Ebury: “Nos últimos anos, a moeda mexe por política e não macroeconomia”

Especialistas em câmbio, o diretor geral e o responsável pelo escritório da ‘fintech’ Ebury em Portugal falam da “irracionalidade” atual no mercado global. Em entrevista ao Jornal Económico, explicam que moedas a que as empresas portuguesas estão muito expostas – como a brasileira, angolana ou moçambicana – continuarão voláteis.

Petar Kujundzic/Reuters
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Há três anos em Portugal, o volume de negócio da fintech de câmbio Ebury cresceu 200% no mercado nacional, no último ano fiscal, que termina no final em abril, e duplicou o número de clientes. Em entrevista ao Jornal Económico, Duarte Líbano Monteiro, diretor geral da Ebury, e David Brito, responsável de vendas para Portugal, explicam que o objetivo é continuar a expandir a empresa, com presença em 15 países.

Numa altura em que vêem o mercado cambial como “irracional” e a ser regido por questões políticas, mais que por fundamentos macroeconómicos, não esperam que a tendência se altere proximamente.

A guerra comercial lançada pelos EUA tem sido o tema do momento. Como é que estão a ver esta questão e qual é o impacto que esperam no euro?

Duarte Líbano Monteiro (DLM): Consideramos que o dólar está demasiado desvalorizado, mas o mercado tem estado irracional por isso é que é importante ajudar as empresas a protegerem as margens. Porque é que eu digo que está irracional? De cada vez que as taxas de juro subiam, havia uma valorização da moeda, macroeconomicamente falando porque significa que a inflação está a crescer, a economia está a crescer e a moeda vai valorizar face aos outros países. Na última subida das taxas de juro dos Estados Unidos, a moeda desvalorizou. Não no momento, mas se olharmos três dias à frente, desvalorizou.

Não é normal, o mercado está muito irracional e a macroeconomia já não está a ser aplicada como antes. Porque há um comentário de um Donald Trump sobre a entrada de tarifas face a outros países ou outras variáveis que entram na equação e que fazem com a moeda desvalorize. Se falássemos macroeconomicamente, o dólar deveria valorizar em torno de entre 1,15 e 1,16 e está próximo de 1,23. Mas não conseguimos controlar irracionalidades portanto o que dizemos aos nossos clientes é que há uma operação, na qual têm margem e têm de a proteger.

Duarte Líbano Monteiro (Diretor Ibérico da Ebury)

Como é que as empresas protegem as margens?

Um cliente importador que tenha de comprar na China, normalmente paga em dólares. Entre o momento em que compro e recebo a mercadoria podem ir 60 ou 90 dias e pode perder toda a margem se desvalorizar ou ganhar mais se houve valorização. O que a Ebury faz é ajudar as empresas a fixarem, portanto o cliente sabe o que vai pagar dentro de 60 ou 90 dias. Se o cliente quer especular, eu não me meto… Mas isso pode matar uma empresa.

Há outra questão ainda. Com esta instabilidade do euro / dólar, porque não pagar diretamente em renminbi? Aí ainda poupa mais porque o cliente português vai sempre gastar em euros.

Ao contrário, também acontece muito com as empresas portuguesas que exportam para o Brasil. A volatilidade do Brasil é uma aventura… É um problema. Uma empresa portuguesa exporta e vai receber dentro de 60 ou 90 dias e pode haver uma desvalorização de 20% no real brasileiro, o que não seria nada de anormal. Portanto a venda foi feita com uma margem de 10 e foi feita em euros, portanto não há problema. Mas o brasileiro não vai conseguir pagar porque em vez de 10, tem de pagar 12 em reais. Essa desvalorização mata as relações porque cria atrasos nos pagamentos. Se um português protege a margem ao faturar em reais, tem de fazer a fixação ao contrário. É este tipo de negócio que nós fazemos e que é essencial para as pequenas e médias empresas (PME).

Daí o vosso foco nas PME…

Sim. As grandes empresas não precisam disso porque fazem um orçamento e têm o câmbio fixado para o ano todo.

