Draghi dá tiro de partida para retirar estímulos mas pode adiar anúncio para julho

O curso do programa de compra de ativos pelo BCE está planeado apenas até setembro e os investidores davam como certo que novos passos iriam ser anunciados esta quinta-feira. No entanto, a instabilidade do bloco leva a que os analistas não excluam a hipótese de Mario Draghi esperar por julho.

Axel Schmidt/Reuters

O Banco Central Europeu (BCE) já anunciou que esta é a semana em que irá discutir o fim do programa de compra de ativos. A importância do momento leva, por isso, a que as atenções dos mercados estejam em Mario Draghi. No entanto, a inflação, a desaceleração da economia e a situação em Itália são vistas como razões para que o presidente da instituição possa adiar um anúncio dos detalhes do processo para julho.

A decorrer desde março de 2015, a compra de ativos – quantitative easing (QE) – foi usada pelo BCE para estimular as economias da zona euro durante a crise e foi essencial para a manutenção de baixos custos de financiamento dos Estados. O programa decorre atualmente, e até setembro, a um ritmo de 30 mil milhões de euros mensais, pelo que os analistas passaram o ano a antecipar receber em junho novas informações sobre o curso da política monetária europeia.

O economista-chefe do ING na Alemanha, Carsten Brzeski considera que esta será “uma reunião entusiasmante”, mas considera que o BCE não irá “abdicar da flexibilidade e espaço de manobra do QE numa situação em que os riscos para o outlook económico aumentaram e os riscos políticos (quer seja em Itália ou mais tarde este ano do Brexit) poderão facilmente reemergir”.

Franck Dixmier, global head of fixed income da Allianz Global Investors, concorda e diz esperar que o conselho de governadores do BCE adote um tom mais cauteloso”. Ambos esperam que Draghi anuncie, apenas na reunião de julho, uma extensão do programa, a um ritmo mais reduzido, a partir de setembro e até dezembro deste ano.

Discussão marcada por momento menos favorável

Mesmo que o BCE espere para anunciar os pormenores do fim dos estímulos, certo é que os irá debater. Na semana passada, o economista-chefe da instituição, Peter Praet, garantiu que “o Conselho de Governadores terá de avaliar se o progresso até agora é suficiente para justificar um desfazer gradual das nossa compras líquidas”.

“Ao fazer essa avaliação, vamos considerar a força subjacente da economia da zona euro e o impacto na formação de salários e preços”, explicou.

A desaceleração económica e a inflação são exatamente duas das principais razões apontadas pelos analistas para que o BCE decida esperar. Os mais recentes indicadores económicos confirmaram a desaceleração do crescimento da zona euro no segundo trimestre, para o ritmo mais mais lento dos últimos dois anos.

Quanto à inflação, apesar da inesperada recuperação em maio (com uma subida homóloga de 1,9% na inflação geral e de 1,3% na subjacente), a tendência deveu-se principalmente ao forte aumento nos preços de energia. “Provavelmente, isso fará com que o BCE, cuja credibilidade tem sido afetada pela inflação estruturalmente baixa nos últimos anos, mantenha esses números em perspectiva”, disse Dixmier.

Itália continua a centrar atenções e não será ignorada

Mario Draghi, tal como os antecessores, não comenta os governos dos Estados-membros da UE, mas será inevitável que a situação política em Itália pese na reunião do BCE. Três meses depois das eleições, Itália conseguiu, na semana passada, que fosse formado um governo liderado por Giuseppe Conte.

O primeiro-ministro italiano, que não está ligado a nenhum partido, é professor de Direito e irá liderar uma coligação, formada pelo Movimento 5 Estrelas (M5E, antissistema) e a Liga Norte (direita radical). As negociações com o presidente Sergio Mattarella levaram a vários sustos e, consequentes, subidas nos juros das dívidas soberanas da periferia da zona euro.

Apesar do alívio na instabilidade, a coligação, que conta com uma maioria de dez votos no Senado e ainda maior no Congresso dos Deputados, não trouxe total tranquilidade aos mercados.

“A UE enfrenta uma ameaça extremamente séria de confronto entre o novo governo de coligação italiano e as autoridades europeias sobre os temas disciplina orçamental e cumprimento das regras comunitárias. Espera-se que o BCE se abstenha de fazer comentários nesta fase. Porém, se as tendências de mercado ameaçarem a estabilidade financeira dentro da UE, o que ainda não aconteceu, os investidores irão, sem dúvida, escrutinar as reações do BCE”, acrescentou Dixmier.

Brzeski, do ING Alemanha, aponta ainda para o impacto das movimentações no mercado cambial nas decisões do banco central. “Talvez um resultado irónico das tensões do mercado com Itália seja que o euro mais fraco torne mais fácil aprofundar o QE tapering“, referiu. “No entanto não consideramos que já haja um acordo sobre timing e detalhes da comunicação”.