Demografia vai afetar futuro do trabalho

Em Portugal, a queda da taxa de natalidade, o envelhecimento da população e a emigração, sobretudo de quadros mais qualificados, terão forte impacto no mercado laboral.

Cristina Bernardo

“Podemos identificar outras características que irão afetar o futuro do trabalho de uma forma tão importante como a tecnologia”. Nuno Boavida, investigador no Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, aponta a dedo fatores internos às sociedades e fatores externos, como, por exemplo, a globalização. “A abertura dos mercados ao comércio internacional provoca pressões competitivas sobre as empresas e, naturalmente, também sobre os trabalhadores, sobre as suas qualificações e competências, e sobre aquilo a que se chama, grosso modo, fatores de empregabilidade.”

Nos últimos 30 anos, os fatores de competitividade das empresas têm estado alicerçados nos custos do trabalho e nos custos do capital. “Hoje em dia, há, no entanto, um fenómeno interessante de analisar: o crescente protecionismo industrial das economias ditas liberais, como os Estados Unidos e a Grã Bretanha”. No leque de fatores que enumera, figuram o reposicionamento das religiões, o crescimento das xenofobias e as migrações.

Em Portugal, país com a mais baixa taxa de fertilidade da União Europeia, a demografia é um fator interno de capital importância quando se olha para o futuro do trabalho. A queda da taxa de natalidade e o envelhecimento da população terão inevitavelmente consequências, tal como a emigração, sobretudo de quadros mais qualificados, acrescenta Nuno Boavida.

No que versa a tecnologia, o investigador vai direto ao essencial: “Quando tentamos olhar para o futuro há uma componente social que, por norma, é descurada: a tecnologia não se desenvolve per se, desenvolve-se dentro de uma sociedade”. Uma sociedade que integra forças que a impulsionam e forças que a retraem. O resultado desse confronto de forças é o ponto em que estamos hoje, o ponto onde viremos a estar amanhã. É no conjunto de uma estrutura muito complexa como é a sociedade, junto das forças que nela interagem, que poderemos tentar perceber como é que a tecnologia se irá desenvolver ou evoluir.

Foi assim que João Romão, membro do Global Shapers Lisbon Hub e moderador da FNAC Shaper Talks sobre “O Futuro do trabalho em Portugal”, contextualizou, antes de lançar a questão: “Cada vez que há uma grande vaga tecnológica a chegar à sociedade e a disseminar-se é recorrente a ideia de que se trata de uma força imparável e interminável. O avanço tecnológico é mais uma ameaça ou uma oportunidade para as nossas sociedades?”.

Inês Santos Silva, formadora para o empreendedorismo, também ela Shaper, faz um breve traçado do mundo do trabalho desde a Revolução Industrial, referindo que, em parte, além do trabalho físico, que já foi muito substituído, ou está ser, por robôs, o que vemos é a inteligência artificial a substituir o trabalho que era anteriormente feito por pessoas em escritórios. A inteligência artificial a substituir a inteligência cognitiva. Isto não significa, segundo a especialista em empreendedorismo tecnológico, que os trabalhos vão todos terminar. Novos trabalhos estão a surgir diariamente. A questão fundamental é se o emprego que está a ser criado supera o que está a ser destruído. Segundo estimativas das Nações Unidas, na Terra seremos 9,6 mil milhões de pessoas em 2050. Este é mais um dado a ter em conta no debate.

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