Congresso do PSD (dia 3, e último): Rui Rio apresenta caderno de encargos para a Felicidade

Quem aprecia os jogos políticos, partidários e pessoais só pode ter ficado desiludido com o discurso final de Rui Rio no Congresso. O novo presidente do PSD não perdeu tempo com as incidências do conclave, de Montenegro a Ilina, nem comentou o resultado das listas.

No momento final, o discurso foi direto ao País. Assumiu-se como um diagnóstico social democrata q.b. – e nem precisaria da bengala discursiva que trouxe Helmuth Schmidt, um saudoso nome da família socialista europeia, a um congresso do PSD português.
Rui Rio partiu e chegou à palavra Felicidade como desígnio da atividade política.

Pelo meio trouxe a sua visão, que agora passa a ser a do PSD, nos temas mais importantes da vida do País: crescimento da classe média, natalidade, desertificação do interior e demografia, apoio à terceira idade, família, sustentabilidade do sistema de Segurança Social, investimento no Serviço Nacional de Saúde, Estado Social, Educação ligada à economia das regiões, sociedade do conhecimento e da inovação como a base que pode permitir pagar melhores salários, a rejeição do consumo como motor da economia, a importância da descentralização (sem nunca referir a regionalização), a satisfação dos anseios dos portugueses na Defesa, Segurança e Justiça, o combate ao poder das corporações e da burocracia do Estado.

Ao que disse, deve somar-se o que Rui Rio preferiu não dizer. Mesmo quando falou na Segurança, referindo-se aos fogos, evitou a demagogia. Não se lhe ouviu uma palavra sobre o sofrimento colectivo do Verão passado. Nenhuma alusão a responsabilidades governamentais. Esta é a melhor característica do presidente do PSD: a seriedade intelectual, a determinação com aquilo que é realmente importante, o saber resistir aos sound-bytes comunicacionais.

As únicas críticas da política governamental foram as normais de quem se situa à direita do PS: que estará, segundo ele, refém do PCP, do Bloco e, também, de “alguns jovens turcos do PS”. Coisas compreensíveis vindas de um líder de um partido europeísta, “Europeu e Atlântico”, obviamente adversário da política do “orgulhosamente sós” que pretenda estigmatizar a União Europeia e a NATO, ou defenda a saída do euro.

Pelo discurso, percebeu-se que as três áreas prioritárias em que defende entendimentos alargados (nunca falou apenas no PS, antes referiu todos os partidos e as instituições sociais) são a Segurança Social, a Saúde e a Justiça. Talvez devesse ter sido mais explícito, mas preferiu deixar o terreno aberto.

Em resumo: Rui Rio protagonizou a melhor versão do político que não cede nas suas convicções e não perde tempo com o acessório. Obviamente, faz bem.

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