As melhores empresas familiares preservam os atributos virtuosos tradicionais e atingem, ao mesmo tempo, níveis de profissionalismo de multinacionais cotadas. O seu caráter familiar já só se sente onde os acionistas querem, normalmente nos atributos do legado das gerações anteriores, no ethos da Família ou na projeção do apelido como uma marca que lubrifica o desenvolvimento do negócio pelo reforço da sua reputação e exclusividade.
Quando entramos no universo do tal grupo de médias empresas somos atingidos por uma realidade muito diferente. Esforçam-se para se projetarem como uma grande empresa com entrevistas onde tudo reluz, brilhantes apresentações em encontros profissionais ou, sobretudo, websites muito bonitos – mas sempre com a mesma informação genérica…
– Quem somos, que normalmente diz pouco ou nada
– A missão, a visão e objetivos estratégicos, em geral muito genéricos
– A presença internacional, o típico mapa mundo com bolinhas espalhadas
– Os modelos de governance e organização, bonitos mas superficiais
– E, às vezes, uns indicadores financeiros ou compromisso de sustentabilidade
Depois temos os prémios, uma verdadeira praga. Todos os anos crescem como cogumelos os eventos profissionais debaixo dum inesgotável caudal de temas, destacando-se as cerimónias onde se distribuem a empresários dezenas de prémios. Salvo as raras exceções que têm história, valor e que muito respeitamos, a ridícula proliferação destes prémios faz lembrar as notas de marcos alemães na república de Weimar.
Mas o empresário da média empresa adora subir ao palco, receber o prémio e a ovação e tirar a foto da praxe com os anfitriões. E, no dia seguinte, coloca orgulhosamente a escultura de pespex na sala de reuniões principal, ao lado das outras 37 esculturas e medalhas como se fossem troféus de caça na sala de jantar da sua casa de campo.
Há décadas que me relaciono com médias empresas em Portugal. E se muitas até são boas empresas, rentáveis, bem geridas, agressivas no mercado, guardo da maioria a imagem de empresários com uma cultura que não evoluiu, satisfeitos com coisas insignificantes e cegos ou avessos ao que realmente importa. O enorme fosso na intensidade de operações de concentração em Portugal face a Espanha é um dos melhores reflexos desta mentalidade, porque um concorrente é um inimigo e nunca um potencial parceiro.
E quando alguém como a ARBORIS bate à porta? As chamadas ou emails não têm resposta, nem que se repitam cinco vezes ao longo de três anos. E quem acede a um encontro não é para ouvir é para falar, aproveitar estar ali com alguém de fora que parece influente e vender as maravilhas do trabalho que está a ser feito e as qualidades do líder. Não lhe interessa falar nos problemas, em questões fora do seu guião e muito menos reconhecer o apoio de quem está à sua frente: “ Já viu que estamos muito bem, não precisamos de nada.”
Este comportamento é, de facto, típico das nossas empresas industriais tradicionais e, quando olhamos atrás do espelho, vemos claramente uma cultura atrasada e atrofiada. Uma cultura marcada por uma mentalidade conservadora, fechada e antiquada que inibe a concretização do potencial de desenvolvimento, de modernização e de criação de valor da empresa.
Uma cultura marcada por estreiteza de visão, arrogância e vaidade estéril que escondem complexos de provincianismo e falta de mundo. Uma cultura dominada pela insegurança, indecisão, falta de visão e de ambição, medo da mudança e um apego doentio ao congelador onde coloca as suas crenças, as suas pessoas e a sua empresa.
Há anos que a ABRP tem como um dos seus vetores promover a escala através da fusão de empresas e o alvo evidente são as médias empresas. Um esforço fantástico dos maiores empresários portugueses, mas sem resultado. Estas médias empresas não se mexem para ninguém, muito menos para acelerar o crescimento ou entrar numa fusão com os tais detestados concorrentes.
Se as empresas de média dimensão são as que mais peso têm no tecido das empresas familiares em Portugal e, teoricamente, um maior potencial de dar escala ao tecido empresarial, se estas empresas deram provas de longevidade e sucessão virtuosa, bases acionistas sólidas e estáveis, competitividade e internacionalização… o que não seriam se os seus líderes fossem abertos, humildes, autoconfiantes, ambiciosos, visionários e com um espírito moderno.
E algumas estão nesse caminho – as lideradas pela nova geração, pessoas abertas, autoconfiantes, ambiciosas, visionárias e com um mundo que os pais não quiseram ter. Hoje, são só alguns, mas quando dominarem as médias empresas que ainda sobrarem, aí sim, vamos poder ver a revolução que os acionistas, empregados, clientes e fornecedores dessas empresas merecem.