Dos militares aos programadores Como a Base das Lajes se está a tornar ‘tech’

A Ilha Terceira quer sarar as feridas da saída dos militares norte-americanos e transformar-se num hub tecnológico, atrair empresas e formar programadores para criar e reter talentos.

A Alyssa, o Josh e o Jacob viveram e estudaram no bairro americano da vila das Lajes, nos Açores. As três crianças saíram da Base Aérea nº 4 (BA4) com as famílias, mas deixaram os nomes pintados a amarelo na escola e creche que frequentaram durante os anos em que a força militar dos Estados Unidos (EUA) trazia dinamismo e recursos financeiros ao arquipélago. Os desenhos das três crianças ainda se vislumbram atrás de uma planta feita pelo engenheiro Vasco Costa, o responsável pelo desenho do maior projeto tecnológico do governo açoriano nos últimos anos.

Trata-se do plano de construção do futuro polo empresarial da Praia da Vitória, na ilha Terceira, um centro com capacidade para acolher 22 organizações e mil  postos de trabalho, no âmbito da Terceira Tech Island, o programa de desenvolvimento económico que pretende fazer da ilha um centro tecnológico (hub). “Vamos reabilitar 5.200 metros quadrados, 135 moradias e esperamos que o ecossistema à volta se desenvolvida”, conta o engenheiro.

Além destas crianças, houve dezenas de alunos e professores norte-americanos que, antes de abandonar o bairro, entre 2015 e 2017, eternizaram a sua presença com a marca das mãos a tinta. No edifício onde hoje há apenas entulho, placas bilingues e memórias, ainda se consegue ler uma mensagem de despedida (e de esperança no regresso): “Goodbye, Lajes. See you later” (“Adeus, Lajes. Até logo”). Por enquanto, ainda ninguém regressou, mas o intuito dos líderes açorianos é atrair, criar e reter talentos para a ilha. Desde que a Base das Lajes arrumou a farda e as botas pesadas – e que a ‘torneira’ dos EUA se fechou (um veículo de financiamento significativo das infraestruturas da ilha e do arquipélago) –, o governo regional tem procurado contrariar o saudosismo, embrenhando-se em estabelecer metas para minorar o impacto da redução militar norte-americana na base, onde agora pouco se ouve além do som do mar. O novo projeto prevê ceder aos futuros ‘cérebros’ e investidores um espaço para trabalharem e um condomínio privado com 300 vivendas, por exemplo. O pavilhão desportivo onde antes se torcia pelos ‘Falcons’ é uma das zonas da escola que se mantém praticamente intacta. A requalificação transformá-la-á num ginásio para os trabalhadores.

A Terceira Tech Island está assente maioritariamente em três pilares: disponibilização de recursos humanos qualificados; concessão de infraestruturas para fixação de empresas e apoios ao investimento ou incentivos fiscais, como por exemplo o já conhecido sistema de incentivos ao investimento com apoios não reembolsáveis de 45% a 65% do investimento elegível, consoante a dimensão da empresa, ou o diferencial fiscal favorável na ordem dos 20% em relação ao restante território português em sede de IRC, IRS e IVA.

Sérgio Rocha de Ávila, vice-presidente do governo regional dos Açores, disse ao Jornal Económico que realizar-se-ão diversas intervenções nas habitações e naquela escola da vila das Lajes, numa requalificação implicará um investimento superior a três milhões de euros. “O processo de adjudicação da primeira fase das casas, provavelmente, ainda avançará este mês. As casas vão ser adaptadas às redes portuguesas, porque têm uma rede elétrica americana, uma rede de saneamento de águas ligada à base”, explica o governante.

Entrámos nas moradias que antes pertenciam às famílias dos militares do outro lado do Atlântico e, à primeira vista, só lhes faltava mobília. Ao contrário da escola, as residências não espelham o abandono: garagem, dois quartos, sala e cozinha separadas por um balcão e ‘casa das máquinas’ à americana no andar de cima. “Quanto ao edifício escolar, neste momento, estão em análise as propostas das construtoras que concorreram para a adaptação”, acrescentou o porta-voz do executivo regional. Tibério Faria Dinis, presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória, refere ao jornal que só em saneamento e rede de água o investimento será de cerca de dois milhões de euros.

Segundo a informação do governo dos Açores, à parte as sete já estabelecidas (Glintt, Code for All, Bool, Bing, Acin, Connexall e Bionergy), estão a ser estabelecidos mais dez contactos com empresas nacionais e internacionais que mostraram vontade de se instalarem no hub Terceira Tech Island. “Enquanto a requalificação não fica completa, temos uma resposta alternativa para elas [empresas]. A questão que agora se coloca tem a ver com os recursos humanos que estão a ser formados. Temos um objetivo claro de ter 200 programadores formados até ao final do próximo ano”, refere Sérgio Rocha de Ávila.

