“Herança muito perigosa”. Draghi deixa a Lagarde situação difícil, analisam economistas

Para Pedro Lino, economista e administrador da Dif Broker e da Optimize, “o testemunho que é passado a Christine Lagarde [na liderança do BCE] é diferente porque é uma bolha ainda maior”, sendo “uma herança muito perigosa que terá de ser gerida de maneira muito cautelosa”.

Os economistas sondados pela Lusa consideram que Christine Lagarde vai herdar do atual presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, uma situação difícil, mas menos desafiante do que aquela que este enfrentou com a crise do euro.

“Mario Draghi exerce as suas funções de presidente do BCE na fase mais difícil do euro. Sobretudo entre 2011 e 2013 houve um período em que se chegou a discutir o fim do euro, a saída da Grécia e inclusive de Portugal”, afirmou hoje Joaquim Miranda Sarmento, professor de Finanças do ISEG – Lisbon School of Economics & Management, em declarações à Lusa.

O economista frisou que o atual presidente do BCE, cujo mandato termina em 31 de outubro, passou um “tempo muito mais difícil” do que aquele que antecipa Christine Lagarde venha a passar como sua sucessora na liderança da autoridade monetária do euro.

Na terça-feira, os chefes de Estado e de Governo da União Europeia (UE) chegaram a acordo sobre as nomeações para os cargos institucionais de topo, designando Lagarde, atual diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), para a presidência do BCE.

“Passarmos outra vez pela crise que o euro teve em 2011, 2012, 2013 seria traumático para todos”, frisou Joaquim Miranda Sarmento, admitindo, contudo, que “Draghi deixa a Lagarde uma herança difícil porque a economia mundial continua com graves problemas” e o “excesso de liquidez é um desafio enorme”, na sequência das injeções de liquidez pelo BCE na zona euro, com o objetivo de estimular a concessão de crédito e o crescimento da economia.

Para Pedro Lino, economista e administrador da Dif Broker e da Optimize, “o testemunho que é passado a Christine Lagarde [na liderança do BCE] é diferente porque é uma bolha ainda maior”, sendo “uma herança muito perigosa que terá de ser gerida de maneira muito cautelosa”.

O economista alertou, em declarações à Lusa, para a existência de “uma bolha de ativos financeiros” e no mercado de obrigações e frisou que, neste momento, os investidores compram obrigações alemãs e pagam quase 4% ao longo de 10 anos à Alemanha, “o que significa que os preços estão muito elevados”.

Neste sentido, Pedro Lino antecipou que “será preciso muita agilidade para que esta bolha não estoure”, acrescentando que “vai ser necessário um tato muito especial” da parte de Lagarde na liderança do BCE.

Para João Duque, economista e professor catedrático do ISEG, “a dificuldade de Christine Lagarde será gerir uma segunda crise, em caso de necessidade, estando tão próxima do limite admissível de taxas negativas” na zona euro.

O economista frisou que Mario Draghi entrou em “terrenos inexplorados”, tendo que liderar uma instituição que enfrentava uma crise numa “Europa que é muito dispersa e muito difícil de governar”, sem um governo central e sem um presidente central eleito.

No entender de João Duque, existe agora um outro desafio que Lagarde vai herdar: “tendo usado o antídoto, chegamos ao limite da sua utilização, e a dúvida é o que pode fazer o BCE para além deste antídoto em caso de necessidade”.

Para o economista, por um lado, será mais fácil para Christine Lagarde gerir a situação porque o BCE já explorou novas áreas de atuação e já se perceberam quais as consequências.

Mas, por outro lado, apontou, será difícil porque se chegou a “um limite” e coloca-se a questão sobre “o que fazer quando as taxas [de juros] já estão tão baixas que é quase impossível baixar mais”.

Neste sentido, João Duque alertou, nomeadamente, que “a banca pode sofrer uma atrofia devido às taxas de juro negativas e às regras de não repercutir as taxas negativas nos depositantes”.

Pedro Lino salientou ainda que “são situações diferentes”, a que o atual presidente do BCE, Mario Draghi, herdou e aquela que Lagarde vai herdar como sua sucessora.

“Diria que Draghi recebeu uma situação muito pesada porque estávamos no auge da crise financeira, com necessidade de intervenção na Irlanda, na Grécia, depois em Portugal e até houve a intervenção no setor financeiro espanhol”, referiu o economista, acrescentando que “existia na altura uma perda de credibilidade na moeda e falava-se muito em regressar às moedas de cada país, e, nesse sentido, Mario Draghi foi essencial, tomou decisões e deu confiança aos investidores de que o euro era irreversível”.

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