Déjà vu

Se é impossível antecipar a extensão completa de um evento de elevada magnitude, é perfeitamente verosímil antever a sua existência. A ideia fantasiosa existente até 2007, em particular nos EUA, de que o imobiliário “subia sempre” desafia qualquer lógica ou bom senso.

“Toda a gente sabe como fazer, mas poucos o conseguem fazer”, uma frase que por vezes se ouve no meio financeiro e que eu próprio utilizo na formação que leciono, para exemplificar como é raro o ser humano dar ouvidos ao bom senso e ao seu conhecimento, no sentido de efectuar melhores decisões em temas importantes, mas não prementes.

Se o incêndio não está à nossa porta, tendemos a ser complacentes e depois da tragédia afirmamos que era “imprevisível” tal ocorrer daquela forma. Ainda há uns dias na CNBC, por altura do aniversário da falência da Lehman Brothers em 2008, passou uma entrevista sobre a crise financeira desse ano com Ben Bernanke (ex-presidente da FED), Henry Paulson (ex-secretário de Estado do tesouro norte-americano) e Timothy Geithner o seu sucessor. Falaram sobre a resolução de uma situação complicada e sobre a impossibilidade de prever a mesma devido às suas ramificações.

Se é impossível antecipar a extensão completa de um evento de elevada magnitude, é perfeitamente verosímil antever a sua existência. A ideia fantasiosa existente até 2007, em particular nos EUA, de que o imobiliário “subia sempre” desafia qualquer lógica ou bom senso. A elevadíssima alavancagem dos consumidores e empresas nos EUA resultaria num inevitável evento catastrófico, bastando para isso um pouco de óleo na estrada, a derrapagem era certa, só não se sabia em que parte da estrada estaria o óleo. Isto porque não há história de qualquer movimento de desalavangem substancial que tenha ocorrido de forma controlada num mercado livre, pura e simplesmente não acontece, o pânico garante o descontrolo e a imprevisibilidade dos efeitos.

O relatório da Financial Crisis Inquiry Commission, divulgado em 2011, indicou que a alavancagem nos cinco principais bancos de investimento dos EUA chegou a tocar nas quarenta vezes, ou seja por cada quarenta euros de activos só tinham um euro para cobrir perdas (desvalorização do activo). Activos que em muitos casos eram os famigerados “activos tóxicos”, pacotes de obrigações hipotecárias com rating máximo, mas que continham hipotecas de rating “lixo” misturadas, ou seja ao arrepio do bom senso. Numa entrevista ao Financial Times, Steve Eisman, o conhecido investidor retratado no filme “Big Short”, como um dos que antecipou o crash, referiu, “se alguém conseguia respirar , tinha acesso a uma hipoteca” .

Concretamente a crise financeira de 2008 nos EUA, que depois se espalhou para a Europa em 2011, numa crise de dívida soberana, teve a sua génese em dois factores nucleares. O comportamento inconsciente e errático dos consumidores e financiadores que provocaram a alavancagem, bem como a supervisão/regulação que os permitiu. Desde logo na passividade perante as agências de rating, fulcrais para o logro da dívida hipotecária “tóxica” e no facilitismo perante o exercício da actividade dos grandes conglomerados financeiros, muito dentro da política do conhecido ex-presidente da FED, Alan Greenspan, que advogava o lema, “nós confiamos que vocês sabem o que fazem, por isso continuem”, mais um óbvio atentado ao bom senso.

Politica essa que fez escola em terras lusas, primeiro com os governadores do Banco de Portugal, Vítor Constâncio e Carlos Costa, que não passaram de meros voyeurs do sistema financeiro, estando directamente ligados ao que permitiu a crise bancária iniciada em 2011. Carlos Costa, que ao contrário de Paulson não obrigou os bancos a aceitar o auxilio estatal para conseguirem aguentar a tormenta, resultado? O BES, único banco que não entrou no programa para fugir ao escrutínio das contas, acabou como a maior falência da história nacional. Costa que participou activamente na burla do papel comercial do GES, visto que em Novembro de 2013 tomou conhecimento do buraco de 1,2 mil milhões de euros na ESI, que controlava o GES e indirectamente o BES, e não só não informou o mercado, como permitiu a venda de dívida do GES até Fevereiro de 2014.

Volvidos dez anos da crise financeira nos EUA e sete anos da crise de dívida soberana na Europa, do outro lado do Atlântico a alavancagem voltou em força, ao mesmo tempo que Trump encetou a desregulação do sistema bancário, nomeadamente de algumas medidas colocadas em prática exactamente para prevenir crises futuras. Na Europa, ainda não existe uma união bancária digna desse nome, não está criado um mecanismo de dívida soberana único, em Itália a banca ainda sofre com o elevado montante de mal parado, tal como em Portugal, não obstante o endividamento estar de novo em forte alta.

Resumindo, a complacência está instalada, pode não ser amanhã ou daqui a um ano, mas é evidente que uma nova crise económica e/ou financeira está para se dar a conhecer. Os ciclos económicos são inevitáveis, nomeadamente a recessão, que trás consigo o aparecimento das fraquezas financeiras. É preciso estar preparado para o novo ciclo, mas para isso temos que debater seriamente o assunto e agir decididamente, só ainda nem sequer ao debate chegamos, por isso é quase inevitável que apanhemos com a próxima crise da mesma forma como apanhámos as anteriores, impreparados.

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