Presidente da Aicep: “Indústria de aviões mantém interesse em Portugal”

Há mais “dois projetos” do setor aeroespacial bem encaminhados para arrancarem no início de 2021, admitou ao JE o presidente da Aicep.

Luís Castro Henriques, presidente da agência para o investimento e comércio externo Aicep Portugal Global confirmou ao JE que as empresas de construção aeronáutica não vão desistir das fábricas recentemente criadas em Portugal, admitindo que a Aicep está a negociar mais “dois projetos neste setor”.

 

Como é que a Aicep interpreta o desempenho das exportações portuguesas no mês de setembro?
Confirmam aquilo que já tínhamos visto também em agosto, que as empresas portuguesas exportadoras têm tido um comportamento resiliente, têm-se adaptado e em alguns casos também desenvolvem a inovação. Quando há uma abertura aos mercados para os quais vendemos, as empresas respondem rapidamente e da melhor forma possível. Na Aicep Portugal Global criámos um painel com 250 empresas, desde que começou o confinamento, que vamos atualizando semanalmente, ou quinzenalmente ou mensalmente. As a indicação que temos desde o início é que as empresas portuguesas têm querido manter-se a exportar. Têm desejo de claramente manter a sua operação, respeitando as regras que têm de ser implementadas nos dias de hoje e têm conseguido produzir o melhor possível. Como é óbvio, este vai ser um ano em que não vamos conseguir aumentar as exportações como um todo, mas mesmo assim vemos que de facto nos meses de julho, agosto e setembro os exportadores responderam rapidamente e isso permitiu encurtar a quebra que estava prevista até aí.

 

Qual foi a variação das exportações em setembro?
Temos de olhar sempre para dois números. Há um número imediato, que reflete a evolução e cadeia, que mostra que as exportações cresceram 32%. Em termos agregados, de janeiro a setembro, as exportações estão a cair -12,7%. A curva de exportações está a começar a cair em linha com o que se prevê para o final do ano ao nível da queda do PIB.

 

Os setores automóvel, da indústria aeroespacial e do calçado continuam a ser três grandes âncoras de Portugal nos mercados estrangeiros. Isso é verdade?
É. Mas temos de perceber que o setor automóvel é o setor perfeito para se descreverem cadeias de valor complexas. Portanto, este é um setor que nunca pode arrancar sozinho. Tem de arrancar em sintonia com os outros e depois temos de assegurar que a sua cadeia de fornecimento também arrancou em sintonia porque pode ter um arranque, mas depois abranda porque houve fornecedores de componentes cuja produção não chegou a tempo.

 

Nos anos de 2017 a 2019, o crescimento das exportações foi muito acentuado. Agora, numa retoma pós-Covid, a base de que partimos não tem nada a ver com as exportações de 2003, porque estamos num patamar muito elevado e mais maduro. Por essa razão, a capacidade de resposta será sempre imediata e rápida. Concorda?
Concordo. Mas vamos voltar ao que eu disse a 1 de janeiro. Na nossa expectativa para 2020, em que não antecipávamos pandemia, não a tínhamos no nosso radar, dizíamos que 2020 ia ser um ano de crescimento, íamos continuar a aumentar as exportações, mas a uma taxa bastante mais pequena. Porquê? Porque tínhamos uma série de investimentos que estavam a entrar, investimentos de natureza extremamente inovadora e produtiva, no país, que estavam a ser concretizados e que até final de 2021 iam ser implementados. Portanto, estimávamos que voltássemos a uma taxa de crescimento das exportações maior outra vez a partir de final de 2021. Esse seria o ciclo natural dentro de uma tendência longa de crescimento. Temos de reconhecer que na última década a nossa indústria exportadora ganhou skills, ganhou valências. Ficou mais adaptada e tornou-se mais inovadora. Reagiram bem em agosto e setembro, porque estão preparados para isso. Porque são competitivos. Mas será que estamos a chegar a um nível assintótico das exportações? A nossa expectativa era que de facto poderíamos estar a aproximarmo-nos do limite de capacidade de produção em 2020 – e isto sem sabermos da pandemia – e que iria ser quebrado por um novo limite a partir do final de 2021, que agora foi obviamente adiado. Alguns projetos estão a ter um adiamento perfeitamente natural – as empresas estão a reorganizar-se e a reponderar objetivos, mas a verdade é que essa capacidade produtiva estava a ser instalada. No entanto, a larga maioria dos projetos que temos a correr em 2020 tem-se mantido, com alguns atrasos, por causa da pandemia, algumas máquinas chegam atrasadas, alguns serviços não conseguem avançar logo no momento previsto, mas diria que tudo continua a trabalhar para que a partir de 2022 possamos voltar a empurrar esta barreira de forma estrutural, porque de qualquer forma iríamos continuar a crescer.

 

O hiato que a Aicep admite neste processo é essencialmente de um ano. O que era previsto arrancar em 2021 passa para 2022?
O que era previsto para o final de 2021. Portanto, para arrancar em janeiro de 2022, e que agora passará para janeiro de 2023. Nesta fase, com o que tivemos até agora, as coisas estão a sofrer um atraso de três a seis meses, que é o que as empresas nos vão mandando nas suas estimativas de revisão.

