saudita tenha alguma coisa a ver com o assunto. Ou, dito de outra forma, a Casa Branca não parece ter no horizonte qualquer retaliação – tanto mais que a Arábia Saudita é um dos seus melhores clientes de armamento.

Para já, o fórum vai prosseguindo, e os 43.500 milhões de euros de contratos foram fechados só no primeiro dia dos trabalhos, nomeadamente em projetos de petróleo, gás, infraestrutura e outros setores, embora a maioria já tenha sido negociada anteriormente – como é o caso do contrato do consórcio espanhol para a segunda fase da Meca AVE, um projeto de comboio de alta velocidade, ou da assinatura de acordos entre a Aramco, a companhia nacional de petróleo, e 15 parceiros internacionais no valor de quase 30 mil milhões de euros.

De qualquer modo, os primeiros planos de abertura da economia saudita ao exterior – gizados precisamente por Mohamed Bin Salman, já há muito que não estão a ser seguidos à risca: há uns meses, a propagandeada abertura da Aramco à entrada de acionistas estrangeiros foi abruptamente cancelada – numa altura em que parte das empresas ocidentais já andava a fazer contas – sem que tivesse sido avançada uma explicação credível.

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