No quadro das eleições que decorrerão ao longo do ano na Europa, é fácil descobrir duas características emergentes que parecem constituir, por um lado, uma novidade inquietante para os partidos tradicionais e, por outro, um regresso em força dos partidos da direita nacionalista e populista.
De facto, no seio dos maiores países da União Europeia, tanto iniciativas da extrema-direita como de candidaturas que se auto-intitulam de supra-partidárias estão a arrasar as sondagens e a colocar em causa um establishment onde estão acantonados os velhos partidos socialistas, social-democratas e mesmo democratas-cristãos.
Em França, a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, lidera as sondagens para a primeira volta. Os candidatos que a perseguem, sejam eles quais forem, estão convencidos de que resolvem o problema na segunda volta.
Mas os 26% conseguidos pela Frente Nacional na última sondagem da primeira volta mostram como o projeto europeu está a ser contestado no coração da Europa. O programa eleitoral da Frente Nacional promete ativar o que Le Pen chamou de 144 compromissos, onde avulta o referendo à permanência na União Europeia. É por via deste referendo que a extrema-direita afirma que recuperará a soberania monetária, legislativa, territorial e económica de França. Mesmo que não haja uma saída (um ‘Frexit’), Le Pen quer renegociar de forma dura a posição de França na União Europeia – o que, na prática, e a ser aceite, seria quase uma refundação do espaço comum.
É aquilo a que chama ‘protecionismo inteligente’ e que, na prática, resultaria na reversão de parte substancial de legislação económica, laboral e social emanada de Bruxelas e aceite pelos 27 países do agregado. Dividido em sete partes, o programa da Frente Nacional remete para alguns temas recorrentes no menu populista: a questão da imigração e a redução do aparelho do Estado são as duas vertentes principais.
A Frente Nacional quer reduzir o número de deputados e senadores de 300 para 200 – o que é aceite até por alguma esquerda. Mas é na imigração que Le Pen promete ser mais intrusiva: quer reduzir de 40 mil para 10 mil o número de entradas em território francês e acabar com alguns direitos de quem entra (como, por exemplo, trazer a família); taxar as empresas que recorram à contratação de estrangeiros; e inscrever na Constituição a discriminação positiva dos franceses.
A redução de 10% em alguns escalões do IRS e a reforma aos 60 anos fazem parte de um pacote que Le Pen pretende ser de defesa da classe média – mas que também contempla a diminuição das quotizações sociais. A fechar o leque, Marine quer ver restaurada a pena de morte, algo de que nem Luís XVI se lembraria.
Se os resultados da segunda volta são a grande incerteza, o que parece mais que certo é a erosão do PS francês, com a radicalização entre os ‘destroços’ do grupo de François Hollande (de que, apesar de tudo, Manuel Valls, o último derrotado das primárias socialistas, é um exemplo) e a esquerda ‘mitterraniana’ de Hamon. A mesma erosão, afinal, que está a acossar os socialistas espanhóis, habituados às picardias com os comunistas ‘herdeiros’ de Santiago Carrillo, mas incapazes de competirem com a ‘frescura’ do Podemos.
A incógnita alemã e a certeza holandesa
As eleições francesas, que decorrem entre o final de abril e o início de maio, são apenas um dos testes europeus. Na Alemanha de Ângela Merkel, a surpresa é mesmo o facto de a chanceler, que concorre a um quarto mandato, surgir agora em segundo lugar, dando a liderança das sondagens ao recém-anunciado Martin Schulz – candidato ‘alternativo’ do SPD, que não tem obra ‘caseira’ para mostrar e que, quando os debates forem a doer, terá de explicar à opinião pública alemã o que o levou, enquanto líder da esquerda moderada europeia e do próprio Parlamento Europeu, a ser tão condescendente com os ‘desordeiros’ países do sul, Portugal incluído.
Mas a presença do partido de extrema-direita de Frauke Petry (o AfD, Alternativa para a Alemanha) numa terceira posição em consolidação acaba por ser uma nota dissonante das sondagens – pelo menos para quem se esquecer que a Alemanha foi sempre palco de alguma radicalização: tinha o maior partido comunista do mundo (sem contar o da União Soviética) no período entre as duas guerras, teve a ascensão de Hitler, teve as brigadas Baader-Meinhof e tem ‘grupelhos’ nazis no ativo para quase todos os gostos.
Quem já parece ter ultrapassado a fase de consolidação é o Partido para a Liberdade, do holandês Geert Wilders, que surge muito destacado nas sondagens e tem fundadas esperanças de ‘limpar’ as eleições parlamentares de 15 de março próximo. As suas declarações sobre a imigração e a presença do Islão na Europa assustaram os partidos tradicionais europeus, mas quando em 2010 – depois da surpresa da sua ascensão meteórica junto dos media – Geert Wilders não foi além de um terceiro lugar, os ânimos serenaram. Cedo demais: sete anos volvidos, o partido de extrema-direita pode bem vir a tomar o poder no país.
Grillo e companhia
Beppe Grillo, o líder do Movimento 5 Estrelas, pode ter um ar um pouco desgrenhado e usar roupas um pouco desmazeladas, mas Virgínia Raggi – que se tornou presidente da câmara de Roma pelo partido – está muito longe disso, e a sua imagem ajudou a consolidar a perceção de que o movimento é de facto uma alternativa credível. O resultado está à vista, e os cerca de três pontos percentuais que o M5E tem em desvantagem para com o Partido Democrático são, na prática, demasiado pouco para descansar a nova esquerda acantonada atrás de Matteo Renzi.
O que afasta a Itália da generalidade da Europa é a posição da direita nacionalista e autoritária – que, com Sílvio Berlusconi, esteve várias vezes no poder, mas que tem vindo a afundar-se junto do eleitorado. O que quer dizer que os italianos reconhecem poucas qualidades nos líderes atuais da direita e, principalmente, não lhes perdoam o facto de terem tentado ‘matar’ o ‘pai’ Berlusconi quando ele entendeu que devia sair de cena.
[Notícia publicada na edição impressa de 10 de fevereiro]

