“Follow the money, babe”

Enquanto andamos entretidos com “gente que não sabe estar”, os verdadeiros responsáveis e, sobretudo, aqueles que então os apoiaram, procuram passar tranquilamente pelos pingos da chuva.

O conhecido comendador Berardo regressou em grande à atualidade mediática, com uma audição na comissão parlamentar de inquérito à gestão da Caixa que mais não foi do que um momento lúdico, em especial para o próprio.

A audição ajudou a reforçar a narrativa que nos tem sido vendida nos últimos dias, segundo a qual Berardo é apenas mais um grande devedor que não quer pagar o que a banca lhe emprestou.

O estilo invulgar do homem e a forma como se dirigiu aos deputados ajudaram a desviar a conversa e a passar para segundo plano outros aspetos mais complexos. Os quais não foram devidamente aflorados no Parlamento, talvez porque nestas matérias quase todos os partidos têm telhados de vidro. E os poucos que os não têm continuam a acreditar que o Estado deve mandar na economia e nos negócios, sendo assim cúmplices involuntários da cultura que propicia este tipo de situações.

De resto, o divertido “show Berardo” não teria sido possível sem a ajuda prestimosa de alguns deputados que, procurando aqueles 15 minutos de fama que podem lançar uma carreira, entreteram o pagode com questões que passaram ao lado do essencial. A verdade é que, nos tempos que correm, qualquer pessoa que se encontre sob algum grau de suspeição gosta de ir ao Parlamento prestar “esclarecimentos”, porque com alguma sorte consegue sair de lá melhor do que entrou. Talvez saia com fama de incompetente, amador, esquecido ou até arrogante, mas o certo é que ainda está para nascer quem há de ser preso por isso.

Mas voltemos a Berardo. Em primeiro lugar, o que o diferencia de outros grandes devedores que deixaram centenas de milhões de euros por pagar é o facto de, ao contrário destes, ter sabido proteger o património pessoal, recusando atravessar-se pelas dívidas em questão.

Ninguém pode verdadeiramente censurar Berardo por não querer arriscar a casa ou a coleção para poder pedir um empréstimo para financiar um negócio que lhe fora proposto por terceiros. O que não é normal não é Berardo não querer entregar garantias pessoais, mas antes o facto de, apesar dessa recusa, a Caixa, o BES e mais tarde o BCP lhe terem emprestado mais de mil milhões de euros.

O que nos leva ao porquê de ter recebido esses créditos. Para responder a esta questão, basta seguir o dinheiro, recordar quem concedeu os empréstimos e o que fez Berardo com as somas fabulosas que recebeu. Recuemos, pois, alguns anos: com esse dinheiro nas mãos, o comendador que se veste de preto procurou fazer de white knight na defesa da PT contra a OPA da Sonae e participou muito ativamente na ‘guerra civil’ do BCP, ajudando a derrubar Jardim Gonçalves.

O próprio Berardo confirmou no Parlamento que foi a CGD a propor a operação no BCP. Porém, como é mais sabedor a dormir do que muita gente acordada, em troca dessa “ajuda aos bancos” exigiu garantias de que o seu património pessoal não seria colocado em risco. Garantias essas que lhe terão sido dadas, porque o interesse em que o negócio se fizesse não era propriamente de Berardo. Era um bom negócio para o comendador, que podia ditar as condições para participar e ainda ganhar alguns milhões, se as coisas corressem bem.

No fim de contas, se pensarmos em quem pôs o dinheiro nas mãos de Berardo e com que objetivos, concluímos que na origem das suas dívidas bilionárias não estão o capitalismo selvagem nem a proverbial sede de lucros da banca, mas sim a promiscuidade entre a política e os negócios e a tentativa megalómana que ocorreu em Portugal de controlar o poder político, a banca, os grandes negócios e a comunicação social, mas que muitos continuam a não querer ver, apesar de todas as evidências.

E enquanto andamos entretidos com “gente que não sabe estar”, os verdadeiros responsáveis e, sobretudo, aqueles que então os apoiaram, procuram passar tranquilamente pelos pingos da chuva.

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