CGD: “Exame de idoneidade a ex-gestores é já fora de jogo e com critérios discutíveis”, diz PS

João Correia, deputado do PS, diz que é importante que o Banco de Portugal faça a avaliação de idoneidade de ex-gestores da Caixa. Mas critica o regulador de não ser pró-ativo, limitando-se a reagir, após auditoria pedida pelo Governo à gestão da Caixa que conclui por créditos ruinosos. Considera ainda que são “muito discutíveis” critérios do exame do BdP, que deixa de fora Carlos Costa enquanto ex-administrador da CGD.

O Banco de Portugal está outra vez fora de jogo com a avaliação de idoneidade de ex-gestores da Caixa Geral de Depósitos (CGD)  após uma auditoria aos atos de gestão do banco pedida pelo Governo e não pelo regulador. É desta forma que João Correia, coordenador socialista para os assuntos e económicos, reage ao pedido de escusa do governador do Banco de Portugal (BdP) ainda para não participar nas decisões do regulador sobre a auditoria da EY aos atos de gestão na Caixa. O deputado do PS  considera também “fundamental”  os esclarecimentos  que Carlos Costa, que aprovou créditos ruinosos da CGD quando foi administrador do banco público, já assegurou estar disponível para prestar no Parlamento.

“Por um lado, é importante que o Banco de Portugal faça a avaliação de idoneidade de ex-gestores da Caixa. Por outro, ficamos todos, uma vez mais, com a impressão de que o Banco de Portugal reage e não é pró ativo e toma uma medida que, apesar de poder ser útil, é já fora de jogo e com critérios muito discutíveis”, avançou ao Jornal Económico João Correia, que também foi coordenador do PS na última comissão de inquérito à gestão da CGD.

Para este deputado socialista, “uma das peças fundamentais da próxima comissão de inquérito são as declarações que o governador vier a prestar e toda a informação que será pedida à Caixa e ao Banco de Portugal que se prenda com a sua condição de ex-administrador do banco  e de governador”.

A reacção de João Correia surge na sequência do pedido de escusa, por parte de Carlos Costa, nas decisões do BdP sobre a auditoria à CGD aos atos de gestão na Caixa entre 2000 e 2015, que concluiu por negócios ruinosos de 1,6 mil milhões de euros. O pedido de escusa que foi aceite pelo conselho de administração.

O governador do Banco de Portugal nega qualquer responsabilidades nos créditos ruinosos que foram concedidos pela CGD quando exerceu funções na administração do banco público. Carlos Costa pediu  ainda para não participar nas decisões do regulador sobre a auditoria da EY aos atos de gestão na Caixa.

O esclarecimento de Carlos Costa, publicado no site do BdP nesta sexta-feira, 8 de fevreiro,  surge depois de o Jornal Económico ter noticiado hoje que o governador do Banco de Portugal escapa ao exame de idoneidade que está a ser feito pelo regulador aos ex-gestores do banco público, nos sentido de apurar eventuais responsabilidades nos atos de gestão que resultaram em elevados prejuízos para o banco público. Um escrutínio que não incide sobre o governador, apesar de este, segundo a revista Sábado, ter participado em pelo menos quatro reuniões do conselho alargado de crédito que aprovaram financiamentos a Joe Berardo e Manuel Fino, num total de 223 milhões de euros, que geraram perdas para o banco público de 161 milhões de euros, segundo o relatório final da auditoria da EY à gestão da Caixa.

Carlos Costa, rejeitou nesta sexta-feira, 8 de fevereiro, qualquer responsabilidade pelos créditos concedidos CGD, no período em que foi administrador, entre abril de 2004 e setembro de 2006. Carlos Costa pediu ainda para não participar nas decisões do supervisor bancário sobre a auditoria da EY.

O governador do BdP defende-se agora ao afirmar que no período em que foi administrador da CGD foi “responsável pelas áreas de marketing e internacional da instituição”. Mais, num comunicado publicado no site do regulador, Carlos Costa dá conta que “durante todo o período em que exerceu funções de administrador na CGD, o Governador não teve responsabilidades nas áreas de crédito, risco, acompanhamento de clientes ou de controlo e auditoria interna”.

A este respeito, o Jornal Económico revela que o facto de Carlos Costa escapar ao exame de idoneidade do BdP que abrange menos de 10 ex-gestores da Caixa ainda ligados à banca, está a gerar um mal estar no seio do regulador. Isto porque, um dos antigos administradores da CGD, Norberto Rosa, não passou no crivo do regulador para funções não executivas no BCP, precisamente porque participou em conselhos de crédito do banco público que aprovaram empréstimos ruinosos. Tal como Carlos Costa, também Norberto Rosa não tinha funções nas áreas de crédito e de risco.

Isto numa altura em que numa que é tornado público que Carlos Costa votou favoravelmente  empréstimos de 178,1 milhões para Investifino do empresário Manuel Fino, assim como aprovou créditos de 47 milhões de euros à Metalgest de Joe Berardo. E há mesmo quem critique o facto de haver “dois pesos e dois medidas”.

Segundo as nossas fontes, em questões de avaliação de idoneidade, “o Banco de Portugal não supervisiona a sua própria casa. Não é possível, pois não está no âmbito dos poderes que a lei confere a esta entidade”.

 

Costa pede escusa nas decisões sobre auditoria

O Governador Carlos Costa pediu  ainda para não participar nas decisões do Banco de Portugal sobre a auditoria da EY aos atos de gestão na Caixa.

“Tendo em conta que o seu mandato na CGD está incluído no período que foi objeto de análise na auditoria da EY à CGD (2000-2015), o governador comunicou ao conselho de administração do Banco de Portugal a sua intenção de não participar nas decisões do Banco de Portugal decorrentes das conclusões desta auditoria, tendo o conselho de administração aceite este motivo de escusa”, esclarece o Banco de Portugal.

O Jornal Económico questionou ontem, antes do fecho da edição do Jornal Económico desta sexta-feira, sobre se Carlos Costa tinha pedido algum pedido de escusa deste processo de averiguações à gestão da CGD, não tendo fonte oficial do BdP avançado com qualquer esclarecimento ao preferir não comentar.

O JE avança hoje que o Banco de Portugal está a avaliar mencarlosos de 10 dos 44 gestores que passaram pelo banco público naquele período. Mas o próprio Carlos Costa, que foi administrador da CGD com o pelouro da área internacional entre julho de 2004 e setembro de 2006, vai escapar a esse exame de idoneidade que o supervisor está a realizar.

No esclarecimento emitido, o Governador reitera que” está totalmente disponível, como sempre esteve, para prestar todos os esclarecimentos que a Assembleia da República entender necessários, designadamente sobre os termos da sua participação nos órgãos colegiais que aprovaram as operações que são objeto da auditoria da EY à CGD”.

É ainda assegurado que “o Banco de Portugal está a considerar toda a informação contida na auditoria da EY à CGD e daí retirará as consequências que se imponham”.

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