Horta Osório: “Os governantes, além de políticos, devem ser bons gestores”

Horta Osório disse, em video-conferência no 1º Congresso dos Gestores, em que se apresenta “mais do que banqueiro, de gestor”, que “infelizmente assistimos nos últimos anos a vários casos de falta de ética na gestão e tivémos oportunidade de observar o impacto muito negativo que esses comportamentos tiveram na nossa sociedade”. Sem referir nomes, mas numa clara alusão ao caso do BES e da PT (e envolvimento do Governo de Sócrates).

Luke MacGregor/Bloomberg

António Horta-Osório falou por video-conferência no 1º Congresso dos Gestores, onde começou por se apresentar, “mais do banqueiro, de gestor”. No video a que o Jornal Económico teve acesso, o presidente executivo do Lloyds Banking Group, fala dos casos recentes de “falta de ética na gestão”, sem referir nomes, mas numa clara alusão ao caso BES, Portugal Telecom e envolvimento do Governo de Sócrates. Depois alerta que “um país, tal como uma família, tem de saber viver dentro das suas possibilidades”, salientando a importância de um controlo das contas públicas. “Um país bem gerido não vive acima das suas possibilidades”, defende Horta Osório.

O banqueiro fala dos recentes elevados défices orçamentais que levaram ao crescimento insustentável da dívida pública e obrigaram a medidas de austeridade, para realçar a importância da boa gestão de um país. Apela a que se aproveite a boa conjuntura económica para reduzir a elevada dívida pública e diz que as empresas têm de apanhar o comboio da evolução digital.

Elogiando a iniciativa do FAE- Fórum de Administradores e Gestores de Empresas, presidido por Luís Filipe Pereira, pela realização do 1º Congresso dos Gestores, como fórum de partilha de experiências de gestores profissionais e de criação de uma organização que dê voz aos gestores portugueses, António Horta-Osório começou o seu discurso por dizer que “mais que banqueiro sou um gestor”. “O facto de ter desenvolvido a minha carreira, quase exclusivamente na banca, depois de ter estudado Gestão e Administração de Empresas, foi de certa forma circunstancial”.

O atual presidente executivo do Lloyds Bank, disse na sua participação por video-conferência, que “a gestão é talvez a mais abrangente das profissões, porque um gestor pode ter diferentes formações de base e percursos académicos, ou desenvolver a sua atividade profissional em inúmeros sectores de atividade”.

“Por definição um gestor é alguém que atua numa empresa e a quem compete interpretar os objectivos da instituição e dos seus acionistas e atuar através do planeamento da organização e da administração para atingir esses objectivos. É por isso uma actividade de enorme responsabilidade e que obriga ao exercício de um papel de liderança constante, que afecta todos os que consigo trabalham, a própria instituição e todos os seus stakeholders”, disse António Horta-Osório.

“A liderança mais do que a gestão, consiste em definir a direção certa, recrutar os melhores profissionais para cada lugar, constituir com eles uma grande equipa e executar os planos com foco e excelência a uma velocidade maior do que os concorrentes, criando em consequência, vantagens competitivas”, explicou o banqueiro.

Sobre o tema da “ética da gestão em Portugal”, um dos temas do Congresso que se realizou na passada terça-feira em Lisboa, António Horta-Osório disse que “infelizmente assistimos nos últimos anos a vários casos de falta de ética na gestão e tivémos oportunidade de observar o impacto muito negativo que esses comportamentos tiveram na nossa sociedade”. Sem referir nomes, mas numa clara alusão ao caso do BES e da Portugal Telecom (e envolvimento do Governo de Sócrates), António Horta-Osório disse “refiro-me a actos de gestão cometidos por desrespeito às regras básicas de uma gestão responsável e íntegra, não só no sector privado, em grandes bancos e em empresas, mas também no próprio Estado”.

“Foram actuações que prejudicaram muita gente, contribuíram para a descredibilização de instituições, de políticos e de gestores. Criaram desemprego e em várias situações, obrigaram a intervenções que afectaram todos os contribuintes portugueses”, lembrou Horta-Osório.

“Erros como este mostram a importância de formar gestores competentes, conscientes das suas responsabilidades, e de assegurar em todas as empresas, a existência de mecanismos de governance, que impeçam más práticas de gestão, e a importância de estabelecer elevados padrões de comportamento profissional, ético e social”, disse o gestor.

António Horta-Osório fez ainda comentários sobre a economia portuguesa. “Um país tal como uma família, tem de saber viver dentro das suas possibilidades”, disse.

“Os governantes, além de políticos, devem, para o bem de todos, ser bons gestores. Um país bem gerido não vive acima das suas possibilidades”, defende Horta Osório.

“Também aqui assistimos, muito recentemente, aos efeitos negativos da má gestão no nosso país. Os elevados défices orçamentais que levaram ao crescimento insustentável da dívida pública, obrigaram a medidas de austeridade que afectaram todos os portugueses e a sua qualidade de vida”, salientou o banqueiro português que preside ao britânico Lloyds Banking Group e conseguiu recuperar o banco de modo a devolver todo o dinheiro da intervenção estatal.

António Horta-Osório deixa um alerta. “Apesar de neste momento, e também graças à recuperação europeia, estarmos a viver novos tempos em Portugal, não podemos esquecer o nível altíssimo da dívida portuguesa. A dinamização do potencial de crescimento da economia é essencial para reduzir este endividamento e a fragilidade que daí resulta. Fazê-lo enquanto o crescimento económico da zona euro e mundial está a progredir e as exportações a aumentar, é um imperativo”.

Referindo-se por último ao tema das mudanças da gestão, Horta-Osório explica que “o meio envolvente mudou radicalmente na última década, a revolução digital, e a velocidade a que essa revolução está a alterar os hábitos e os comportamentos da sociedade, representam muitas oportunidades, mas também acarretam enormes desafios. É preciso repensar métodos de trabalho, e modelos de organização, como re-treinar os trabalhadores para se adaptarem às novas tecnologias e adquirirem as competências necessárias, e é preciso investir na formação contínua das equipas de gestão e dos seus colaboradores”.

“Os desafios tecnológicos e geracionais neste ambiente digital globalizado, tem de ser abraçado decisivamente pelas empresas. A forma de trabalhar está a mudar e os gestores têm que antecipar e acompanhar essa mudança sob pena de muito rapidamente ficarem desactualizadas. Por outro lado nunca houve uma geração tão bem preparada em Portugal para conseguir abraçar os desafios que se colocam”, concluiu.

O FAE – Fórum de Administradores e Gestores de Empresas, atribuiu a António Horta-Osório o  “Prémio Carreira Inter Pares”.

 

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