Estamos a viver a (r)evolução digital da banca?

Mais de 10 anos depois da última grande crise, existe uma nova dinâmica na indústria financeira. A inteligência artificial, a omnipresença dos dispositivos móveis e a disrupção incutida pelas fintech estão a revolucionar o setor e a atrair a atenção de todo o ecossistema – reguladores, bancos e clientes.

É inegável que estamos perante uma mudança de paradigma no setor, que exige uma adaptação de todos os seus intervenientes. De acordo com um estudo global, em 2018, os bancos previam investir cerca de 9,7 mil milhões de euros na sua transformação digital. Além disso, prevê-se uma mudança nos hábitos dos consumidores, com a predominância do digital, estando a utilização dos bancos digitais (84%) cada vez mais próxima da dos ATMs e sucursais (86%).

Numa altura em que a tecnologia já não é vista pelo setor financeiro como uma ameaça, mas como uma oportunidade, em que as fintech assumem um papel de destaque neste processo de transformação, há um aspeto que não pode ser descurado: a segurança das próprias instituições e dos clientes. O mesmo estudo indica, aliás, que um dos fatores preponderantes para o aumento da utilização dos canais digitais por parte dos clientes é, precisamente, o reforço dos mecanismos de segurança dos processos tecnológicos da banca.

Ultrapassada a era em que os reguladores estavam receosos em relação ao aparecimento de soluções digitais no mercado, chegamos a uma altura em que procuram acomodá-las em quadros legais. Estes agentes terão, por isso, um papel fundamental no futuro desta transformação digital, sendo imprescindível uma profunda reflexão sobre a supervisão dos processos, produtos e instituições de forma a evitar lacunas na regulamentação, garantir a estabilidade financeira e a proteção dos consumidores.

Esta transformação suscita ainda o debate em torno da regulação dos serviços financeiros, que deve atingir um grau de abrangência que permita a coexistência de duas realidades (quase) paradoxais. Por um lado, a subsistência das próprias instituições que têm cada vez mais exigências processuais e legais e, por outro, a preservação da confiança, enquanto “pedra basilar” do sistema financeiro.

O impacto da tecnologia na sociedade deverá despertar a necessidade de criar regulamentação para os novos produtos e serviços financeiros como bitcoins, crypto assets, CFDs, entre outros, que desafiam a confiança e literacia que fazem parte do setor financeiro e, igualmente, fomentar o combate de situações como o branqueamento de capitais ou o financiamento ao terrorismo. A tecnologia e a regulamentação deverão ser, em conjunto, o motor neste processo de evolução do setor bancário, em particular, e dos serviços financeiros, em geral.

Embora a transformação digital esteja a ser muito relevante na atualização do negócio da banca, é fundamental assegurar a confiança dos agentes económicos. Os bancos, a par da inovação, devem desenvolver e implementar políticas e mecanismos de proteção, que respondam aos desafios que a (r)evolução digital e a cibersegurança impõem.

Desta forma, criam-se as bases para uma evolução que incentiva a inovação, a disrupção, os novos modelos de negócio, com um enquadramento regulatório e de supervisão que garante o correto funcionamento do setor e que nos permitirá manter a confiança no mesmo. É um lugar comum dizer que a informação é o combustível do século XXI, mas se não tivermos confiança nas pessoas, nas empresas, nos bancos, na economia e na própria informação, de pouco nos servirá ter o depósito abastecido.

 

José Barata, Partner, Banking Leader da Deloitte Portugal.

 

 

Este artigo foi produzido em colaboração com a Deloitte Portugal.

Ler mais
Recomendadas

Generali fecha compra da Tranquilidade por 600 milhões de euros

A Generali acaba de fechar a aquisição da Tranquilidade por um valor de 600 milhões de euros, avança a Bloomberg. A Apollo vai emitir um comunicado.

Autoridade da Concorrência defende que Banco de Portugal venha a ser uma entidade financiadora

Há um aspeto positivo, diz, que é o do “o BdP vir a ser incluído nas entidades que financiam a AdC” e, defende, “outras entidades poderiam ser consideradas”. O administrador da Autoridade da Concorrência (AdC) Nuno Rocha de Carvalho, disse esta quinta-feira na COFMA que a “breve trecho podemos vir a ter uma decisão no  processo de cartel na banca”.

Antonoaldo Neves: “Não é a primeira vez que a TAP paga prémios em anos de prejuízo”

A comissão executiva da TAP esta quinta-feira ser ouvida na Assembleia da República sobre prémios polémicos atribuídos a trabalhadores, após terminar o exercício de 2018 com prejuízos.
Comentários