Fukuyama enganou-se redondamente

Nem a democracia liberal impera mundialmente, nem o mundo caminha para uma situação de paz. Bem pelo contrário. Encontramo-nos numa escalada confrontacional sem precedentes.

O recente falecimento de George HW Bush traz-nos à memória o fim da Guerra Fria “acordada” com Mikhail Gorbatchev. Vários cientistas políticos e teóricos das relações internacionais tentaram explicar, com maior ou menor sucesso, o acontecimento. Francis Fukuyama teve uma ambição maior: prever o futuro. Em 1992, brindou-nos com um livro – que se tornou rapidamente num best seller – onde prognosticava a expansão mundial da democracia liberal – o novo sol na terra – e um mundo de paz. A democracia liberal seria o ponto de união entre as diversas regiões e culturas do mundo.

Mas a bola de cristal de Fukuyama estava embaciada. Infelizmente, as suas previsões falharam em toda a linha. Nem a democracia liberal impera mundialmente, nem o mundo caminha para uma situação de paz. Bem pelo contrário. Encontramo-nos numa escalada confrontacional sem precedentes. Durante a Guerra Fria, ambos os blocos conheciam e seguiam as “regras do jogo”. Foi isso que impediu o holocausto nuclear. Presentemente parece não existirem regras. Durante a Guerra Fria existiam cautelas que deixaram presentemente de existir, degradando de uma forma acelerada a presente situação securitária.

Não há memória de, durante a Guerra Fria, altos responsáveis das grandes potências ameaçarem o oponente com ataques nucleares preventivos; ou o atrevimento de violarem as instalações diplomáticas do oponente. Nunca se equacionou publicamente a possibilidade de um confronto militar direto como se admite presentemente. Durante a Guerra Fria, a competição estratégica fazia-se indiretamente e fundamentalmente através de proxies, afastados das áreas de segurança do adversário. Prevalecia uma contenção que deixou de existir. A intrusão nas áreas de segurança do oponente era feita com muitas cautelas. Apesar das divergências ideológicas, nunca a retórica verbal foi tão acintosa como agora.

Parece que as regras básicas de convivência estratégica se evaporaram. A Rússia e os EUA (acompanhados pelos restantes membros da OTAN) encontram-se num impasse que se torna cada dia mais perigoso. A confrontação vai para além da gesticulação verbal. Ao contrário do que pensam muitos analistas, não nos encontramos numa nova Guerra Fria. A presente situação tem poucas semelhanças com a da Guerra Fria. Já nos encontramos numa fase mais avançada da confrontação que se reflete na militarização dos discursos e das agendas políticas. A OTAN voltou a considerar o artigo 5.º a sua tarefa mais importante. Nunca a desconfiança entre as grandes potências foi tão grande.

Uma nova guerra que pode acabar com a vida na Terra vai-se tornando cada vez mais provável e tem de ser impedida. Uma escalada da crise causada por acidentes não planeados não está posta de parte. Alimentar a hostilidade e a confrontação com a Rússia não parece avisado nem útil, até porque não é nem será o grande desafiador da ordem internacional. É perigoso alimentar uma retórica belicista. A responsabilidade primária para terminar com o presente impasse pertence aos líderes dos EUA e da Rússia. Era bom que os europeus percebessem que também têm a ver com o assunto. Em 1992, os bósnios também pensavam não ser possível uma guerra.

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