 

O investimento contratualizado pela Aicep para 2019 ficou em 1.172 milhões de euros. Para 2020 já há algum valor que se possa dar como provável para encerrar o ano?
Acho que ainda não está fechado. Vai ser um ano pior. Isso é garantido. Mesmo assim, estamos convencidos que vamos conseguir fechar uma série de contratos relevantes para termos um ano razoável, em média melhor que um ano médio do QREN. Também falámos recentemente de projetos em pipeline, que são projetos que ainda não estão contratualizados e nem todos carecem de contratualização.

 

A Aicep viabilizou a criação de 7.245 novos postos de trabalho em 2019. Este ano provavelmente não chegaremos a metade…
Muito provavelmente. Infelizmente. As empresas que já tinham os seus projetos estabelecidos, de facto não mudaram muito os seus projetos. Fizeram alterações de calendarização, mas nada de extraordinário. Houve outras empresas que tiverem de reponderar e essas neste momento estamos a adiá-las para 2021. Se conseguirmos criar metade desses postos de trabalho, já não era mau. Porque os 7245 foram um número absolutamente extraordinário, num ano excecional, quando a média anda a rondar os 3000 a 4000 postos de trabalho criados.

 

Dados da Aicep mostram que em 2019 houve 177 projetos de I&DT, o que contrasta com os 76 de 2018. Este crescimento é mais que geométrico…
É hiperbólico. Tenho de admitir que sim. Essa é uma tendência que se mantém. É interessante ver que estes 177 projetos são mais do que cinco vezes maiores do que na anterior média do QREN. As empresas quando estão a escolher a localização destes projetos, tipicamente podem escolher qualquer país do mundo. São apostas de muito mais longo prazo do que as de uma fábrica, por estranho que possa parecer, mas é a realidade. Estes centros de ID são centros virtuosos de conhecimento. Não só assentam sobre a capacidade base do nosso talento, mas também potenciam esse conhecimento. Lançam âncoras na economia nacional. É um exemplo excelente do melhor que se faz em Portugal, onde conseguimos concorrer com os melhores do mundo e conseguimos ganhar.

 

O setor da construção aeronáutica atravessa uma grave crise, mas parece manter o interesse em Portugal e nos projetos que instalou no nosso país. Confirma que as empresas estão comprometidas em continuar?
À data de hoje confirmo essa informação. Esse setor tem uma tração sólida no país. A pandemia vai ter impacto sobretudo a nível da calendarização dos projetos, mas em geral vemos que os investidores têm mantido os seus investimentos, mesmo o investimento mais recente da Airbus, que tem ligeiros atrasos, mas mantém-se e continuam a recrutar pessoas, portanto confirmo isso.

Os grupos deste setor estão a despedir, mas nos projetos que têm em Portugal estão a contratar…
Também estamos perante operações de outra escala. Em Portugal estão muito no início. Os que estão a arrancar as operações, felizmente não pararam. Um cliente europeu explicou uma coisa interessante. Dirigiu-se a nós para renegociar os prazos do contrato e os objetivos que estavam definidos. Já me conhece há muitos anos e disse-me assim: “ando neste negócio há umas décadas e a maior crise que tinha enfrentado foi o 11 de setembro, em que os aviões pararam três dias. Esta situação de termos os aviões parados três meses, nós nunca tínhamos visto. Não percebemos o que é isto, nem estamos a entender”. Para além disso vemos que as previsões da IATA mostram que só em final de 2024, início de 2025 é que a aviação civil voltará ao mesmo nível em que estava em 2019. O impacto no setor é devastador. Mas os projetos que estão em Portugal têm um perfil inovador, competitivo e portanto mantêm-se. Mas como é óbvio têm de ser recalendarizados e adaptados tendo em conta o impacto que esta pandemia está a ter no setor.

 

Consta que a Aicep está a tratar de dois novos projetos de unidades produtivas do setor aeronáutico-aeroespacial…
Posso dizer que estamos a acompanhar outros clientes. Mas nós só falamos depois das empresas. Vamos ver o que se consegue concretizar até ao final do ano e se se consegue concretizar também no próximo ano. Há clientes que ainda não estão em Portugal no setor, mas têm mantido contacto connosco. Vamos ver quando é que os investimentos se podem concretizar.

 

Sem referir empresas, é possível dar como garantido que até ao final do primeiro trimestre de 2021 haja mais dois projetos a arrancar nesta área?
Diria que garantir é uma palavra muito forte. Se me perguntam se há mais dois projetos bem encaminhados para arrancarem no início de 2021, eu diria que sim. Mas lanço muito uma reserva porque é óbvio que o setor está a ter um ano muito difícil. Portanto, todas as decisões têm de ser ponderadas uma, duas e três vezes. Temos um grupo de potenciais clientes que nunca abandonaram os projetos e eu sei que neste momento estão de facto a ponderar vir para Portugal, mas ainda é muito cedo para me pronunciar sobre isso.

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