Chipre: o porta-aviões da Rússia na Europa

A pequena ilha permite que qualquer estrangeiro se torne cidadão cipriota – e, por acréscimo, da União Europeia – por uns dois milhões de euros. A maioria dos que aderiram ao programa é russa.

Há vários anos que a Rússia tem vindo a aproximar-se da economia e da sociedade de Chipre – país que pertence à União Europeia desde 1 de maio de 2004 e à Eurozona desde 2008 – na tentativa, segundo os analistas, de manter uma posição estratégica no Mediterrâneo, mas também de procurar uma alternativa às reticências que a própria União Europeia demonstra ter em relação ao país liderado há quase duas décadas por Vladimir Putin.

Entre todas as evidências de que os dois países se mantêm numa rota de entendimento, surge agora a notícia, veiculada pela agência Euronews, de que Chipre tem cada vez mais russos a recorrer ao mecanismo do investimento para se tornarem cidadãos cipriotas – à semelhança do que Portugal faz com os chamados vistos ‘gold’.

Limassol, a segunda maior cidade de Chipre, tem por estes dias uma enorme atividade em termos portuários e de crescimento da construção civil, refere a Euronews – que refere que o grosso da economia da cidade está cada vez mais nas mãos de cidadãos russos.

Muitos russos vivem agora nesta cidade e investem fortemente no setor da construção civil, mas também no comércio, onde há cada vez mais lojas com raízes russas. De acordo com diversos analistas, o programa de venda de passaportes para a obtenção de cidadania cipriota e, consequentemente, cidadania europeia, ajudou muito o país a recuperar da crise económica dos últimos anos.

Em Chipre, os estrangeiros podem demorar menos de seis meses a conseguirem tornar-se cidadãos cipriotas e europeus tendo de investir cerca de dois milhões de euros – bem mais que os 500 mil euros nacionais.

Russos, chineses, mas também cidadãos do Médio Oriente compram ou constroem grandes habitações, já que uma das condições prévias para obter a cidadania é ter uma residência permanente no Chipre.

Um montante da ordem dos quatro mil milhões de euros entrou na economia cipriota através destes programas, o que representa pelo menos 20% do PIB do país, refere a agência. No entanto, muitos eurodeputados e funcionários da União Europeia acusam Chipre de vender passaportes a pessoas que podem ter interesses obscuros.

No ano passado, o ministro das Finanças cipriota, Charis Georgiades, disse que mais de 2 mil passaportes foram emitidos, sendo que metade destes foram para cidadãos russos. Este eventual excesso já foi referido noutras ocasiões – demonstrando aquilo que parece ser algum mal-estar das autoridades da União Europeia face às facilidades concedidas especialmente aos cidadãos russos.

Há cerca de três anos, os dois países assinaram um acordo para que os navios russos possam usar os portos cipriotas. A polémica aumentou quando algumas fontes concluíram que os portos da pequena ilha poderiam vir a albergar navios de guerra – numa altura em que a Síria já se encontrava em plena guerra civil, com o regime de Putin a envidar todos os esforços para manter Bashar al-Assad no poder. Moscovo desmentiu, mas o mal-estar não passou.

Alguns anos antes, em 2011, a Rússia concedeu um empréstimo de 2,5 mil milhões de euros a Chipre, numa altura em que a crise que avassalou a Europa estava no auge. Quatro anos depois, novamente em 2015, a Rússia cortou ‘spreads’ – os juros passaram de 4,5% para 2,5% ao ano, uma descida de quase 50% – e o prazo de pagamento foi alargado de 2018 para 2021.

No meio, em 2013, o país foi intervencionado pela ‘troika’, com um plano dito por muitos de usurpação do dinheiro dos depositantes no sistema financeiro, que foram diretamente chamados a pagar parte do resgate – entre outras medidas mais ‘normais’. O que quis dizer, na altura, que parte dessa parte do resgate foi paga por russos, que usavam o sistema bancário local como uma espécie de conta corrente – ou, dito de outra forma, como um paraíso fiscal, que chegou realmente a ser.

A questão tem também outros contornos, numa altura em que Moscovo e Ancara parecem estar a afastar-se cada vez mais. A Turquia está a entrar num conflito crescente com a Síria – que a Rússia continua a apoiar, contra quase todo o resto do mundo, que veria como muito confortável o fim da era al-Assad. E a facilidade com que a Rússia dispõe dos portos cipriotas não agradará ao presidente Erdogan. Basta ilhar para o mapa para se perceber: os portos de Chipre e os portos da Crimeia – anexada pela Rússia no final de 2014 – exercem a pressão de uma verdadeira tenaz sobre o território turco.

Mais um problema para a União Europeia, com um futuro potencial de crescimento para já insondável.

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