Herr Rio

O episódio do deputado social-democrata com o dom da ubiquidade trouxe novamente à evidência a forma como o líder do PSD, Rui Rio, encara a atividade política e o papel da imprensa numa sociedade democrática.

O episódio do deputado social-democrata com o dom da ubiquidade trouxe novamente à evidência a forma como o líder do PSD, Rui Rio, encara a atividade política e o papel da imprensa numa sociedade democrática. Ao desvalorizar o assunto, Rui Rio mostrou desprezo pelos eleitores, que não entendem por que razão devem fazer sacrifícios pelo país quando há deputados que não estão à altura da função. E ao responder em alemão aos jornalistas que o questionavam sobre o assunto, o líder do PSD revelou desprezo pela comunicação social. Por outras palavras, Rui Rio considera que não tem de prestar esclarecimentos sobre um assunto que, queira ou não, tem interesse público.

Há quem considere estas atitudes do líder do PSD como sintomas de um populismo soft, mas na verdade são mais do que isso. Correspondem a uma forma de estar na vida pública que tem longa tradição em Portugal, país que sempre teve um fraquinho por políticos que procuram fazer crer que não o são. Com as devidas diferenças entre si, governantes como Pombal, Salazar e Cavaco deveram muito do seu sucesso a essa simpatia que uma boa parte do povo português dedica aos homens providenciais e de contas certas, que procuram mostrar-se acima da ‘sujidade’ da política, nunca cometem erros e – surpresa – lidam mal com a crítica*.

Embora seja duvidoso que o PSD saia a ganhar com isso, o certo é que Rui Rio é um legítimo herdeiro dessa tradição, com as suas ideias fixas, o discurso em economês e as farpas aos jornalistas e à “corte de Lisboa”. Fazer crer que se é imune a pressões é outro requisito. Conta-se que quando era presidente da Câmara do Porto, Rio terá mandado imprimir uma folha A3 com a palavra “não” escrita em letras garrafais, para a poder erguer sempre que alguém  lhe pedisse dinheiro. Verídica ou não, a anedota circula porque todos conseguimos imaginar, sem dificuldade, um Rio maldisposto a receber as pessoas com um “NÃO” impresso em caixa alta.

Mas ainda que apele ao subconsciente do português médio, esta forma de estar na política traz dois problemas difíceis de solucionar.

Em primeiro lugar, deixa transparecer uma concepção da governação que está nos antípodas daquilo que deve ser uma democracia representativa. Ao contrário do que Rui Rio parece entender, não é suposto a democracia ser o governo dos melhores, dos justos e dos puros, que estão acima da espuma dos dias e da agenda mediática, mas antes o governo por consentimento. Por esta razão, o preço da democracia é o risco de virmos a ser governados por pessoas menos capazes e honestas do que gostaríamos. Mas pagamos coletivamente este preço porque as alternativas – falta de liberdade e uma eventual transição violenta do poder- seriam ainda piores.

Em segundo lugar, quando nos arvoramos em puros e justos, convém estarmos rodeados de pessoas que vivam de acordo com esses exigentes padrões. Quem promete “banhos de ética” tem de estar disposto a dar banhos desses na sua própria casa. Caso contrário, é preferível estar calado.

(*) – José Sócrates e Pedro Passos Coelho reúnem também algumas das caraterísticas descritas. Mas não os incluo na lista porque o primeiro nunca escondeu que é político profissional; e porque o segundo sempre demonstrou ‘fair play’ face à crítica e respeitou o papel da imprensa.

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