CMVM: Investimento no mercado acionista gerou maior retorno em 2017 do que Obrigações do Tesouro ou certificados de aforro

A CMVM realça no seu balanço do ano passado que o investimento no mercado acionista gerou maior retorno em 2017 do que a generalidade de outras aplicações financeiras, como obrigações do Tesouro ou certificados de aforro. Os resultados económicos obtidos pelas empresas portuguesas justificam parcialmente as valorizações acionistas ocorridas no ano.

O PSI 20 teve em 2017 uma valorização superior à dos principais índices acionistas de referência na Europa e os seus valores negociados também aumentaram, mantendo-se a volatilidade em níveis historicamente reduzidos. “Esta apreciação não foi, contudo, suficiente para colocar o índice acima do valor que registava no dealbar da crise financeira internacional de 2008”, realça a CMVM no seu Relatório Anual sobre os Mercados de Valores Mobiliários de 2017.

A CMVM realça no seu balanço do ano passado que o investimento no mercado acionista gerou maior retorno em 2017 do que a generalidade de outras aplicações financeiras, como obrigações do Tesouro ou certificados de aforro.

Por outro lado, o nível global da liquidez do mercado de dívida soberana também aumentou em 2017.

Em 2017 as empresas nacionais continuaram o seu processo de desalavancagem, “esperando ainda assim aumentar o investimento em 2018”, lê-se no documento.

Apesar de o mercado de capitais ser considerado pelas empresas como o fator menos limitativo ao financiamento do seu investimento, este continuou a ser pouco usado pelas empresas nacionais, explica o regulador.

Realizaram-se no mercado nacional duas operações de aumento de capital por empresas cotadas (no ano anterior não tinha havido qualquer operação deste tipo), salienta a CMVM.

O valor das ordens recebidas e executadas por intermediários financeiros nacionais subiu no mercado a contado e desceu no mercado a prazo, destaca ainda o regulador.

Já na gestão de ativos assistiu-se ao aumento global dos valores administrados, com os fundos estrangeiros comercializados em Portugal a ganharem peso relativo. A gestão de ativos correspondia a 45% do PIB em Portugal.

De entre os marcos de 2017, apontados pela CMVM no relatório destaque também para a publicação da lei que leva para oito anos a pena máxima para o crime de manipulação de mercado, em 30 de maio do ano passado; a publicação da legislação que cria as sociedade de investimento mobiliário para fomento da economia; e a aprovação do regime sancionatório do Crowdfunding, entre outros.

O ano 2017 em números

Em 2017 valorização anual do PSI 20 fixou-se em 15,2%; a volatilidade anual do PSI 20 foi de 11,2%; a capitalização bolsista em ações nacionais na Euronext Lisbon ficou em 61,2 mil milhões de euros; duas empresas deixaram de estar cotadas no mercado principal da Euronext Lisbon (Cimpor e Montepio); a capitalização bolsista da totalidade dos instrumentos financeiros admitidos na Euronext Lisbon somou 284 mil milhões; o valor negociado em ações na Euronext Lisbon totalizou 23,6 mil milhões; a percentagem da negociação efetuada fora de mercado regulamentado relativa a ações domiciliadas em Portugal foi de 47,4%; o valor transacionado em contratos de futuros sobre o PSI 20 foi de 862 milhões; o valor da dívida pública nacional transacionado na plataforma MTS elevou-se para 82,5 mil milhões; o aumento do valor global de dívida soberana transacionado no país e fora do país, em plataformas de negociação em OTC foi de 6%; e foram negociados 35.504 Gigawatt/hora em
contratos a prazo de energia no MIBEL.

Em termos de aumento anual dos lucros das empresas admitidas à cotação na Euronext Lisbon a evolução foi de 26%; o aumento médio dos resultados por ação das sociedades cotadas em Portugal foi de 2,4%; o pay-out ratio das empresas nacionais cotadas com lucros foi em média de 53%; a diminuição média da dívida das empresas admitidas à cotação na Euronext Lisbon foi de -11,3%.

O relatório anual detalha que “assistiu-se ao aumento generalizado dos resultados por ação nas maiores sociedades cotadas em Portugal. Esse crescimento foi de 2,4% em 2017, um valor superior à variação percentual do índice de preços no consumidor, evolução semelhante (embora de magnitude inferior) à observada em empresas dos índices S&P 500, MSCI Europa e MSCI World”.

O aumento das margens de lucro e do volume de vendas traduziu-se num incremento dos resultados por ação quer das empresas que integram o PSI 20 quer de outras empresas europeias e mundiais, adianta.

Em 2017, os resultados por ação dos índices PSI 20, S&P 500, MSCI Europa e MSCI World excederam em mais de 30% as respetivas médias dos dez anos precedentes.

Os resultados económicos obtidos pelas empresas portuguesas justificam parcialmente as valorizações acionistas ocorridas no ano.

Em termos de operações no mercado primário o valor das duas operações de aumento de capital de empresas cotadas foi de 1.465 milhões de euros; foram registadas seis OPA (incluindo da EDP sobre EDP Renováveis e OPA sobre as unidades de participação representativas do capital do CEMG e OPA do CaixaBank ao BPI).

O valor da dívida privada emitida em Portugal em 2017 foi de 15.967 milhões.

O montante de produtos financeiros complexos (PFC) colocados em Portugal foi de 401,7 milhões, sendo que o montante vivo destes produtos em Portugal no final de 2017 somava 4,2 mil milhões de euros.

Somaram 20,7 mil milhões de euros o total de emissões de dívida direta pelo Estado Português através de obrigações do Tesouro e Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável.

Ao nível da intermediação financeira a CMVM revela que 196,2 mil milhões é o valor das ordens recebidas por intermediários financeiros autorizados a prestar em Portugal o serviço de receção e transmissão de ordens por conta de outrem, no ano passado. Houve 362,3 mil milhões de euros negociados por conta própria pelos intermediários financeiros e o valor dos instrumentos financeiros registados pelos intermediários financeiros foram de 330,2 mil milhões de euros.

O que esperou a CMVM para 2018?

Em 2018, o cenário de crescimento económico do ano anterior poderá ser afetado de forma adversa por fatores exógenos decorrentes de condicionantes de natureza geopolítica e de recrudescimento do protecionismo no comércio externo mundial, lê-se no relatório.

Na mensagem do Conselho liderado por Gabriela Figueiredo Dias é dito que “é com um sentimento favorável que o mercado se posiciona em 2018 para enfrentar de forma renovada desafios contínuos e diversificados, os quais resultam nomeadamente de uma envolvente global em profunda transformação, caracterizada por um crescente e muito rápido processo de digitalização bem como, por exemplo, da proliferação de um conjunto de inovações financeiras que depressa se vêm generalizando, rompendo os padrões tradicionais de funcionamento do mercado e, bem assim, de oferta de produtos e serviços”.

A CMVM destaca a “implementação da DMIF II deverá, previsivelmente, determinar alterações significativas no comportamento dos diversos agentes económicos, contribuindo para uma melhoria das condições e do contexto de investimento a nível global, bem como para a retoma da confiança dos investidores”.