Grande Baía deverá crescer mais do que o resto da China

Plano do também chamada Delta do Rio das Pérolas é apadrinhado pelo presidente chinês, Xi Jinping, e deverá estar concluído até 2035. Economia da região no sul da China ronda os 1,4 biliões de euros.

Livre circulação (de bens, pessoas e dinheiro), sítio ideal para se viver, trabalhar e passear, e uma das principais regiões económicas do mundo. É assim que a China pretende que a Área da Grande Baía se caracterize e obtenha o título de hub de negócios, que o estado norte-americano da Califórnia há muito conquistou. O plano da Greater Bay Area (GBA) compreende nove cidades na província de Guangdong (Cantão) – Guangzhou, Shenzhen, Foshan, Dongguan, Zhaoqing, Jiangmen, Zhongshan, Zhuhai e Huizhou – e as duas Regiões Administrativas Especiais (RAE) chinesas de Hong Kong e Macau, e deverá estar concluído até 2035.

A designada “megametrópole” – também conhecida como Delta do Rio das Pérolas – é considerada a futura potência económica no sul da China, tendo, por isso mesmo, a ‘benção’ do presidente chinês, Xi Jinping. “Envolve reformas significativas a nível de infraestruturas, impostos, emprego e abertura do mercado financeiro, permitindo a essa região aumentar a sua competitividade e capacidade de internacionalização, cruciais para a promoção/manutenção do desenvolvimento económico da República Popular da China”, explica a advogada Rita Assis Ferreira ao Jornal Económico (JE). “O Plano da GBA engloba nove cidades da China continental e duas regiões administrativas localizadas na província de Guangdong, que representa atualmente 26% do comércio da China e 28% das suas exportações”, salienta a associada coordenadora da China Desk da PLMJ.

A região tem os números a seu favor para criar um ambiente de negócios competitivo. Embora a GBA represente menos de 1% da dimensão do país e tenha cerca de 70 milhões de habitantes (ou seja, menos de 5% da sua população total), só o Produto Interno Bruto (PIB) combinado daquelas 11 cidades foi 1,53 biliões de dólares (cerca de 1,38 biliões de euros) em 2017. Trata-se de uma economia mais valiosa do que a de países que pertencem ao G20, entre os quais a Austrália ou o México.

“Há realidades diferentes. Cada cidade tem a sua própria identidade, mas de destaque temos Shenzen, que será certamente a cidade que mais interesse irá despertar devido ao seu posicionamento na área tecnológica, seguida de Guangzhou, pois tem um grande posicionamento na indústria, seguidas de Nanshan, Jiangmen, Zhuhai, pelas zonas económicas exclusivas dos seus portos e apoio ao comércio internacional”, afirma Alberto Carvalho Neto, presidente da Associação Jovens Empresários Portugal-China (AJEPC). Em 2018, 6,9% das importações da China tiveram origem na própria China, sendo que 12,8% dessas compras advieram da União Europeia, 9,6% da Coreia do Sul e 8,4% do Japão. O empresário português prevê que esta “concentração enorme de empresas de âmbitos tão diversos, da indústria tradicional ao maior dos mercados de tecnologia do mundo”, abre uma clara oportunidade para o reforço das relações económicas e de crescimento das empresas de Macau, que podem tornar-se mais atrativas, ganhar com o comércio externo e ter o “mesmo tratamento que as do continente”.

Mais de três quartos (77%) dos empresários da GBA esperam que o crescimento económico desta região exceda o do resto da China nos próximos três anos, segundo um relatório da consultora KPMG, do banco HSBC e da Câmara de Comércio Geral de Hong Kong. Os analistas anteveem quen a dimensão do mercado consumidor da região aumente “exponencialmente” até 2025. O mesmo estudo, que teve por base cerca de 700 inquéritos a executivos locais, concluiu ainda que os segmentos de atividade que provavelmente beneficiarão mais deste ambicioso projeto são a tecnologia e a inovação (53%), o comércio e a logística (45%) e os serviços financeiros (44%). “O que torna a GBA única é o seu potencial de alavancar os pontos fortes de serviços financeiros, comerciais e profissionais de Hong Kong; as capacidades industriais e de alta tecnologia de Shenzhen; as atrações turísticas de Macau e as especialidades manufatureiras de Dongguan, Guangzhou, Foshan e Huizhou, para criar o equivalente às áreas de São Francisco, Nova Iorque e Tóquio”, refere Ayesha Lau, managing partner da KPMG China (Hong Kong), no documento.

Em 2020, os setores com mais potencial de escalabilidade neste cluster serão essencialmente o tecnológico e o financeiro, segundo os editores do “South China Morning Post”. Este jornal destacou, num artigo publicado em dezembro, que as dez empresas com o crescimento mais acelerado são a WeLab Holdings, DDC Enterprise, SenseTime Group, Prive Services, Shopline Corporation, Lalamove, Lumi United Technology, Prenetics, GoGo Tech Guangzhou Wyan Culture & Media. Ou seja, na sua maioria fintechs e empresas de comércio eletrónico com sede em Hong Kong (apenas uma está localizada em Shenzhen e outra em Guangzhou).

