Martin Kern: “Uma economia não se mede apenas pelo número de unicórnios”

Em entrevista ao Jornal Económico, o diretor do Instituto Europeu da Inovação e da Tecnologia refere que o aumento orçamental proposto pela Comissão Europeia para os próximos anos pode beneficiar as startups e as atividades de investigação em Portugal.

É provavelmente o único triângulo amoroso que funciona: educação, investigação e inovação. Manter estes três pilares de conhecimento unidos é a principal missão do Instituto Europeu da Inovação e da Tecnologia (EIT, na sigla inglesa), que só em Portugal financiou projetos com 9 milhões de euros entre 2014 e 2017. Agora há uma proposta de Bruxelas em cima da mesa que coloca mais 600 milhões de euros nos cofres deste instituto, o que também vai beneficiar os investigadores e empreendedores portugueses, disse o diretor ao Jornal Económico (JE).

“Pode ser também muito interessante para Portugal, porque pode-nos levar a aumentar as nossas equipas regionais, favorecendo mais países. Em Portugal a EIT tem aumentado a sua atividade. O plano vai agora ser discutido pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho Europeu, mas esperamos que no próximo ano a estratégia seja aprovada pela União Europeia”, afirmou, em entrevista telefónica a partir da Budapeste.

O montante concedido pelo EIT a Portugal aumentou 4% de 2016 para 2017, sendo esperado que se mantenha a subir nos próximos anos. Só em atividades ligadas à sustentabilidade energética, em 2017, o EIT alocou 3.017,804 euros. A presença deste instituto no país advém de uma estratégia designada regime regional de inovação (RIS), que visa impulsionar a inovação nos países europeus considerados inovadores modestos ou moderados. Em comparação com os outros Estados-membros, Portugal pode ser um inovador modesto, mas não aos olhos de Martin Kern, que não mede a dimensão do ecossistema pelo número de unicórnios.

“Uma economia não se mede apenas pelo número de unicórnios, mas sim de PME, startups… Há mais empresas a crescer numa escala muito boa. Aliás, pode ver-se isso mesmo em Portugal. Nos anos mais recentes temos visto startups muito interessantes, produtos inovadores oriundos das nossas atividades aí, o que não se via antes. Não só o dinheiro que investimos aumentou como o engagement”, assegurou.

Mais de 20% dos 34 parceiros do EIT em Portugal são pequenas e médias empresas (PME), mas, como manda a génese desta organização, o ensino superior e as incubadoras fazem parte do seu leque de braços-direitos, como a Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, o ISCTE-IUL, a ANJE ou o Instituto Pedro Nunes.

A nível europeu, a comunidade EIT tem 50 hubs, apoiou empresas que atraíram investimentos na ordem dos mil milhões de euros e criaram mais de 6 mil postos de trabalho. Um dos casos de sucesso destacados foi o recente financiamento de 350 milhões de euros da sueca Northvolt. O diretor do EIT descarta que a Europa esteja a ficar para trás na corrida da inovação, mas admite que o ‘Velho Continente’ tem caminhado a diferentes velocidades e trabalhado pouco em grupo. Para Martin Kern, é aí que entra o modelo usado do instituto, com um papel agregador pan-europeu e de promoção do casamento entre investigação/academia e produtos/empresas.

“Acho que há definitivamente uma tendência positiva na Europa. Temos ótimos investigadores, ótimos cientistas, ótimas universidades. O problema no passado foi que esses ótimos conhecimentos e ideias não passaram para produtos e serviços, e aí os Estados Unidos foram mais bem-sucedidos nesse ponto. A Europa tem muitas forças distintas, segmentação, diferentes línguas, e nem sempre uma forte abordagem de equipa como acontece em grandes países, como a China”

Há três semanas, a Comissão Europeia propôs uma atualização da base jurídica do EIT e apresentou a Estratégica da Inovação para 2021-2027, na qual se prevê que o instituto financie atividades das suas oito Comunidades de Conhecimento e Inovação (CCI) – clima, energia, matérias-primas, digital, alimentação, indústria, mobilidade urbana e saúde –, crie novas e apoie a capacidade de inovação de 750 instituições de ensino superior com investimento monetário e formação. As metas são mais ambiciosas, mas a sugestão de orçamento para o EIT também:  3 mil milhões de euros, mais 25% do que em 2014-2020.

“Falando de maneira geral, estamos felizes de que o EIT seja agora tão bem reconhecido. As notícias da Comissão Europeia são a confirmação disso. Alterámos o panorama de inovação europeia. Há mais estudantes empreendedores e startups que lançam produtos e serviços que realmente impactam a sociedade e respondem aos seus desafios”, diz o diretor do EIT.

As artes são a próxima aposta. Daqui a três nos será lançada uma nova CCI no campo da cultura e das indústrias criativas. “É uma área como muito potencial de inovação se pensarmos na quantidade de tendências culturais e diversidade que temos na Europa. Na música, no cinema… Poderemos torná-la num maior contribuidor para o crescimento da economia, com novos produtos e serviços. A Comissão também indica que poderá ainda haver outra comunidade em 2024 ou 2025 num campo ainda por definir, o que até faz sentido porque não podemos realmente prever agora o que é que daqui a cinco anos vai ser desafiante ou ter potencial”, explica Martin Kern, em declarações ao JE.

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