Cristina Kirchner: entre o julgamento por corrupção e o possível regresso à política

A ex-presidente da Argentina ganharia ao atual presidente por quase 10 pontos de vantagem. Mas, para já, é tempo de responder em tribunal. O julgamento começou esta terça-feira num ambiente muito distendido.

País de extremos e de aparatosas nuances políticas, os argentinos vêm finalmente chegar à barra dos tribunais a antiga presidente Cristina Kirchner (que ocupou o cargo entre 2007 e 2015), acusada de fazer parte de uma associação criminosa que artibuia obras públicas a um empresário e amigo do marido, Néstor Kirchner (Presidente do país entre 2003 e 2007, falecido em outubro de 2010) de nome Lázaro Báez, dono de um grupo empresarial cuja principal empresa é a Austral Construcciones.

O julgamento começou esta terça-feira em Buenos Aires e, na altura do fecho desta edição, continuava a ler-se a acusação de que a antiga Presidente do país e os seus alegados cúmplices são acusados. Mas o ambiente não podia ser mais distendido: Cristina optou por sentar-se longe das primeiras filas e passou o tempo imersa no seu telemóvel. Terá sido portanto uma das primeiras a ler o ‘tuit’ de um dos seus advogados, Gregorio Dalbon, que lhe era dirigido e que dizia: “estás preciosa”.

Para a acusação, os valores em causa são astronómicos e talvez merecedores de maior atenção por parte da defesa: entre 2004 e 2015, o empresário – que os jornais indicam não ter nenhuma experiência no ramo da construção – conseguiu ganhar 52 obras públicas, quase tudo a construção de estradas, com as quais terá acumulado cerca de 16 mil milhões de dólares de pagamentos.

Ora, o Ministério Público alega que as obras – algumas delas são estradas que não vão ter a lado nenhum, não servem para nada ou pura e simplesmente nunca chegaram a ser terminadas – foram sobre-faturadas (em alguns casos, 65% do total seriam obras fictícias) e que Báez e o casal Kirchner foram os primeiros e principais beneficiários do esquema de corrupção. O património pessoal de Báez, que era de 1,8 milhões de dólares em 2003, ascendeu aos 137 milhões em 2014. Por decisão dos tribunais, Cristina Kirchner não tem acesso ao seu património financeiro (ou a parte dele): 625 milhões de dólares.

A investigação foi iniciada por uma queixa, em 2016, da Autoridade Nacional das Estradas, mas o caso, ou a série de casos, foi dado a conhecer em 2008, quando Elisa Carrio, uma política ligada a grupos de esquerda, denunciou aquilo que chamou conspiração liderada pela então Presidente da República.

Desde 2016 até ontem, as duas partes, Ministério Público e advogados de Kirchner, envolveram-se numa novela legal que permitiu atrasar o início das audições públicas da ex-Presidente e obrigou a uma série de avanços e recuos. No meio disso, os advogados de Kirchner falam em linchamento político e perseguição. Para além de Cristina Kirchner e Lásaro Báez (preso desde 2016), são também julgados Julio De Vido, ex-ministro do Planejamento e Investimento Público, José López, ex-secretário das Obras Públicas e Carlos Kirchner, primo do casal Kirchner, entre outros 13 acusados.

Senadora desde dezembro de 2017, Cristina Kirchner prepara-se para concorrer à presidenciais de outubro e novembro deste ano, mas ao lugar de vice: no topo da lista estará Alberto Fernández, ex-chefe de gabinete de Néstor Kirchner enquanto este foi Presidente do país. Inicialmente houve alguma confusão sobre a que lugar estaria Cristina Kircghner a concorrer. E enquanto os equívocos não foram desfeitos, as sondagens fizeram o seu trabalho: num cenário de uma segunda volta, a ex-Presidente venceria o atual presidente, Mauricio Macri, que se recandidata, por uma diferença de 10 pontos percentuais.

O início do julgamento chegou a estar marcado para 24 de fevereiro, mas acabou por ser suspenso por problemas de saúde do presidente do tribunal, que acabaria por falecer. Desde então, a justiça argentina debateu como e quando Cristina Kirchner devia ser julgada: se separadamente para cada um dos casos em que é acusada, se em todos no mesmo julgamento. A acusação estima em pelo menos 160 milhões de dólares o montante dos subornos pagos apenas entre 2003 e 2007, durante o governo de Néstor Kirchner. A investigação do caso atinge praticamente  todo o setor da construção na Argentina, incluindo a família do presidente Maurício Macri.

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