João Miguel Tavares: Afrodescendentes em Portugal devem ter direito a “igualdade de oportunidades” e à “busca da felicidade”

“O problema não é haver tantos cabo-verdianos com 40 ou 50 anos de idade a limpar casas ou a construir estradas e edifícios em Portugal. O verdadeiro problema surge quando os seus filhos de 20 anos, que já foram criados em Portugal, continuam a limpar casas e a construir estradas e edifícios”, destacou o comentador no seu discurso do 10 de junho em Cabo Verde.

“A barragem do preconceito” sentida pelos afrodescendentes que vivem em Portugal deve ser compensada através da “igualdade de oportunidades” ou do “direito à busca de felicidade”, defende João Miguel Tavares.

No discurso realizado na terça-feira, 11 de junho, em Cabo Verde, no âmbito da celebração do Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, o comentador defende que Portugal tem uma “responsabilidade histórica” para com os jovens afrodescendentes.

O organizador das comemorações do 10 de junho, a convite da Presidência da República, sublinhou que “há apenas 45 anos, Cabo Verde era ainda parte de Portugal”, referindo-se ao colonialismo, mencionando ainda laços profundos entre os dois países mas “manchados pela escravatura ou pelo racismo”.

João Miguel Tavares sustenta que não gosta da expressão “política de reparações” por esta ser alvo de “demasiados equívocos”, mas garantiu que existem “reparações que são devidas a quem hoje está vivo e carrega consigo a bagagem do preconceito” em Portugal. “Chamam-se igualdade de oportunidades, direito à busca da felicidade e a certeza de que cada ser humano é único e irrepetível, independentemente da sua origem, do seu credo ou da sua cor”.

O presidente da comissão do 10 de junho disse ainda que a “preocupação genuína” que atualmente se encontra em Portugal “é a noção de que o nosso país tem uma responsabilidade histórica, sobretudo para com os jovens que descendem de habitantes das antigas colónias”. No entanto, o cronista afirmou que “as verdadeiras reparações fazem-se ao longo de uma vida”.

Segundo João Miguel Tavares, esta política passa por dar aos jovens “uma vida digna, educação de qualidade, acesso facilitado à cidadania portuguesa e o combate permanente à discriminação”. “As verdadeiras reparações fazem-se durante o intervalo de uma vida. Não para compensar tragédias ancestrais, cujos efeitos são impossíveis de medir”, reforçou.

No seu discurso, o jornalista mencionou ainda a questão linguística dizendo que as autoridades portuguesas “têm o dever de prestar apoio à oficialização e padronização do crioulo”. João Miguel Tavares apoia ainda o ensino do crioulo nas escolas portuguesas, uma vez que existem escolas cujos alunos têm como língua materna o crioulo e que por isso enfrentam “enormes dificuldades” no início da vida académica.

O criolo “deve ser usado como instrumento em certa escolas (como, aliás, já o é, em projectos experimentais) para conseguir que as crianças cuja língua materna é exclusivamente o crioulo não fiquem imediatamente para trás nos primeiros anos de escolaridade em Portugal”, escreveu  nas redes sociais.

Com milhares de cabo-verdianos residentes em Portugal, a nova geração “começa finalmente a fazer ouvir a sua voz” depois de “45 anos de uma integração ainda pouco integrada”, sustentou. “O problema não é haver tantos cabo-verdianos com 40 ou 50 anos de idade a limpar casas ou a construir estradas e edifícios em Portugal. A pobreza e o défice de educação têm um grande impacto em qualquer vida. O verdadeiro problema surge quando os seus filhos de 20 anos, que já foram criados em Portugal, continuam a limpar casas e a construir estradas e edifícios”, apontou o presidente da comissão, no seu discurso em Cabo Verde.

De acordo com o cronista, a comunidade cabo-verdiana que vive em Portugal está “aos poucos a criar uma massa crítica suficientemente interventiva para começar a perturbar o mito do lusotropicalista e a herança da suposta excepção portuguesa que nunca o foi nas antigas colónias e que também não o foi, nem o é, em Portugal”.

No discurso aponta que as escolas públicas não estão a dar o apoio devido a estes aluno e que “Portugal tem de conseguir abrir as portas do elevador social em vez de continuar a oferecer escadas para lavar”. Durante a intervenção, João Miguel Tavares leu versos d'”Os Lusíadas” em crioulo, para defender o ensino da língua cabo-verdiana, sendo esta “com boa probabilidade, a segunda língua mais falada em Portugal, depois do português”.

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