Na semana passada, houve algumas eleições nos EUA, em que os Democratas tiveram bons resultados, geralmente melhores do que o esperado, o que é promissor para os próximos sufrágios eleitorais.

Como é evidente, o que os europeus pensam sobre isso não influencia o que se passa do outro lado do Atlântico, mas será útil avaliar o que se passa e o que se antecipa na perspectiva da Europa e não tanto das nossas preferências políticas pessoais.

Se, nas eleições presidenciais de 2028, o candidato republicano for derrotado, isso significará, desde logo, que Trump não conseguiu destruir a democracia nos EUA, e a loucura dos quatro anos precedentes poderá ser reavaliada como um surto temporário e poderemos aspirar a ter os EUA a regressar a políticas semelhantes aos últimos oitenta anos, em que se poderá voltar a confiar nos compromissos assumidos e nas alianças das últimas décadas. Mas se voltarmos a ter um presidente oriundo do partido republicano, é muito provável que a nossa relação transatlântica se degrade e o mundo não possa voltar a contar com, apesar dos pesares, uma liderança americana digna.

Para a Europa, uma vitória democrata daqui a três anos deverá significar que o compromisso de aumento irracional dos gastos em defesa poderá ser repensado. É evidente que os EUA não continuarão a contribuir como anteriormente para a NATO e que os orçamentos europeus em segurança terão que subir, mas as metas exigidas por Trump são excessivas, tanto assim que nem os norte-americanos as cumprem.

A Reserva Federal dos EUA deverá retomar a sua independência em pleno e o dólar poderá recuperar o seu papel líder. Desenganem-se os que pensam que o euro tem condições para ganhar com o auto-golo da destruição da confiança na divisa americana, porque o maior risco é deixar de haver uma divisa com as actuais funções do dólar, e termos uma fragmentação mundial. Para além de que o euro “ganhar” é sinónimo de valorização excessiva, o que retirará competitividade às exportações da zona euro, com o concomitante enfraquecimento do crescimento. Seria uma péssima notícia para aquela que já é hoje a mais anémica zona económica do mundo.

Um presidente democrata também deverá trazer uma redução das actuais tarifas absurdas, que tanto prejuízo e confusão trouxeram à UE e ao resto do mundo.

O aquecimento global também terá muito a agradecer ao regresso dos EUA ao empenho para o contrariar.

As democracias ficarão gratas pelo fim de apoios aos regimes anti-democráticos que estão em crescimento um pouco pelo mundo. Enfim, a lista poderia continuar, mas fico-me por aqui.

Como nota final, dirigida à direita europeia (e portuguesa, em particular), amiga do partido republicano dos EUA: por mais que não gostem de algumas das políticas democratas, um novo presidente republicano seria péssimo para a Europa, porque deverá matar qualquer réstia de esperança no nosso antigo aliado.