Investidores chineses usam taxistas para sondar mercado

Na China, andar de táxi deixou de ser apenas uma forma de transporte. Os investidores estão a questionar os taxistas para saber informações sobre as empresas onde querem investir. A culpa é da falta de transparência do mercado.

Stringer/Reuters

É durante as viagens de táxi que os novos investidores chineses no mercado de ações conseguem a maior parte das informações acerca das empresas onde pretendem colocar o seu dinheiro. Almoçar ou jantar nos restaurantes locais, perto das instalações das ditas empresas também ajuda a este esforço de pesquisa, diz a Bloomberg.

Estas práticas surgem no seguimento da alteração do paradigma dos mercados chineses e do crescimento do potencial de default das ações locais. Depois de décadas em que as autoridades garantiam uma proteção efetiva para impedir que as empresas abrissem falência, o foco da liderança comunista no encerramento de ativos improdutivos lançou a confusão no mercado e criou um clima pouco transparente.

Desde o início do ano passado, são já 45 as empresas cotadas em bolsa que encerraram atividade na China, um aumento vertiginoso face às oito registadas em 2014 e 2015, as primeiras a serem registadas desde o estabelecimento da bolsa chinesa na década de 1980. Ao mesmo tempo que a China se transformou no terceiro mercado mundial de ações, a transparência financeira é limitada, forçando os investidores a procurar soluções alternativas.

“Se ficar sentado no escritório, nunca vai saber se um emitente já encerrou a sua atividade”, afirma à Bloomberg Xu Hua, gestor financeiro da Colight Asset Management, em Xangai. “Quando visitar as instalações das empresas em causa, garanta que fala com os taxistas locais ou com os patronos dos restaurantes da zona – pergunte-lhes se têm algum amigo que trabalhe na empresa, se o salário deste foi aumentado ou reduzido este ano, se há salários em atraso e qual a reputação de que a empresa goza, este tipo de coisas”.

“Muita informação acerca dos emitentes de ações chineses não é conhecida, e quando o é, a qualidade dessa informação pode não ser fiável”, afirmou Christopher Lee, diretor de notação corporativa da S&P Global Ratings com base em Hong Kong.

Por isso, os players do mercado bolsista chinês têm viajado muito ao longo da terceira maior nação do mundo. Xu afirma que a sua equipa já foi tão longe quanto Xinjiang, uma região da Ásia Central a quatro mil quilómetros de Xangai. Para o mesmo responsável, uma destas viagens, feita no final de 2015, ajudou a sua empresa a evitar um investimento arriscado numa empresa com um cash flow aparentemente estável. Descobriram, através de habitantes da zona, que a mina de carvão da empresa em causa havia parado de laborar e que havia salários em atraso.

“As empresas chinesas só dizem o que queremos ouvir”, afirma Xu à Bloomberg. “Se apenas visitar as empresas durante um dia ou meio dia, não conseguirá perceber a situação real”.

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