David Brito (DB): A maioria das PME faz o orçamento, mas não o fixa. Pode correr bem, mas pode ser exatamente o contrário e os clientes reconhecem que dá uma tranquilidade diferente.

DLM: Acima de tudo, nós temos três coisas essenciais. O serviço, que é especializado, enquanto o banco tem tudo, mas a especialização é o crédito. A nossa é a moeda. O segundo é o spread, que é muito diferente da banca. Não só não tenho comissões de transferências, como a margem é muito inferior porque temos tecnologia que nos permite ter custos fixos muito baixos. E depois, transacionamos 10 mil milhões de euros por ano, o que permite alguma negociação com os fornecedores de liquidez e conseguir margens muito boas. A terceira parte é que temos 140 moedas, o que permite ao cliente pensar de outra maneira. Na Europa, as pessoas foram educadas a pensar só no euro, libra, dólar e, de vez em quando, ienes. Não é assim que se transicional a nível mundial. China, Noruega, África do Sul, México… São moedas enormes.

DB: Há muito receio entre os clientes. Pensam sempre em receber em euros, mas há instrumentos que permitem que o cliente venda em peso mexicano e consiga melhores contratos. O que interessa é o que vai receber.

DLM: No caso de um Governo, que vai lançar um concurso de obras públicas. Os custos do dia-a-dia são na moeda local… Para retirar o risco de taxa de câmbio, o mais fácil é negociar na moeda local. Para uma PME que quer expandir para um país como o México, até pode fazer a oferta nas três moedas: euro, dólar e peso mexicano. Só assim é que pode concorrer com os locais.

Que empresas portuguesas beneficiam com a desvalorização do dólar?

DB: As importadoras estão a esfregar as mãos neste momento porque estão a ganhar muito mais…

DLM: Quando as exportadoras perdem, as importadoras ganham. Se fizermos uma análise de longo prazo, a 20 anos, o saldo acaba por ser zero porque, sem fixação, uns anos ganha-se e outros perde-se. O problema é se a não fixação acaba com o negócio. Se há uma exposição de 5% a moeda estrangeira, não deve haver problema. Mas com a tendência de globalização e com a crise, há uma exposição cada vez maior e com 20% já é um problema. Com a crise, houve muitas PME que faliram porque causa disto. Por isso é que queremos proteger a margem todos os anos, não é ano sim e ano não.

Pode voltar a acontecer que um grande volume de empresas portuguesas volte a falir por causa de desvalorizações cambiais?

DLM: Com a crise, houve um grande volume de empresas que começou a expandir para países não naturais, ou seja, fora do Reino Unido, Brasil, Angola… De repente, o português está no Dubai ou Colômbia porque teve de procurar economias que estavam a crescer. Agora que já tem essa exposição, não a quer perder e isso diversificou muito o risco. Além do que define a empresa é a capacidade do negócio.

Qual é a vossa expetativa para a libra?

A libra desvalorizou nos últimos 12 meses, 4%, o que não é muito, mas já vinha com um grande impacto do Brexit. Estamos a entrar em política… Falou-se num Brexit duro, entretanto já não, mudou o presidente em França, mudou o governo italiano… Dizem que a decisão está mais ou menos tomada. Neste ponto há dois cenários: há quem diga que a economia vai crescer porque sendo pessoas locais, a mão-de-obra é mais cara portanto aumenta o poder de compra e há mais emprego, mas também o contrário que é impacto da ligação com a Europa. O natural seria continuar com uma forte relação com a Europa, mas passa a ser mais caro devido à desvalorização face à libra. A grande pergunta é qual vai ser o impacto do Brexit na exposição que o Reino Unido tem com a Europa. Para que lado é que vai a balança… não sei.

