Divisão: o renascer das cinzas, entre o Barclays e o Nomura

A falência do Lehman Brothers foi um drama que afetou o mundo inteiro, mas também representou uma oportunidade de negócio. O dinheiro dos investidores desapareceu, mas a falida instituição foi vendida aos pedaços e a preço de saldo.

Não tinha passado uma semana desde a falência do Lehman Brothers e o banco britânico Barclays – que tinha recuado na compra no fim de semana anterior – já demonstrava um interesse renovado no negócio. Se a queda do quarto maior banco dos Estados Unidos foi um dos maiores contributos para a crise da banca a nível global, também foi vista por alguns como uma oportunidade única. Enquanto o Barclays ficou com o negócio nos EUA, o japonês Nomura aproveitou para entrar em mercados onde não estava presente, tendo ficado com as parcelas não só asiática, mas também africana e europeia.

O grupo britânico acordou a compra por 1,75 mil milhões de euros dois dias após o Lehman Brothers ter entregue o capítulo 11 no tribunal de falências de Nova Iorque. Uma semana depois, o Nomura adquiriu as operações de equity e banca de investimento na Ásia, Europa e África. Dois dólares. Foi quanto pagou o banco japonês pelos ativos.

“Na prática, foi uma oportunidade que o Nomura encontrou para avançar com o plano de expansão internacional e adquirir uma plataforma com competências muito específicas na área da Banca de Investimento para a Europa”, explicou, Vasco Bouça, responsável pela atividade de investment banking para Portugal no Nomura, em entrevista ao Jornal Económico.

Com mais de 17 anos de experiência em banca, Bouça – que fez questão de sublinhar que fala a título pessoal e não em nome da empresa – passou os últimos dez entre Londres e Madrid a trabalhar para a UBS e, há cinco, para o Nomura. Ao longo da carreira, passou pelas áreas de Trading e Sales de Fixed Income, Currency, Commodities & Equities, estando atualmente no lado de Investment Banking, responsável por Portugal e focado sobretudo em operações de M&A e Structured Finance. Antes de se mudar para Londres em 2007, trabalhou ainda no Banco Espírito Santo (BES), em Lisboa.

“A queda do Lehman, bem como todo o período à volta dessa data, foi um momento único na história do sistema financeiro, o qual acompanhei de muito perto”, conta. “Por essa altura, tinha ido trabalhar para Londres há pouco tempo (em finais de 2007), mas, curiosamente, nesse dia estava a trabalhar a partir de Lisboa. Recordo-me perfeitamente de ter ido para o escritório da UBS na Rua Barata Salgueiro ainda de madrugada, pois não se sabia muito bem o que se iria passar após o anúncio que a Lehman tinha ido para chapter 11. O dia foi passado a olhar para os ecrãs da Bloomberg a ver o mercado a ‘derreter’ e a falar com os traders em Londres para acompanhar mais de perto a situação”, relata.

Vasco Bouça admite que, apesar dos indícios que se faziam sentir no mercado, não esperava a falência, mas sim alguma forma de bailout. “A decisão tomada, de deixar cair o banco, teve, de facto, e à escala global, um impacto devastador no mercado financeiro”, diz, considerando que todo o sistema esteve à beira do colapso com o sentimento de pânico a tomar conta do mercado.

Além da queda do Lehman Brothers, outros acontecimentos dramáticos se juntaram, incluindo a venda da Merrill Lynch ao Bank of America ou as intervenções na Fannie Mae, Fredie Mac, AIG, entre outros. “Ao longo da minha carreira profissional, já assisti a várias situações de stresse mas, obviamente, nenhuma da magnitude da queda do Lehman”, afirma Bouça, acrescentando que o período foi “super interessante do ponto de vista da experiência profissional”.

Na altura, a grande maioria dos profissionais no mercado nunca tinha passado por uma crise profunda (a média de idades na City e Wall Street era inferior a 30 anos) e não tinham experiência que lhes permitisse lidar com movimentos de mercado tão extremos, nem com uma situação de crise tão profunda.

Ao longo de 2008, o português recorda diversas rondas de despedimentos em vários bancos de investimento em Londres e Nova Iorque, “obviamente um motivo de stresse acrescido”. Um colega em Londres chegou a colocar, ao lado da secretária, um recorte da fotografia da criança do filme “O Sexto Sentido”, com a famosa frase “I see dead people”. “Uma forma de humor muito peculiar para lidar com os contínuos despedimentos no banco”, conta.

As aquisições dos sistemas e equipas do Lehman Brothers por parte do Barclays e do Nomura não conseguiram salvaram todos os 25 mil trabalhadores do banco, mas – de um lado e de outro – parte transitou para as novas unidades.

Quem resistiu ao crash foi, inevitavelmente, afetado pelo que aconteceu. “Banqueiros mais seniores dentro das instituições têm hoje em dia individual liability, nomeadamente através de compensation claw backs em relação à performance do banco, o que permite um maior alinhamento de interesses do ponto de vista da gestão e da tomada de risco”, explicou Vasco Bouça.

As alterações não são de estranhar, já que todo o setor sofreu uma transformação profunda após o caso Lehman. As instituições aumentaram o investimento em controlo interno de riscos e compliance, à medida que a regulamentação se tornou mais apertada, com leis como a Dodd-Franck e a Volcker Rule nos EUA, ou a MIFID II e a Basileia III na Europa. Os bancos passaram a ser obrigados a deter mais capital para o mesmo nível de risco, bem como a reduzir ou separar por completo as atividades que traziam um nível de risco mais agressivo para os balanços.

“Penso que ainda há marcas do colapso. Quem passou por esse período dificilmente o vai esquecer. Dito isto, há hoje toda uma geração de pessoas mais novas que só conhece a falência do Lehman pelo que leu ou estudou na escola, e que pode ter alguma tentação em cometer os erros do passado. Só como ponto de referência, existem hoje grandes bancos de investimento onde quase 70% dos empregados são millenials. Cabe aqui um papel importante ao regulador, no sentido de conter possíveis tentações”, realça Vasco Bouça.

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