Margarida Gaspar de Matos, coordenadora da parte portuguesa do estudo [ver artigo ao lado], diz que nada é verdadeiramente novo a não ser a continuidade dos problemas, que é urgente perceber. Nesta conversa com o Educação Internacional, dá-nos pistas que poderão ajudar a melhorar a relação aluno-escola.
O que mais a surpreendeu no estudo?
Não há grandes surpresas, visto ser a sexta vez que fazemos o estudo – todos os quatro anos desde 1998.
Que conclusões destaca?
Fico sempre triste e perplexa com o afastamento dos miúdos da escola, com o modo como não conseguimos (nós professores) transformar o conhecimento num trunfo admirável, e eles continuam a gostar (pouco da escola) e ainda menos das aulas. É ainda perturbante que associem tanto stresse às tarefas da escola, e que achem a comida da cantina tão pouco apetecível… Mas isto já vem de longe e põe-nos num lugar baixo ao nível europeu.
O que mais a preocupa?
Os miúdos dizem que as matérias são demasiadas e que há um foco obsessivo na avaliação e nas notas. O país está a pedir um debate alargado, sem dúvida. Fico também preocupada com o facto de os adolescentes se sentirem pouco autónomos e eficientes na solução dos problemas do dia a dia, e de muitos referirem uma preocupação latente com a vida em geral, ainda que a grande maioria se considere satisfeita com a vida. Fico igualmente preocupada com o afastamento dos jovens da cidadania ativa e com o facto de terem poucas atividades de lazer.
Destacaria outras conclusões?
O tabaco continua em baixa. O álcool continua instável, em 2018 subiu o consumo embora não o abuso/embriaguez. E o bullying também está em baixa. Galopante é o uso de equipamentos integrados de comunicação e informação.
Que fatores de alarme encontra?
É preocupante a falta de expectativas em relação ao futuro e de estratégias de autorregulação que provavelmente aumentam o risco das autolesões. Preocupantes são igualmente as questões de mal-estar mental, como tristeza, irritabilidade, nervosismo, e o consumo de medicamentos, com e sem prescrição médica – em especial o consumo de psicotrópicos, com efeitos no sistema nervoso.
E aspetos positivos? O que valorizam os jovens?
Fiquei contente de ver que, no geral, a nossa sociedade jovem é integradora da diferença e os jovens pertencentes a grupos minoritários são a maioria das vezes considerados parte do todo e não segregados. É muito bom considerarem a diversidade um desafio e uma oportunidade.
É possível melhorar a relação entre os alunos e a escola? Como?
Não sei se é possível, mas temos de tentar. Ninguém melhor que os alunos e os professores saberá o que fazer. O sucesso escolar aparece num contexto de encontro entre alunos, professores e matéria. Por isso, só os professores – especialistas nas suas matérias – conseguem definir matérias basilares e acessórias. Esse escalpelizar tem de ser feito. Os professores têm de ser incentivados, e reconhecidos, por isso. Há professores excelentes com práticas excelentes e escolas reconhecidamente excelentes. Temos que ver porque e o que fazem.
E do lado dos alunos?
Os alunos poderão debater, não a pertinência das matérias mas o modo como as entendem, ou o que lhes faz falta para entender ou motivar-se. A escola não é um ‘clube recreativo’. O que me parece apropriado não é tornar a escola um espaço divertido, mas sim ajudar os alunos a motivar-se para aprender e evoluir no conhecimento. Estou a imaginar um fórum participativo entre professores, entre alunos e noutra fase entre alunos e professores e pais. Estou a imaginar uma plataforma para partilha de boas práticas. Estou a imaginar uma escola onde se valorize o sucesso associado ao bem-estar e à perceção de realização pessoal, para alunos e para professores. Professor feliz, aluno feliz, escola feliz? Todos diferentes, todos iguais à volta do assunto comum – aprender e desenvolver-se.