Uma das alternativas é a incubadora local Praia Links, um co-work onde estão instaladas 30 empresas (cinco tecnológicas e 25 de outras áreas). Desse grupo consta a Bring – Hundop, uma multinacional prestadora de serviços de consultoria informática e customer experience, que assentou arraiais provisórios no antigo gabinete do vereador Tiago Ormonde, que se mudou para outra sala em prol do tecido empresarial. A multinacional emprega cinco pessoas nos Açores, sendo que a última contratação foi o programador Miguel Faria, de 29 anos, quem acompanhámos no primeiro dia de trabalho. Aos jornalistas, Miguel contou que a sua primeira área de atividade foi Meteorologia Aeronáutica e que encontrou nos cursos de formação de código na Terceira uma forma de combater o desemprego e de se desenvolver a nível pessoal e profissional.

Academia de Código vai formar 200 programadores

Rodrigo Duarte licenciou-se em Gestão de Sistemas de Informação no Instituto Politécnico de Setúbal, em 2010. Após sete anos em funções numa empresa com operação nos Açores, deparou-se com uma situação de desemprego e decidiu inscrever-se no primeiro bootcamp (curso intensivo) de programação nos Açores, em outubro do ano passado. Nunca tinha aprendido a programar até então, mas hoje em dia plataformas como o Angular ou o React já fazem parte da sua rotina. Findada a primeira edição, lecionou a segunda e agora é um dos responsáveis (leia-se: «mastercoder») pelo terceiro curso promovido pela startup Academia de Código, que está a decorrer.

“Os americanos ao longo do tempo começaram a ir embora e deixaram inúmeros recursos que pertencem ao Estado português. Eram um grande peso económico, consumiam em restauração, habitação”, conta Rodrigo Duarte ao semanário. O formador da Academia de Código, uma empresa made in Startup Lisboa, lembra que chegada desta iniciativa à ilha surge no âmbito de uma parceria entre o governo regional e a Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores (SDEA) “para colmatar esse downsizing e a grande falta de programadores”. “Existem as condições certas aqui. Daí querermos aumentar o número de alunos por bootcamp. Em princípio, em janeiro ou fevereiro já deverão ser 40 formandos por turma em vez dos 20”, afirma.

Em frente à sede do município da Praia da Vitória, na Praça Francisco Ornelas da Câmara, está instalado um dos três espaços onde se realizam as aulas de programação. Da incubadora Praia Links a este local de formações não se percorrem mais do que 350 metros a pé, num trajeto onde a tradição e a poesia parecem contrastar com o futuro da ilha. Os azulejos recuperam poemas de Antero de Quental e uma confissão de Natália Correia (“Eu sou dos Açores relativamente naquilo que tenho de basalto e flores” – in “Autogénese”) e ignoram a chegada da digitalização. Ao longo deste caminho ainda passamos por um “loja do cidadão virada para o investimento”, o gabinete de apoio ao comércio tradicional, que funciona também como um ‘SOS investidor’. Mal chegamos ao berço destes jovens programadores percebemos que foi pensado ao pormenor e que cumpre todos os clichés do ecossistema empreendedor: computadores, post-its coloridos dispersos pelas paredes, quadros de ardósia e piscinas de bolas, seguindo à risca o padrão da Google ou do primeiro unicórnio português, a Farfetch.

Atualmente contabilizam-se 40 programadores formados na Academia de Código da Terceira. Contudo, o governo regional dos Açores tem um objetivo concreto e alargado, que passa por formar duas centenas de programadores até dezembro de 2019. Só desta forma se poderá tirar o pó às antigas casas dos militares, conquistar mais empresas e dar vida às ruas (ainda) desertas da base.

De acordo com o líder do executivo açoriano, Vasco Cordeiro, em 2015 – ano em que a escola de Alyssa, Josh e Jacob fechou portas e ano em que o Plano de Revitalização Económica da Ilha Terceira foi apresentado –, o PIB da ilha cresceu “acima da média regional” (6%). Os dados provisórios relativos a 2016 apontam para um valor de riqueza criada na ordem dos 866 milhões de euros, de acordo como os números apresentados recentemente pelo dirigente político à imprensa.

Altice interessada na Terceira. Glintt já se instalou de vez

A Glintt – Global Intelligence Technologies formalizou no início de setembro o início das suas operações físicas nos Açores, com a inauguração de uma nova empresa na Praia da Vitória, com 15 pessoas no local (12 formados pelo programa regional de retenção de talentos e três colaboradores que transitam de outras áreas da multinacional).

A Altice Portugal é outra das grandes empresas interessadas em instalar um polo da AlticeLabs na ilha, um laboratório corporativo para startups focado nos segmentos científico e tecnológico. Há cerca de quatro meses, a ‘telecom’ assinou um memorando que marcou o primeiro passo dessa intenção de ambas as partes. Ao jornal, a Altice explicou que o pré-acordo ainda não se pode chamar ‘primeira pedra’, tendo em conta que ainda continua a avaliar as condições dessa hipótese de investimento. Porém, a mesma fonte salientou que será difícil, neste momento, haver um travão à aposta na região. Há uma certeza: a empresa está a atenta ao arquipélago das “vacas felizes”, uma vez que ainda esta semana celebrou um protocolo com a Associação do Alojamento Local dos Açores para apoiar o desenvolvimento e a digitalização do turismo. Resta saber se é caso para dizer: «Goodbye, Lajes. See you later».

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