 

Zhuhai apoia empresas locais com até cinco milhões de yuans
A Área da Grande Baía foi referenciada, pela primeira vez, em 2015. Dois anos depois, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, anunciou oficialmente os planos para desenvolver a região GBA no relatório anual do governo, divulgado na 12º Congresso Nacional Popular da República Popular da China, e um ano depois informou que o projeto vai avançar brevemente.

Os baby steps da GBA estão agora a tornar-se maiores. Desde então, a imprensa local refere que há grupos chineses, do tecido empresarial à academia, que estão interessados em aprender com o exemplo de São Francisco e, inclusive, criar pontes entre o sul da China e esta região dos Estados Unidos. A jurista esclarece ao JE que, tal com tem vindo a ser habitual em muitos dos modelos de desenvolvimento chinês, a região terá características próprias. “Numa interpretação lata, poderemos dizer que existe alguma inspiração em Silicon Valley, no que respeita à criação de uma ou mais zonas de elevada especialização tecnológica. No entanto, outras regiões apresentarão cromossomas industriais, de serviços e até de manufatura, desenvolvidos com ADN chinês e inspiração própria. No que respeita a tecnologia de ponta (blockchain, inteligência artificial, robótica), o objetivo num prazo mais longo será, como é tradição na China, mais ambicioso: que Silicon Valley vá, em algum momento, inspirar-se na região da GBA”, resume.

Em termos práticos, esta união de esforços no sul da China está, aos poucos, a surtir efeito. A autonomia de Macau e Hong Kong não se circunscreve ao poder executivo, legislativo e judicial, mas sente-se no dia a dia dos cidadãos. Logo, os pagamentos estão a ser flexibilizados, por exemplo. Os moradores de Hong Kong poderão em breve pagar os transportes públicos de Guangzhou, porque o cartão Yang Cheng Tong (utilizado para os bilhetes de metro, autocarro e táxis) vai aceitar pagamentos através do serviço Alipay de Hong Kong. Aliás, o próprio orçamento de Hong Kong 2018-2019 também reservou 50 mil milhões de dólares (HKD) para apoiar a inovação e o desenvolvimento de tecnologia na região. “Cada uma destas cidades foi alvo de um plano de benefícios fiscais para investidores estrangeiros e empresas locais, melhoria nas suas infraestruturas, cuidados médicos, acesso imobiliário, etc., tendo transformado a cidade de Dongguan numa ‘cidade-modelo’ para implementar muitas medidas de desenvolvimento económico da GBA e, futuramente, reproduzir esse modelo noutras cidades e regiões”, defende Rita Assis Ferreira.

A cidade de Zhuhai foi aquela que apresentou o plano de desenvolvimento tecnológico para a GBA mais recentemente. Em colaboração com Macau, o governo de Zhuhai tem o intuito de conceder incentivos a qualquer empresa com planos para modernização e desenvolvimento de novas soluções de vanguarda. O programa para Zhuhai abarca 20 medidas, entre as quais a criação da Zona Piloto de Comércio Livre da localidade de Hengqin (a “Ilha da Montanha”) e de fundos para auxiliar empresas locais, que poderão receber até cinco milhões de yuans (cerca de 650 mil euros) cada uma.

Os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), dada a histórica ligação a Macau, figuram entre os que podem tirar partido deste projeto no Delta do Rio das Pérolas. Para Alberto Carvalho Neto, a lusofonia também deve olhar para esta região como um todo e reforçar as relações diplomáticas e comerciais com a República Popular da China. “É o momento ideal para pôr em prática a implementação do acordo CEPA, com redução de taxas de importação por parte das empresas chinesas em produtos que tenham alguma intervenção em Macau, como por exemplo o reembalamento de produtos, passando de caixas maiores para unidades menores. Este tipo de processos tem uma redução de taxa enormíssima”, lamenta.

Na opinião de Rita Assis Ferreira, os países de língua portuguesa que ofereçam boas condições a empresas chinesas instaladas nesta região, como a Huawei e a Tencent, e a outras que se instalem naquela zona poderão beneficiar dos seus produtos e serviços, “promovendo o desenvolvimento de algumas áreas ainda muito carenciadas”. A advogada portuguesa antecipa que a GBA seja também uma oportunidade para os assessores jurídicos e lembra que o Ministério dos Recursos Humanos e da Segurança Social chinês deu luz verde à hipótese de os árbitros dos tribunais de Trabalho de Hong Kong e de Macau serem nomeados para resolver conflitos nessa área em Nansha (Guangzhou), “com vista a reforçar a cooperação da província de Guangdong com as duas regiões administrativas especiais”. “Nansha está dentro da Zona Piloto de Comércio Livre de Guangdong, pelo que esta iniciativa está a criar oportunidades de intercâmbio entre os profissionais jurídicos na Área da Grande Baía”.

Alberto Carvalho Neto não tem dúvidas de que, devido à dimensão da China, é necessário trabalhar em conjunto para conseguir atingir resultados mais rápidos e ganhar representação. Nesse mesmo sentido, várias figuras nacionais procuraram, em 2019, contribuir para o reforço das relações culturais, económicas e académicas entre Portugal, lusofonia e GBA. O trabalho conjunto resultou na criação da Associação de Cooperação Portugal-Grande Baía (presidida por Miguel Lemos Rodrigues e vice presidida por Tiago Pereira, ambos com experiência em Macau há vários anos), assim como na fundação da Portugal-Hong Kong Chamber of Commerce and Industry, sob a liderança de Bernardo Mendia.

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