Montepio avaliado em 1,88 mil milhões nas contas da Mutualista de 2017

Valor da Caixa Económica sobe para 1,88 mil milhões, líquido de imparidades, no balanço de 2017 da Associação Mutualista. Este valor serve de referência para o negócio de venda de uma participação do banco. Se a Santa Casa oferecer um preço muito abaixo deste valor, a Mutualista é obrigada a reforçar imparidades, o que consome o lucro que foi de 587,5 milhões.

Cristina Bernardo
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Foi publicado no site da Associação Mutualista o Relatório e Contas de 2017 e o facto mais relevante do documento de 173 páginas, é um aumento da avaliação da Caixa Económica Montepio Geral. O banco que no Balanço de 2016 (quando a Associação Mutualista tinha 94,7%) valia 2,016 mil milhões de euros em termos brutos, a que acrescia uma imparidade de 350 milhões de euros que baixa o valor do banco para 1,66 mil milhões, agora vale 1,88 mil milhões líquido de imparidade. Mesmo tendo em conta que a Associação liderada por Tomás Correia tem agora 100% e não apenas os 94,7% que detinha em 2016, o valor do banco ainda assim subiu. Numa comparação pro-forma, os 1,66 mil milhões equivaleriam a 1,78 mil milhões se o banco pertencesse à Associação a 100% já em 2016.

O Relatório e Contas de 2017 da Associação diz que “a rubrica de Imparidades e Provisões, líquidas de reversões, registou um reforço significativo em 2017, totalizando 230 milhões de euros”.

“Este reforço traduz a adoção de uma política prudencial muito conservadora de constituição de Imparidades para as participações nas empresas do setor segurador e bancário, Montepio Seguros e Caixa Económica Montepio Geral (CEMG)”, adianta.

De facto, “não obstante a melhoria do desempenho da CEMG em 2017, bem como das condições de mercado envolventes, entendeu-se prudencialmente mais ajustado proceder a novo reforço da respetiva imparidade, em 148 milhões de euros, atendendo à análise de sensibilidade aos níveis de risco prevalecentes e aos crescentes requisitos e futuras alterações da política monetária e do quadro regulatório prudencial do setor bancário”, explica fonte familizarizada com o assunto.  Isto é, a Associação, cujas contas são auditadas pela KPMG, constituiu uma imparidade para acautelar o risco do quadro regulatório prudencial do setor bancário.

“A este valor juntou-se um valor de imparidade para a Montepio Seguros, de 80,2 milhões de euros, decorrente do respetivo teste de imparidade. Na sequência da alteração do estatuto fiscal da MGAM (…) foram contabilizados impostos diferidos de 809 milhões de euros, com significativo impacto no resultado do exercício de 2017”, lê-se no relatório, o que de resto já tinha sido anunciado.

No caso da Montepio Seguros a imparidade é justificada por outro motivo: O ajustamento da participação financeira para adequar ao acordo celebrado com a CEFC China. A Montepio Seguros vale agora 106 milhões de euros, quando valia 186,5 milhões de euros em 2016.

Isto é muito relevante, porque um negócio, mesmo potencial, pode forçar à constituição de imparidades, desde que o valor oferecido seja inferior ao registado em balanço, e isso foi o que aconteceu com a Montepio Seguros.

Esta vicissitude pode explicar o motivo das negociações da Santa Casa da Misericórdia com a Associação Mutualista para encontrar um valor para aquela entrar no capital do banco CEMG. A Associação Mutualista tem de garantir que a oferta da Santa Casa se aproxima do valor do banco registado em balanço da Associação. Quer sejam os 200 milhões por 10%, quer sejam os quase 50 milhões por 2%, o valor de base é o mesmo, o que poupa a Associação Mutualista a registar imparidades adicionais. Uma oferta de mercado a um valor inferior ao registado em balanço põe os auditores a obrigar à constituição de uma imparidade da diferença de valores, o que podia deitar por terra os resultados positivos da Associação Mutualista.

Ativos por impostos diferidos vistos à lupa

Os Ativos por Impostos Diferidos Apurados são as quantias de impostos sobre o rendimento recuperáveis em períodos futuros respeitantes a diferenças temporárias dedutíveis; e ao reporte de perdas fiscais não utilizadas.

Na componente “reconhecimento de ativos por impostos diferidos relacionados com diferenças temporárias” o valor é de 620 milhões de euros e está relacionado com todas as provisões que a Associação Mutualista fez ao longo do tempo para garantir as responsabilidades assumidas com os Associados, e que não eram fiscalmente aceites porque a Associação Mutualista estava isenta de IRC. Mas no futuro, quando as provisões forem utilizadas para pagar os benefícios aos Associados, essas quantias agora apuradas em ativos por impostos diferidos têm de ser utilizadas, segundo fonte.

Na componente “reconhecimento de ativos por impostos diferidos relacionados com prejuízos fiscais de 2015, 2016 e 2017” o valor é de 202 milhões de euros. Aqui trata-se de um reporte fiscal normal que será utilizado quando a Associação Mutualista tiver lucro fiscal. Nessa altura pode utilizar esses montantes para “acertar as contas” com o fisco, até ao montante de 70% do imposto a pagar em cada ano.

A estes dois montantes é abatido o valor de 20 milhões de passivos Fiscais e acrescido outros reconhecimentos no valor positivo de 6 milhões de euros. E assim se chega ao Registo de Ativos por Impostos Diferidos +808 milhões de euros.

Entradas e Saídas de Capitais na Associação Mutualista
As entradas de capitais foram 720,5 milhões de euros em 2017, mais 48,3% do que em 2016 (485,8 milhões de euros), anuncia a Mutualista. No ano passado entraram capitais 720 milhões de euros e saíram 1.094 milhões de euros, ou seja um saldo negativo de 374 milhões de euros, o que representa cerca de 9% do balanço (que em 2017 é de 3,9 mil milhões de euros). “Isso deve-se ao maior número de séries de modalidades de capitalização que se venceram em 2017”, diz fonte próxima.

Decomposição dos Resultados da Mutualista
O Resultado Operacional da Associação Mutualista foi positivo em 9 milhões de euros, mas como as imparidades registadas para as participações no CEMG e na Montepio Seguros foram de 230  milhões de euros (o que é um custo), logo os Resultado antes de Impostos foram negativos em 221 milhões de euros. A isto acresceu os ativos por impostos diferidos que somam 808 milhões de euros
e assim se obtém o Resultado Líquido +587,5 milhões de euros.

Custos com Pessoal e Administrativos
Os custos com pessoal não tiveram praticamente variação de 2016 para 2017 mantendo-se nos 4 milhões de euros. Já os Gastos Gerais Administrativos caíram 12,4%, de 28,3 milhões de euros em 2016 para 24,8 milhões de euros em 2017.

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