Marcelo pôs o chapéu errado

Marcelo Rebelo de Sousa fechou o mês de maio com um erro de indumentária. Tirou do armário um chapéu antigo, o de comentador da atualidade política, confundindo o com o atual, o de Presidente da República.

Durante vários anos o ex-líder do PSD teve cadeiras poderosas, na rádio e na televisão, a partir das quais comentava, e influenciava, o teatro da política portuguesa. As avaliações do professor eram nervosamente aguardadas pelos atores políticos, pois o impacto na plateia era amplo e profundo. Quando lançou a candidatura a Belém, em 2015, o professor de Direito deixou no armário o chapéu de comentador, mas de vez em quando parece ter saudades desse acessório.

Num comentário às eleições europeias, o Presidente falou sobre a forte possibilidade de uma crise na direita portuguesa, de uma fragmentação dessa ala política em até seis partidos e da impossibilidade de diálogo entre PSD e CDS-PP. No campo da esquerda, destacou que está mais forte do que a direita, que o Governo também está forte e com diferentes possibilidades de formar maioria, devido ao crescimento de partidos pequenos (vulgo PAN).

Vários aspectos desta leitura podem ser questionados. Primeiro, o resultado das europeias foi negativo para a direita, algo que foi admitido tanto pelo PSD como pelo CDS-PP. Mas daí a antever uma crise parece exagerado. Foram eleições com um nível de abstenção substancial, o que torna qualquer extrapolação para as legislativas num exercício perigoso. Segundo, a existência de mais partidos na direita é um fenómeno natural na Europa de hoje e não é claro que a fragmentação seja má por si mesmo. Quanto à impossibilidade de diálogo, é um diagnóstico que a própria atualidade já começa a desmentir, com vozes do PSD a sugerirem já uma PàF 2.

A análise da esquerda tem na base um Governo “forte”, que soa estranho dada a guerra do PS com toda a esquerda no recente caso dos professores. A ‘geringonça’ sobreviveu, mas não deixa de ser uma ‘geringonça’. Se a esquerda está forte é provavelmente porque está no poder. Quando a coligação de centro-direita governou na era pós-Sócrates também estava mais forte e ninguém vaticinou uma crise terminal na esquerda.

O problema principal não é a leitura, que pode ser discutida, mas a motivação da intervenção. O Presidente disse que, dada a leitura, o seu papel é importante para equilibrar os poderes. Marcelo admitiu que não pode ser oposição, mas tem de estar muito sensível ao equilíbrio.

Será mesmo esse o papel do Presidente num sistema multipartidário? Quem define, bottom line, o equilíbrio dos poderes são os eleitores. Será necessário o Presidente da República, no meio de duas eleições, vir comentar e influenciar os atores políticos e os eleitores, no espaço público e não por trás dos portões do Palácio de Belém?

Marcelo Rebelo de Sousa falou ainda sobre a potencial recandidatura, dizendo que só irá decidir no próximo ano e que a decisão tem a ver com esse tal papel do Presidente no equilíbrio dos poderes. A Web Summit, a visita do Papa e a ausência de incêndios já foram todos referidos por Marcelo como eventuais motivações para uma recandidatura. À lista junta-se agora o papel de garante da balança.

David Justino, do PSD, e Carlos César, do PS, já acusaram o Presidente de usar a possibilidade da crise da direita como contexto favorável à recandidatura. É difícil discordar, pois a intervenção não faz sentido vista de qualquer outro prisma. Se calhar a escolha do chapéu errado não foi por mero acaso.

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