Mário Centeno: leitores do Jornal Económico escolheram-no para Personalidade do Ano

Mário Centeno, o “Ronaldo das Finanças”, chegou à presidência do Eurogrupo no início de 2018.

Cristina Bernardo

Apresentado pela imprensa internacional desta forma elogiosa, ele é o primeiro presidente deste órgão com origem num país do sul da Europa e, em particular, de um país alvo de uma operação de resgate financeiro. Ao longo deste tempo, o ministro das Finanças português, adotou sempre um discurso positivo. “Depois de ter estado focado, durante muitos anos, na gestão de crises, o Eurogrupo pode finalmente virar todas as suas atenções para o processo de completar a arquitetura da UEM [União Económica e Monetária]”.

Se a logística diária de Centeno é exigente, a tarefa política não é menos árdua. Conseguir consensos numa Europa ainda a sentir os efeitos da crise e dos polémicos programas de ajustamento não se adivinhava fácil. O ministro assumiu que ambicionava conciliar os objetivos de consolidação orçamental com um crescimento inclusivo e a criação de emprego. “As nossas regras orçamentais não são um fim em si mesmas, visam criar as condições para um crescimento económico sustentável e facilitar o funcionamento da União Económica e Monetária”, disse no mês passado. Aliás, um ano depois de ter sido eleito como presidente do Eurogrupo, Mário Centeno alcançou um acordo que permite avançar com a reforma da Zona Euro. No entanto, nem tudo foi perfeito. O governante protagonizou um vídeo saudando o fim do programa de assistência à Grécia mas o seu conteúdo tem sido bastante atacado.A primeira crítica feroz veio de Yanis Varoufakis, o antigo ministro das Finanças grego, que o comparou à “propaganda norte-coreana”.

“Obsessão pelo défice”

A “obsessão” pelos números do défice foi uma expressão que ouviu de vários líderes partidários. No dia da conferência de imprensa do Orçamento do Estado, e quando questionado se a previsão de défice é de 0,2% para agradar aos parceiros de esquerda do executivo salientou que “o défice não é uma representação gráfica e não é de 0,1% ou de 0,2% para agradar a uns ou a outros”. Já questionado se este seria a última proposta orçamental que apresentaria enquanto ministro das Finanças, para se perceber se faria parte de um próximo executivo, Mário Centeno ironizou: “Este foi o último Orçamento do Estado que apresentei porque acabei de o apresentar”. O ministro deixou assim em aberto detalhes quando ao seu futuro político.

Nascido em Olhão, passou a infância em Vila Real de Santo António e mudou-se aos 15 anos para Lisboa, onde, com os três irmãos, continuaria os estudos. O curriculum e a licenciatura em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), concluída com 16 valores, valeram-lhe a entrada em Harvard. No entanto, nunca esqueceu as raízes. Aliás, o ministro das Finanças foi mesmo homenageado em Vila Real de Santo António, no âmbito do Dia da Fundação da Cidade, com a Medalha de Mérito Municipal pelo seu “brilhante percurso académico” e “carreira internacional de sucesso” na área da Economia.

Filho de uma funcionária dos CTT e de um bancário, regressou a Lisboa com a mulher e os três filhos em 2000, onde entrou no Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal, tendo sido nomeado diretor-adjunto do departamento quatro anos depois, cargo que ocupou até ao final de 2013.

“Harvard foi uma revolução na minha forma de ver a economia em quase tudo”, disse Manuel Centeno, de 52 anos, numa entrevista à Visão. “Tornei-me muito mais sensível à relação entre a economia e as pessoas”. É que, salientou, “por vezes, a macroeconomia esquece-se que do outro lado estão as pessoas”. Segundo os amigos mais próximos do ministro, os choquinhos fritos com tinta são uma das especialidades gastronómicas que o próprio  gosta de cozinhar. É benfiquista e, além do futebol, gosta de rugby, que jogou na Faculdade.

Artigo originalmente publicado na edição impressa de 28 de dezembro de 2018

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