José Barata-Feyo e os portugueses que combateram os nazis: “Agora já não temos desculpa nenhuma”

José Manuel Barata-Feyo é o autor do livro que conta a história desconhecida dos resistentes portugueses que lutaram contra o nazismo.

Ao Jornal Económico, o escritor e jornalista conta como centenas de portugueses que combateram os nazis durante a ocupação da França foram ignorados pelo Estado português e como os resgatou do esquecimento entre as brumas da História.

Como é que surgiu esta investigação?

Foi há três anos por sugestão e desafio de um amigo meu, o Rui Moreira [presidente da Câmara do Porto]. Fiquei muito envergonhado, porque estive exilado em França e por lá fiquei quase 20 anos. Era jornalista há mais de 40 e nunca tinha tido a curiosidade profissional de averiguar se houve ou não portugueses entre a Resistência francesa. Essa vergonha levou-me a questionar um colega da France-Presse, que não me soube responder. Pesquisei então nos motores de busca e nada. Em nenhuma língua. Fala-se muito dos espanhóis, polacos, arménios, mas nada sobre os portugueses.

Como chegou então a estes 347 nomes?

Mandei emails para as associações de resistência em França e encomendei vários livros. Num deles, surge uma referência à presença dos portugueses na Resistência – um livro do coronel Gaston Laroche. Como ele era da Resistência e falava de portugueses, então tinha de haver portugueses. Continuei a pesquisar, até que, como acontece com as cerejas, apanhei uma ponta e através dessa ponta terminei nuns arquivos históricos do Ministério da Defesa francês e, entre centenas de milhares de nomes, descobri os 347 portugueses. Depois de o livro estar fechado, recebi mais uma resposta de uma associação de resistentes, com mais 18 portugueses que foram fuzilados. Este é, por isso, um trabalho em aberto.

O que explica que não haja em Portugal qualquer referência à participação portuguesa na resistência em França?

Há várias razões. Portugal vivia numa ditadura e combatentes da liberdade era uma coisa da qual Salazar não queria ouvir falar. Era um bocado alérgico. Acresce que muitos portugueses que vinham das Brigadas Internacionais de Espanha ao chegarem a França preferiam dizer que eram espanhóis, porque as democracias europeias, na época, tinham tanto ou mais medo dos comunistas do que tinham dos fascistas e nazis. Há ainda aqueles que eram resistentes por razões políticas e ideológicas, muitas vezes militantes de partidos comunistas ou anarquistas da Federação Anarquista Ibérica (FAI). No caso dos comunistas, o que eles queriam era a Internacional Comunista e a nacionalidade não interessava para nada e, por isso, surgem apenas como combatentes da FTP (Francs-tireurs et Partisans).

Houve portugueses condecorados em França, mas com a nacionalidade omitida. Porquê?

É verdade que houve portugueses que tiveram uma atuação de tal modo notável que, no final da guerra, foi-lhes atribuída a mais alta condecoração da França. Houve pelo menos um caso de um português, que se chamava João Carlos da Silva, mas quando o diploma sai em Diário da República, aparece com nome em francês e sem a nacionalidade. Os franceses precisavam de heróis, depois do trauma da invasão nazi e de terem adotado uma postura mais ou menos conformista, e tudo o que apanhassem na rede era bom. No caso desse, até era um herói, mas não era francês, era português.

Mas, enquanto conjunto, a resistência portuguesa continua a ser ignorada, mesmo em França?

Em França, houve sempre um reconhecimento individual. Atribuíram-se várias condecorações, incluindo a mais alta condecoração no país e condecorações por combate (o que é uma coisa muito rara). Enquanto conjunto, a França continua a ignorá-los, tal como nós os ignoramos, porque nunca ninguém se deu ao trabalho de lançar a pergunta que Rui Moreira fez e que eu próprio nunca coloquei a mim mesmo. Houve portugueses na resistência em França? Sim, houve e foram proporcionalmente mais do que franceses. A partir daí, o que Portugal quiser fazer com eles, fará.

Acha que devem agora ser distinguidos pelo Estado português?

Não podemos ser acusados de não nos lembrarmos daquilo que ignorávamos. Agora já não temos desculpa nenhuma. Agora já sabemos quem eram os resistentes e sabemos o que é que fizeram. Se voluntariamente queremos ignorá-los, é com o Governo português e com a memória coletiva dos portugueses. Mas aí sim, podíamos dizer que, deliberadamente, queremos ignorá-los.

Artigo publicado na edição nº 1987 de 3 de maio, do Jornal Económico

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