Gordon Gekko dos Santos

“Greed, for lack of a better word, is good”, dizia Gordon Gekko, personagem do filme “Wall Street” (1987). No drama do Luanda Leaks também não existe uma palavra melhor, ‘ganância’ é mesmo a mais apropriada.

“Greed, for lack of a better word, is good”, dizia Gordon Gekko, personagem do filme “Wall Street” (1987). No drama do Luanda Leaks também não existe uma palavra melhor, ‘ganância’ é mesmo a mais apropriada. Mas, tal como aconteceu com o especulador protagonizado por Michael Douglas, a ganância dificilmente será boa conselheira para os artistas envolvidos.

Não vamos começar por Isabel dos Santos, mas sim pelo pai, Zedú, que fez da ganância a base do sistema económico de Angola, que lhe permitiu comprar e controlar a elite (militar e partidária) para permanecer no poder.

Obviamente que a ‘princesa’ também fez o seu papel, mostrando-se voraz na apropriação de oportunidades (oferecidas pelo pai) para expandir o império. Omarido, Sindika Dokolo, também não mostrou parcimónia, antes pelo contrário. Com o arresto de bens e divulgação dos ficheiros do ‘leaks’, dificilmente essa ganância da família poderá ser ‘good’, pois Zedú perdeu o que sobrava do poder e a filha está a perder ativos e reputação a cada dia que passa.

João Lourenço também não fica exatamente bem na fotografia. Acusado por Isabel dos Santos de fazer uma perseguição seletiva para mascarar a crise económica, é difícil negar que está a demonstrar a ganância do poder, especialmente quando ainda não ‘perseguiu’ outros que também beneficiaram da cleptocracia.

A ganância não deixou Portugal imune. Políticos, empresários, banqueiros, gestores, consultores, advogados e jornalistas aceitaram de mãos estendidas e gananciosas o capital angolano. Prova da ganância? Agora lavam as mãos, pois de repente perceberam que o dinheiro era sujo, roubado do povo angolano.

Nada disto é especialmente chocante, era previsível até. Infelizmente, o que choca é a nova ganância moral que temos visto em muitas das reações ao Luanda Leaks em Portugal. Parece que se tornou desporto nacional dizer que “toda a gente sabia”, que “ninguém fez nada” e que, antes pelo contrário, “todos por cá estavam envolvidos”.

Vamos por partes. Toda a gente não sabia, toda a gente tinha fortes suspeitas, mas até documentos e fontes conseguirem desmascarar a enorme e sofisticada teia criada por Isabel dos Santos era difícil provar essas suspeitas.

“Ninguém fez nada”. Muitos não fizeram nada, sim. Por inércia ou interesse pessoal ficaram quietos. Mas outros fizeram, perante dificuldades e riscos enormes, tanto cá e como lá, sendo ostracizados, ameaçados, pressionados e detidos. Acreditem.
Na mesma senda, é ridículo dizer que todos por cá estavam envolvidos. Há políticos, empresários, jornalistas que recusaram, disseram que não alinhavam.

Pôr tudo no mesmo saco é ganância, ganância de ter razão e superioridade moral.

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