El País classifica Horta Osório como o “samurai da City”

Jornal espanhol dedicou uma reportagem ao português que conseguiu que o Lloyds, nacionalizado na crise do subprime, voltasse a ser totalmente privado, tendo devolvido todo o dinheiro dos contribuintes injectado na crise.

O jornal espanhol dedicou a edição de fim de semana ao emblemático banqueiro português António Horta-Osório, atual presidente do Lloyds Bank.

O El País publica uma vasta reportagem sobre o dia-a-dia do presidente português do banco britânico e o seu percurso como banqueiro. O homem que conseguiu que o Lloyds, nacionalizado aquando da crise do subprime, voltasse a ser totalmente privado, tendo devolvido ao Estado inglês todo o dinheiro dos contribuintes injectado na crise, é apelidado de “samurai da City”.

O título é aliás sugestivo: “António Horta-Osório, o samurai da City volta a reinar”.

Quem o conhece sabe que o segredo de António Horta-Osório é o ser totalmente empenhado e absolutamente focado na sua gestão e no contexto circundante que possa afectar o seu trabalho. António Horta-Osório não deixa nada ao acaso. Mas junta ao seu lado estratega a simplicidade dos inteligentes.

Há outro segredo do seu sucesso: transporta consigo os amigos e colaboradores de confiança. Por exemplo, levou consigo Eduardo Stock da Cunha para o banco em Londres, o amigo e ex-colega de administração do Santander em Portugal. O jornal espanhol cita no artigo o caso do espanhol Juan Colombás, de 55 anos, que é o atual diretor de operações do Lloyds, companheiro de batalhas desde a época de Santander, tendo chegado ao Lloyds pela mão Horta-Osório. O jornal diz que Colombás é um dos candidatos mais fortes para o suceder no futuro à frente do banco. Mas não são é só nos altos cargos que as pessoas de confiança representam um papel importante na sua vida. Na sua atividade de banqueiro da City, Horta-Osório vive em Chelsea, mas levou consigo o Artur, o chauffeur português de 62 de anos, que é um velho colaborador de confiança, segundo conta o El País.

O jornal espanhol começa assim a sua reportagem e perfil do banqueiro português: “O português António Horta-Osório era conhecido como o ‘Mourinho das finanças’. Foi o braço direito de Emílio e de Ana Botín durante quase 20 anos, até que aceitou o desafio de salvar o britânico Lloyds Bank da falência. Na tentativa, foi devorado pelo stress. Sofreu um grave episódio de “burn-out” e ninguém na City de Londres apostava no seu regresso. Mas recuperou, voltou e devolveu todo o dinheiro público usado no resgate da instituição financeira que preside. Hoje, passou da voracidade de tubarão à sabedoria de um guerreiro oriental e fala abertamente sobre um grande tabu entre as elites financeiras”. Promete.

“Vestido de fato escuro, gravata azul, o samurai da city termina o seu simples ritual matinal, diz adeus à sua mulher, Ana, e avança em direção ao BMW para mais um dia de trabalho no distrito financeiro da capital britânica” escreve o El País.

O jornal espanhol diz que a fogueira das vaidades portuguesa tem no lisboeta, de 53 anos, António Horta-Osório, um dos seus grandes protagonistas. “O seu sorriso de Hollywood, rosto alongado de pele cor de azeitona, coroado por um cabelo escuro sempre brilhante, representam a imagem viva do sucesso”, descreve o periódico. “Pela sua tenacidade, Horta-Osório é ainda conhecido como o Mourinho das finanças, mas o seu semblante esconde uma melancolia que não é tão evidente como o brilho da aparência. Batido, desde muito jovem, nos mercados financeiros internacionais, chegou ao Banco Santander de Emílio e Ana Botín com 29 anos, para pilotar com eles a expansão da marca espanhola em Portugal, Brasil e Reino Unido. Foi durante quase duas décadas um dos ‘golden boys’ de Don Emilio. Até que deu o salto há seis anos e meio para o Lloyds Bank, o principal banco da economia britânica que por via de ter sido intervencionado,  com uma injeção de 20 mil milhões de libras (mais de 22 mil milhões de euros) era detido em mais de 40% pelo Estado britânico.

A sua nomeação foi uma aposta do governo conservador de David Cameron que contou para isso com intermediação do então ministro, George Osborne, conta o El País. O presidente do banco recém-eleito prometeu na primavera de 2011 que devolveria todo o dinheiro dos contribuintes, investido no Lloyds durante o resgate da entidade fruto da crise financeira global.  António Horta-Osório cumpriu o prometido. Mas para o fazer esteve prestes a perder a vida na tentativa. O banqueiro português liderava então o Santander UK quando foi escolhido para recuperar o Llodys e devolver o dinheiro aos contribuintes britânicos. Dar a volta a situações adversas sempre foi a sua especialidade. Fez isso com o Abbey National, quando, a partir de agosto de 2006, capitaneou a consolidação de entidades sob a marca Santander UK em território britânico. Sob sua liderança e no meio da tempestade financeira global, a subsidiária do Santander no Reino Unido expandiu-se com as aquisições do banco Alliance & Leicester e das agências e depósitos do Bradford & Bingley.

António Horta-Osório, várias vezes eleito o melhor banqueiro do mundo pela revista Euromoney, foi o artífice das fusões e aquisições mais baladas das últimas décadas, diz o El País. O jornal não diz, mas entre elas está a tentativa de venda do Grupo Champalimaud ao Banco Santander de Emílio Botín (ao virar do século). Tentativa essa que depois acabou por sofrer alterações devido à oposição política que se levantou na sociedade portuguesa, liderada pelo então ministro das Finanças Sousa Franco, e com o apoio dos maiores banqueiros portugueses da altura. Acabou  espartilhado o grupo de António Champalimaud entre o Santander (Totta e CPP), o BCP (Sotto Mayor) e a CGD (Mundial-Confiança).