David Brito (Head of Sales da Ebury Portugal)

DB: O que temos visto é a libra a ser guiada por notícias políticas. Acordamos e fala-se num Brexit mais hard, a libra desvaloriza ou o contrário. Tem sido muito político, tanto na libra como no dólar, curiosamente…

Falam de um dólar irracional, de uma libra política. O mercado cambial vai começar a ignorar completamente a política ou vai passar a ser determinado pela política em vez da economia?

Estamos em situações únicas: o Brexit é uma questão que nunca tínhamos experimentado e o presidente dos EUA também. Portanto estamos numa fase em que os eventos políticos têm cada vez mais força. A Europa não sabia quais os passos seguintes, portanto também é normal que os mercados estejam a olhar tanto para aí.

DLM: Nos últimos dois anos, a moeda mexe por política, não é por macroeconomia. Mas a  política faz parte da macroeconomia. Mas separando as duas coisas, mexe mais por um comentário ou uma entrevista do que pelo crescimento económico. Mas para ter impacto, tem de ser uma coisa forte. Itália e Catalunha não tiveram impacto porque não houve nenhuma novidade.

Trabalham com 140 moedas. Além do euro, dólar e libra. Sobre quais é que estão mais positivos e negativos?

DB: O mercado português está essencialmente preocupado com o real brasileiro, que está intimamente ligado aos problemas de corrupção e, agora, às eleições no Brasil. Neste momento, o real está a desvalorizar bastante. Temos muitos clientes expostos e é algo que preocupa porque vai ser uma moeda quente este ano devido a todo o processo eleitoral. Mais uma vez, é tudo muito político porque estão a fazer uma grande limpeza no país e ainda não se sabe bem o que vai acontecer, mas a moeda está super volátil.

E entre as moedas africanas?

Depois temos as moedas africanas, que ainda temos pouca ajuda na venda porque são moedas com pouca liquidez. No kwanza de Angola, temos tido pouca exposição porque houve uma grande diminuição das empresas portuguesas. A crise das divisas em Angola também é muito política…

DLM: Temos alguns clientes que conseguem tirar fundos, de setores prioritários como a alimentação e a medicação, mas são só esses. Depois há os leilões do banco central e eles ganham sempre porque são setores limitados que, se não fosse assim, não entrava comida nem medicamentos no país. Mas mais tarde ou mais cedo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) vai ter de entrar no país.

A situação é a mesma com o metical moçambicano?

DB: Em Moçambique, a situação não é tão dramática como em Angola, mas também não é algo fácil. Os clientes também tido dificuldades em tirar fundos. Houve uma altura em que vimos a crescer, mas nos últimos tempos também tem diminuído.

Sobre a exposição do mercado português, fazendo uma ordem de grandeza temos o euro, dólar e libra naturalmente. Depois o iene e o renminbi em substituição ao dólar. Em termos de países mais diferenciados, fora do G10, temos o real brasileiro, o peso mexicano e os AED dos Emirados Árabes Unidos. Depois há outras mais amiúde… Por exemplo, empresas tecnológicas têm muita exposição ao dólar de Singapura.

Outro tema incontornável do mercado cambial são as criptomoedas. A Ebury tem tido uma certa aversão a este setor. Porquê?

DLM: A aversão às criptomoedas é só uma. Eu não tenho licença para especular… Se tiver um cliente a fazê-lo, tenho de o deixar, portanto nós não entramos em moedas que, na nossa opinião, são especulação pura e dura. Há muitas empresas que estão envolvidas com inicial coin offerings (ICO) com ideias muito boas e que nos procuram, mas que automaticamente recusamos só porque têm uma relação com criptomoedas. Talvez estejamos a fazer mal.

O fundamento do Blockchain está bem pensado, agora o que não pode acontecer é qualquer empresa dizer que faz uma ICO e valer dez vezes mais. Bastava a Ebury lançar uma EburyCoin que ia valorizar a empresa brutalmente. Tenho a certeza porque já vi várias a fazerem isso, mas até que ponto é que isso é questionável? É uma especulação e o regulador está a fazer um bom trabalho nesse campo, a alertar para que as pessoas não se metam porque há muita gente a pôr dinheiro de forma irracional.

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