Fitch: melhoria do ‘rating’ é esperada, mas peso da dívida levanta dúvidas

A expetativa é que a Fitch faça o ‘upgrade’ da notação de Portugal esta sexta-feira, devido ao crescimento económico do país. No entanto, a agência já tinha subido a perspetiva em 2014 sem depois tomar qualquer decisão sobre alterações ao rating. Os tempos já não são os mesmos, mas o endividamento do país pode ser a razão para travar a subida.

Reinhard Krause/Reuters

Portugal poderá receber um presente de Natal antecipado, na próxima sexta-feira, data em que a agência de notação financeira Fitch tem marcada uma nova avaliação à República. Depois de a Standard and Poor’s ter tirado o rating de Portugal do nível de lixo, a expetativa é que a Fitch lhe siga os passos. No entanto, o elevado rácio da dívida face ao produto pode justificar cautela.

“É provável que a Fitch acompanhe a decisão da S&P e suba o rating de Portugal para grau de investimento”, afirmou Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros, ao Jornal Económico. “Provavelmente, a Fitch irá citar o crescimento económico de Portugal, o comportamento da dívida em mercado secundário e as alterações no perfil da dívida para sustentar a sua decisão”.

O diretor de gestão de ativos do Banco Carregosa, Filipe Silva, acrescenta que “o crescimento da economia portuguesa, ajudado pela melhoria no ambiente económico da Europa e a estabilização da economia mundial são razões para melhorar a classificação do risco da dívida portuguesa”.

“O que inspira mais cautelas é o rácio da dívida face ao PIB. É mesmo um dos pontos mais fracos na avaliação do endividamento de Portugal”, salientou.

Dívida pesada nas contas da Fitch

Na última avaliação, em junho, a agência subiu a perspetiva do rating soberano para positiva, de estável, mantendo a notação em BB+, ou seja no primeiro nível de ‘lixo’. Na altura, referiu esperar que o Governo português continue a aplicar uma política orçamental mais apertada, enquanto mantém a estabilidade política no país com maioria parlamentar.

A decisão aumentou a expetativa que a Fitch dê, esta sexta-feira, o passo seguinte e passe Portugal para o nível de investimento. No entanto, existe um precedente que poderá não ser repetido, mas que é preciso ter em mente. A agência já tinha subido a perspetiva da dívida nacional (entre abril de 2014 e março de 2016), sem depois tomar qualquer decisão sobre alterações ao rating.

Além disso, alertou, em junho, que o rácio da dívida face ao PIB está bastante acima da média da categoria ‘BB’ (51%) e da média da zona euro (90%). Na proposta de Orçamento do Estado para 2018, o Governo projeta que o endividamento do Estado caia para 126,2% do PIB este ano e para 123,5% em 2018, o que compara com os 130,4% de 2016.

“A Fitch disse aguardar por uma melhoria nesse rácio ao longo do ano seguinte. Passou meio ano e o rácio já desceu, o custo da dívida também tem vindo a diminuir e amortizada dívida ao FMI, antes do seu vencimento”, acrescenta Silva.

Upgrade incorporado pelos investidores

O diretor de gestão de ativos do Banco Carregosa refreia ainda os entusiasmos já que “neste momento, não mudaria nada porque essa mudança já foi incorporada pelos preços do mercado”.

O presidente da IMF é mais otimista e salienta que “uma eventual decisão da Fitch em subir a dívida pública portuguesa para grau de investimento tem relevância porque há fundos que só podem comprar dívida de emitentes com a classificação de grau de investimento por duas das três principais agências de notação”.

“A acontecer, será uma decisão esperada, mas ainda assim positiva para Portugal e para o Tesouro. A questão da estratégia orçamental é um pouco mais complexa. Uma melhoria do rating pode ajudar a dar folga por via de uma baixa adicional dos juros a pagar em 2018 (novas emissões de Obrigações do Tesouro e Bilhetes do Tesouro), mas a questão é o que se faz com essa folga”, acrescentou.

Mantém-se a espera pela Moody’s

A Fitch foi uma das três agências que colocou a dívida portuguesa no patamar de ‘lixo’ durante a crise, a par da Standard & Poor’s e da Moody’s.

A canadiana DBRS foi a única a atribuir grau de investimento a Portugal, uma posição que qualificou o país para o programa de ativos do Banco Central Europeu (BCE), que foi um dos principais fator para controlar a subida das taxas de juros da dívida portuguesa.

As yields da dívida soberana portuguesa no mercado secundário iniciaram o ano a subir, mas têm vindo a descer com o reforço da confiança dos investidores. A taxa das obrigações benchmark, ou seja a 10 anos, ultrapassou os 4% em janeiro, mas chegou a negociar abaixo de 1,8% esta semana em mínimos de mais de dois anos.

“Se a Fitch subir o rating, ficará apenas a faltar a Moody’s que manteve o rating em setembro e ainda não divulgou quando fará a revisão em 2018″, lembra Garcia.

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