“Acostumado a ganhar sempre no xadrez e nas finanças, encontrou o primeiro cheiro de fracasso pouco depois para tomar as rédeas do Lloyds. E experimentou a metamorfose de passar de tubarão a um sábio guerreiro oriental protegido com armadura”.

No principio de 2011, em plena crise, toma as rédeas do Lloyds, mas depois do verão, o banco estava à beira da falência. Transbordava de ativos tóxicos. Os mercados estavam em colapso. Começou a não conseguir dormir, nem com comprimidos. Não partilhou os seus medos, nem com sua família nem com seus colaboradores. “A liderança é uma coisa muito solitária”, diz ao El País. António Horta-Osório passou a dormir cada vez menos e a trabalhar cada vez mais. Cada vez via a bola passar mais rápido quando jogava ténis. Cada vez pensava e falava mais devagar. E via com dificuldade os números que lhe passavam na frente dos olhos. Nos últimos dias de outubro de 2011, ia para a cama e passava a noite a ouvir a chuva a bater na janela em câmera lenta. A bateria estava a apagar-se. “Eu pensei que eu era um super-homem”, disse António Horta-Osório ao jornal espanhol. “Mas não existe um plano que possa resistir a um mundo que está em colapso”, explica.

Ficou nove dias numa clínica, em cura de sono. A dormir 16 horas por dia com a ajuda de sedativos. Muitos cronistas da cidade publicaram seu obituário profissional. Ninguém apostou no seu retorno à linha de frente do Lloyds. “Esse foi o incentivo para retornar. Mesmo adormecido na clínica, pensei que cumpriria minha missão. Eu sempre fui muito persistente. Como no ténis, identifico-me mais com a tenacidade de Rafa Nadal do que com a aparente facilidade de Roger Federer “, diz o banqueiro ao jornalista do El País.

Uma das condições que Sir Win Bischoff, então presidente não-executivo da Lloyds, exigiu para consentir o seu regresso foi sujeitá-lo ao escrutínio de um psiquiatra que certificou a sua recuperação. No início de 2012, o Dr. Stephen Pereira começou a trabalhar com o paciente para moldar um novo António Horta-Osório. “Eu tinha perdido confiança em mim. Levou vários meses a recuperar. A minha atitude era anteriormente  semelhante a um carvalho. Independente das dificuldades, mantinha-me firme até atingir os objetivos, mesmo que trabalhasse arduamente. Mas até um carvalho pode partir-se. Hoje eu tento parecer uma palmeira que se curva diante da tempestade e se endireita quando a calma regressa “.

António Horta-Osório não brinca com a saúde. Bebe chá verde de hora a hora. O colapso por excesso de stress em executivos da City é mais comum do que se pensa. Só que é um tabu. “O processo de recuperação converteu-se para mim numa cura de humildade” disse Horta-Osório.

“Uma experiência que nos dá humildade torna-nos mais compreensivos e pacientes”, diz o banqueiro português que admite que com o médico, aprendeu a partilhar as dificuldades. “E com ele desenvolvemos um programa de resiliência mental e física para a comissão executiva no qual também participei. Realizamos, entre outros, análises médicas e de sono. Os nossos 200 principais gerentes estão envolvidos. Aumentar a resiliência multiplica a liderança”, explica.

O seu desígnio mais importante foi conquistado a 16 de maio. Às 04h45, António Horta-Osório recebeu uma chamada do chefe da UK Financial Investments para este lhe comunicar uma notícia vinda dos corretores de bolsa. O Estado tinha acabado de deixar de ser acionista do Lloyds Banking Group. Depois de desligar o telefone, António Horta-Osório chamou a sua equipe e os outros 37 mil trabalhadores foram conectados via streaming para lhes enviar a mensagem que desde que chegou ao banco esperava transmitir: Tinham conseguido completar o reembolso aos contribuintes de 20 mil milhões de libras (mais de 22 mil milhões euros) que tinham sido injetados durante a crise, e ainda por cima com mais-valias de 1.000 milhões de libras.

Foi o único banco dos resgatados pelo governo britânico que até hoje alcançou esse feito.

 

Ler mais
Recomendadas

Joe Berardo pondera chamar Vítor Constâncio como testemunha contra banca

O empresário e coleccionador de arte português José Berardo está a estudar a hipótese de chamar o antigo governador do Banco de Portugal (BdP) Vítor Constâncio como testemunha num processo movido pelos bancos, revela o “Público” esta segunda-feira. Em causa está o processo judicial para recuperar 962 milhões de euros. A informação foi transmitida ao […]

Cabral dos Santos diz que “o grande problema da Investifino foi ter investido no BCP”

Os empréstimos à Investifino deram perdas à Caixa de 564 milhões, mesmo com uma reestruturação do crédito em 2009. Estas operações foram contratadas entre 2006 e 2007. E tinham como colaterais ações da Cimpor, BCP e Soares da Costa.

Cabral dos Santos revela carta onde Berardo pede à CGD crédito de 350 milhões para comprar ações do BCP

“A carta de Joe Berardo a Carlos Santos Ferreira de 10 de novembro de 2016 evidencia que foi a Fundação Berardo tomou a iniciativa de consultar a Caixa” [para o empréstimo de 350 milhões de euros]. A operação ou era feita com rácio de cobertura por garantias de 105% ou não se fazia. Essa era condição do cliente. A operação fez-se apesar de o parecer do risco ter inicialmente exigido uma cobertura de 120%.
Comentários