Irão: “conflito segue o mesmo padrão da Coreia do Norte”

A estratégia diplomática de Donald Trump segue ao ritmo das reversões. Mas o conflito com o Irão encerra a possibilidade de os moderados serem derrotados pelos radicais, o que seria uma péssima notícia para o mundo.

Fogo e fúria. E depois um desanuviamento inesperado – que em larga medida é o oposto da promessa de intervenção militar que está por trás desse fogo e dessa fúria. “É um padrão que se repete na forma como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gere os conflitos entre o seu país e países terceiros”, afirma o investigador e analista de assuntos internacionais da Universidade Portucalense André Pereira Matos, em entrevista ao Jornal Económico.

Desta vez aconteceu com o Irão: depois de uma reação do regime de Teerão a palavras pouco amistosas do secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo – e Washington sabe que Teerão reage sempre – Donald Trump ameaçou via Twitter que o seu país está pronto para intervir militarmente se o conflito se extremar.

“É uma resposta pouco estruturada, pouco ponderada do presidente norte-americano”, que tem desde logo um problema: “destrói ou altera substancialmente aquilo que fez a diplomacia antes de Trump intervir”. Depois vem o volte-face. “Foi assim com a Coreia do Norte”, recorda André Pereira Matos – que está convencido que “vai ser assim também com o Irão, não me espantaria nada”.

Os casos de ‘reversão de ameaças’ vão-se somando no intrincado capítulo das relações diplomáticas dos Estados Unidos. E o caso do Irão nem sequer é o último: esta quarta-feira, o presidente dos Estados Unidos afirmou estar preparado para acabar com todas as barreiras alfandegárias, tarifas e subsídios que envolvem as relações comerciais do seu país com a União Europeia. Uma decisão que surge na semana a seguir àquela em que Trump afirmou que a União Europeia era o pior inimigo do comércio internacional e, possivelmente, da saúde da balança comercial norte-americana (fora a China).

As relações com a Rússia seguem o mesmo padrão, assim como já aconteceu antes com o Canadá (também por questões comerciais), com a NATO e até com o Reino Unido – neste caso em sentido contrário: às promessas de amizade, seguiu-se uma atuação que não deixa dúvidas sobre o pouco ‘carinho’ que Trump tem pelos britânicos.

Trump, o Bismarck das Américas

André Pereira Matos tenta uma explicação para este padrão: “os conflitos internacionais, que são uma constante da administração Trump, têm a vantagem de agregar em seu torno, internamente, a população norte-americana, o que lhe permitirá avançar para um segundo mandato”.

A lógica nem sequer é uma novidade: aconteceu nas mais diversas geografias e nos mais diversos tempos históricos. Pereira Matos recorda um: “aquilo que Otto von Bismarck usou para agregar num único país uma série de principados, autonomias e regiões [que culminou com a criação da Alemanha em 1870] foi isolar a França como um inimigo comum, capaz de unificar a vontade dos germânicos”. Funcionou – mas só depois da guerra franco-prussina de julho de 1870 a maio de 1871.

Entretanto, o Irão não ficou à espera: empreendeu esforços assinaláveis para manter o acordo nuclear de que Trump se retirou, com o presidente iraniano, Hassan Rouhani, a visitar a Europa – e nomeadamente os países europeus que assinaram o acordo (França, Reino Unido e Alemanha, para além da Rússia).

A vitória da diplomacia iraniana foi mais teórica que prática: os países europeus juraram fidelidade ao acordo nuclear e reafirmaram a sua convicção de que o Irão está a cumprir a parte substantiva do que foi assinado em 2015 – ao cabo de longas e difíceis negociações.

Mas na prática as coisas são um pouco mais difíceis. O ministro do Petróleo iraniano, Bijan Zanganeh, esperava que o país atraísse cerca de 150 mil milhões de dólares (mais de 120 mil milhões de euros) em investimentos para reconstruir o setor.

No ano passado, o governo iraniano assinou um acordo para o setor do gás com o grupo francês Total e outro com uma companhia petrolífera chinesa para desenvolver um enorme campo de petróleo no alto mar – e só estes dois negócios ascenderam aos cinco mil milhões de dólares (quatro mil milhões de euros).

Mas este ano as coisas têm corrido pior – cada vez pior, à medida que o calendário vai evoluindo para o mês de novembro, a data que Trump fixou como o prazo para que todas as empresas deixem de trabalhar com Teerão. Uma das ameaças de Trump é precisamente a de impor sanções aos países que mantiverem negócios com o Irão (mesmo países considerados amigos) e às empresas que continuarem a atuar naquele mercado do Médio Oriente. Ora, a Total foi uma das empresas que já anunciou a revisão da sua exposição ao mercado iraniano.

Novembro negro

Novembro ameaça ser um mês negro para o Irão. Se as sanções regressarem, as dificuldades económicas do país vão crescer substancialmente. Só para se ter uma ideia de parte do impacto das sanções, recorde-se que, em 2015, quando essas sanções foram levantadas como consequência da assinatura do acordo, o Irão passou a ter acesso a uma série de ativos que estavam congelados no estrangeiro – e que eram da ordem dos 100 a 150 mil milhões de dólares.

E é nesta realidade que reside o perigo mais perene da errática atuação de Donald Trump: a redução substancial do nível de vida no Irão pode determinar o fim da permanência no poder da fação mais moderada do regime, consubstanciada em Rouhani e fazer regressar a fação mais conservadora e radical, liderada pelo chefe supremo do país, Ali Khamenei.

Talvez um dia destes Trump leia o que escreveu Harry J. Kazianis, chefe do departamento de estudos sobre defesa do Centro de Interesses Nacionais, um think tank criado pelo ex-presidente Richard Nixon. Este analista disse que “nada justifica que os Estados Unidos embarquem numa guerra contra o Irão ou tentem derrubar o seu regime. Pode custar milhões e a vida de muitos americanos”.